A 4 Mãos: O que fica de 2017?

 

 

Marcos Melo (MM): 2017 está a dar as últimas. 2018 esgueira-se, ao virar da esquina. Foram doze meses recheados de acontecimentos — uns mais mediáticos e outros mais discretos. Nestas lides dos media, é um habitué fazer-se a revista do ano. Por razões compreensíveis, todos os órgãos de comunicação social debruçam-se sobre os mesmos assuntos — e, provavelmente, nós fá-lo-emos, também. Neste artigo, proponho respondermos à pergunta: quando pensas em 2017, de que te recordas? Contudo, não somos obrigados a mencionar o óbvio (podemos ou não fazê-lo).

 Assim sendo: Maria, sob o teu olhar, o que marcou 2017?

 

Maria Moreira Rato (MMR): O acontecimento que surge na minha mente em primeiro lugar é algo que decorreu no vigésimo dia de 2017. Não te diz nada? Pois, é normal, imensas coisas aconteceram, mas a tomada de posse de Donald Trump como Presidente dos EUA foi uma delas.
Honestamente, sempre fui contra a sua candidatura, portanto, não poderia ter sido a favor da sua vitória. Ora bem, tudo foi estranho: desde grupos de dançarinas que se recusaram a atuar para o Presidente por admitirem que Trump representa aquilo que odeiam até o bizarro encontro de Trump com Barack Obama – não é segredo que se odeiam e tiveram de fingir que a “passagem do testemunho” estava a ser absolutamente harmoniosa e claro, não nos podemos esquecer do juramento, em que Trump afirmou: “Eu juro solenemente que irei desempenhar fielmente as funções de Presidente dos Estados Unidos e irei dar o meu melhor para preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos” – tenho pena de Alexander Hamilton, James Madison e outros mais que criaram a constituição na Convenção de Filadélfia, porque talvez nunca tivessem imaginado que alguém tão retrógrado quanto Trump fosse ler as suas palavras.
Após o meu desabafo político, diz-me, achas que a bandeira estrelada ainda triunfará ou… Bom, é melhor perguntar-te: se te falar deste ano que está a findar, pensas em quê?

 

MM: A presidência de Trump à frente daquela que se diz ser a maior potência do mundo marcou, sem dúvida, o ano. O cenário é surreal, mas é factual. Trump é o Presidente dos EUA. Trump é um lunático e um irresponsável que consegue mover uma legião de fiéis. Lembremo-nos de que, em Agosto, decorreu, na cidade de Charlottesville (Virgínia), uma das maiores manifestações de extrema-direita dos últimos anos nos EUA. Por outro lado, Trump protagoniza uma birra de crianças mimadas com Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte. A guerra nuclear é uma ameaça para a Humanidade. Mas as ditas criançolas insistem no jogo a-minha-pilinha-é-maior-do-que-a-tua. Por fim, a Administração Trump manchou 2017 pela retirada dos EUA do Acordo de Paris, deixando claro o desprezo do país do Tio Sam em relação às questões do clima, e, mais recentemente, pela decisão de transferir a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, reconhecendo esta cidade como capital de Israel, agravando o conflito israelo-palestiniano. E este é só o primeiro ano do mandato de Trump…

 Agora, sem ser exaustivo, enunciarei alguns acontecimentos que marcaram o ano (sem qualquer hierarquia de importância — limito-me a despejar o que me ocorre quando olho em retrospectiva). São eles:

— Salvador Sobral torna-se a coqueluche da música portuguesa e, contra todas as expectativas, vence o Festival Eurovisão da Canção (a primeira vitória de sempre para Portugal);

— As fake news são uma praga e não há desinfestação que as extermine;

— O Papa Francisco visitou o Santuário de Fátima, no âmbito das celebrações do centésimo aniversário das aparições da Nossa Senhora aos pastorinhos;

— Os incêndios de Junho e Outubro pintaram o País de negro;

— A Catalunha esteve na ordem do dia (parte 1): em Agosto, Barcelona foi palco de um atentado terrorista, reivindicado pelo auto-proclamado Estado Islâmico;

— A Catalunha esteve na ordem do dia (parte 2): em Outubro, a Catalunha declarou a sua independência, depois de um referendo turbulento e, de seguida, Madrid destitui Puigdemont, o presidente regional da Catalunha;

— Lisboa está na moda e Madonna não resiste aos encantos da cidade das sete colinas;

— O machismo tomou conta dos juízes, legitimando casos de violência doméstica;

— O Jornalismo da TVI denuncia dois casos escabrosos: o da IPSS Raríssimas e o da IURD.

 Maria, que outros acontecimentos consideras que marcaram o ano?

 

MMR: Agora que enunciaste tudo aquilo de que te lembraste, recorri à minha memória e fiz uma espécie de throwback e recordei-me do dia 22 de março, em que houve o terrível atentado em Westminster – do qual resultaram 49 feridos e 6 mortos. O motivo? Extremismo islâmico. Ainda na vertente da violência, temos o caso do lançamento de mísseis contra a Síria por parte dos EUA, em resposta a um ataque químico, isto em abril. Mas como não importa falar só dos grandes países do globo, devo referir as explosões de São Petersburgo e Diyarbakir (Turquia) – ambas em abril – e o ataque terrorista em Mogadíscio (Somália), em outubro. E, infelizmente, a 1 de outubro, viveu-se um autêntico massacre em Las Vegas – o intitulado “Tiroteio de Las Vegas Strip”.
Como nem tudo é mau, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi finalmente legalizado na Austrália e na Áustria. Em território nacional, uma equipa internacional de arqueólogos liderada por João Zilhão, encontrou o fóssil humano mais antigo já encontrado, um crânio com aproximadamente 400 mil anos! Outro ponto positivo é o facto da justiça não ter sido totalmente cega, e caso disso é a investigação relativa aos Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual já contar com oito arguidos, a Operação Marquês não ter cessado e o “desaparecimento” de 10 milhões de euros para offshores sem tratamento pelo fisco não ter passado despercebido! E, para mim, o novo estatuto jurídico dos animais foi, sem dúvida alguma, uma das melhores coisas que este 2017 nos trouxe, na medida em que os nossos melhores amigos deixaram de ser considerados como “coisas” pela lei.
Marcos, tens algo a acrescentar?

 

MM: Lendo o primeiro parágrafo da tua resposta, constato que, infelizmente, o ano 2017 foi assolado por inúmeros ataques terroristas. Sobre este assunto, deixo uma nota para reflectirmos: o terrorismo não se cinge ao islamismo — isto porque, por exemplo, os media nunca se referiram a Stephen Paddock, o autor do massacre de Las Vegas, que provocou 59 mortos e mais de 500 feridos, como terrorista; porquê?.

 Mas, para terminarmos este artigo com um tom optimista — e para encararmos 2018 com esperança —, enuncio alguns factos que classifico com nota positiva:

— Marcelo Rebelo de Sousa demonstrou ser o Presidente da República de que o País precisa: um ser humano (acima de tudo) próximo dos portugueses;

— Desde 1 de Maio, aos olhos da Lei, os animais deixaram de ser considerados “coisas”;

— Portugal saiu do Procedimento por Défice Excessivo (superior a 3% do PIB) e na segunda metade do ano duas agências de notação financeira (a Standard & Poor’s e a Fitch) sobem o rating do País.

 A lista poderia continuar, mas, para não forjar a espontaneidade deste artigo, neste momento, são estes três factos que me ocorrem.

 Por fim, respondendo à questão “O que fica de 2017?”, eu diria que, por certo, foi um ano agridoce, com altos e baixos. Mas 2018 será, certamente, melhor — assim o esperamos.

 Até 2018, Maria!

 

Autor
Marcos Melo

Diz que é o cota da ESCS MAGAZINE. Testemunhou o nascimento do projeto, foi redator na Opinião e, hoje, imagine-se, é editor dessa mesma secção. Recuando no tempo... Diz que chegou à ESCS em 2002, para se licenciar, quatro anos mais tarde, em Audiovisual e Multimédia. Diz que trabalha há nove no Gabinete de Comunicação da ESCS – também é o cota lá do sítio. Diz que também por lá deu uma perninha como professor. Pelo caminho, colecionou duas pós-graduações: uma em Comunicação Audiovisual e Multimédia (2008) e outra em Relações Públicas Estratégicas (2012). Basicamente, vive (n)a ESCS. Por isso, assume-se orgulhosamente escsiano (até ser cota).

Autor
Maria Moreira Rato

Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

 

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