A Escada

Esta crónica é escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico

Há algum tempo que não escrevo nada 100% pessoal. O alarme já toca, sinalizando uma necessidade de libertar algum pensamento escuro e coberto de teias de aranha que tenho neste meu sótão.

Eu estou doente. Eu sou doente. Há um metafórico cancro que me consome dia após dia. Uma voz tímida na minha cabeça. Um medo rastejante. Uma paralisação. Uma pseudo agorafobia.

Sem me expor gratuitamente, confirmo que padeço de males neuropsiquiátricos – um misto indefinido entre ansiedade, depressão e outras coisas fofas.

Vejo todos ao meu redor a evoluir, a avançar, a trabalhar, e eu aqui fico, parado e dormente, incapaz de fazer seja o que for. Amigos e familiares trepam alegremente a escada do ofício e eu caio vez após vez no primeiro degrau. A única verdadeira rede de segurança que tenho apareceu há 2 anos e eu amo-a incondicionalmente.

O Belarmino cerra os dentes e vem jogar e, tal como ele, fui sempre pouco com medo de ser inteiro. Sei que sou brilhante, que tenho inteligência muito acima da média, mas isso está longe de ser um dom. Para além do eterno ruminar existencialista, nunca consegui corresponder às expetativas dos outros: “é tão esperto e faz tão pouco”.

É verdade que lutar pela existência é muito difícil, mas o imperativo biológico para sobreviver falou, fala e falará sempre mais alto. Mesmo que os passos sejam muito tímidos. Mesmo que nunca consiga subir a escada. Não gosto de vidas retilíneas – há maneiras e maneiras de viver e sobreviver e só “Deus” pode julgar. Se respeitarem a regra de ouro de Confúcio, “não faças aos outros aquilo que não queiras que te façam a ti”, a vossa existência é somente vossa.

Se eu for o Newton, mas sonhar em ser um carpinteiro, então, do fundo do meu espírito, quero que todos vocês se f*** – quero ser feliz a fazer aquilo que quero e o meu potencial é de exclusiva propriedade minha para usar, abusar ou deitar fora.

Talvez esteja a fazer projeção psicológica. Talvez esteja a justificar a minha incompetência. Talvez esteja a venerar a minha preguiça. Só sei que vos estou a maçar com este vómito pessoal.

Perdoem-me o exorcismo.

Autor
João Carrilho

João Carrilho é a antítese de uma pessoa sã. Lunático, mas apaixonado, o jovem estudante de Jornalismo nasceu em 1991. Irreverente, frontal e pretensioso, é um consumidor voraz de cultura e um amante de quase todas as áreas do conhecimento humano. A paixão pela escrita levou-o ao estudo do Jornalismo, mas é na área da Sociologia que quer continuar os estudos.

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