A arte do “jogo nobre”

O livro de que vos falo este mês é uma das maiores surpresas literárias que já tive: Novela de Xadrez de Stefan Zweig.

Stefan Zweig nasceu a 28 de novembro de 1881, na cidade de Viena, e é considerado um dos mais influentes autores da primeira metade do século XX. De ascendência judaica, foi poeta, ensaísta, novelista, contista, dramaturgo, historiador e biógrafo, mas não necessariamente por esta ordem.

Em 1934, durante o regime fascista de Dollfuss, Zweig exilou-se voluntariamente, rumando primeiramente a Inglaterra e mais tarde a países como os Estados Unidos da América e o Brasil. Deprimido com o alastrar do autoritarismo no continente europeu, foi exatamente no Brasil que Stefan Zweig pôs fim à sua vida, mais precisamente a 23 de fevereiro de 1942. Novela de Xadrez foi a última obra do autor, concluída um dia antes do suicídio e só publicada postumamente.

Mas passemos ao enredo: a história ocorre a bordo de um navio de passageiros a vapor, durante a travessia entre Nova Iorque e Buenos Aires. A bordo do navio descobre-se, a certo momento, que nele segue o campeão do mundo de xadrez, Mirko Czentovic, um homem arrogante, altivo e sem maneiras. O entusiasmo apodera-se dos passageiros e, no meio destes, forma-se um grupo que rapidamente desafia o campeão. Para que o jogo lhes seja concedido, o corajoso grupo tem de pagar, tudo para aos poucos conhecerem o sabor de uma derrota iminente. De forma quase milagrosa, eis que surge Dr. B., um enigmático passageiro com um fabuloso domínio do jogo, que depressa se prontifica a aconselhar o grupo em apuros. E assim se altera drasticamente o rumo dos acontecimentos…

A história é narrada pelo admirável Dr. B., que, ao mesmo tempo que descreve o impressionante jogo de xadrez travado a bordo do navio, revela inúmeros pormenores da história da sua vida, que muito têm em comum com a vida do próprio Stefan Zweig.

Mais do que uma simples obra, esta é uma poderosa e dolorosa reflexão sobre o nazismo e sobre uma fuga quase impossível.

Com uma escrita fluída ao longo de toda a obra, as descrições presenteiam o leitor com imagens mentais ricas e nítidas.

Trata-se de uma ficção altamente psicológica e repleta de suspense, que recomendo a todos, mesmo àqueles que se dizem fatigados do tema do nazismo.

Stefan Zweig morreu em plena Segunda Guerra Mundial e acabou por não assistir à queda de Hitler, mas deixou uma nota aos amigos, dizendo: “Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.”

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