Corações que alimentam

Ajoelhado, a céu aberto, espeta um prego num degrau para fixar a cortina que cai. Novas ordens mandam tornar aquele espaço mais recatado. Lá dentro, Laura prepara-se para lavar a loiça que surgirá em abundância daí a instantes. Fernando vai buscar os sacos vazios e despede-se dos que ficam. Muitos outros vão chegando. Em cada pastelaria que entra, a pergunta que lhe colocam é sempre a mesma: “Amanhã vai ao Marquês?”. As respostas vão variando, ao contrário da réplica de Fernando, que sai certeira e afirmativa, um dia antes da disputa final. Gosta do Benfica, dos patos dos jardins da Gulbenkian e das pessoas. A aparência de uma vida de sobressaltos e angústias não coincide com os cinquenta anos que faz daqui a menos de dois meses. Perdeu o pai com treze anos e a mãe com trinta e três e esse foi só o ponto de partida para uma vida de desamparos.

Fernando Afonso é um dos seis voluntários beneficiários da Refood de Nossa Senhora de Fátima, o primeiro núcleo de uma organização que visa combater o desperdício alimentar. Como ele, há mais cinco pessoas que dão o seu tempo para ajudar uma instituição que as ajuda a elas.

Na visão de Teresa Gama, responsável pela gestão dos voluntários, o ideal era que a Refood funcionasse com a ajuda dos 141 beneficiários. No entanto, nem todos têm essa disposição e aquele que é designado como um movimento de pessoas vive, sim, com a ajuda de um grande leque de voluntários – os que se apresentam de forma assídua, semanalmente, quinzenalmente, ou mensalmente; os que vão de forma mais irregular por não terem disponibilidade para se comprometer; os que estão a fazer serviço comunitário; os alunos que escolhem esta organização para fazer um dado número de créditos que visa enfatizar a componente humana; e os trabalhadores de empresas que se comprometem a ajudar a Refood.

As pedras da calçada guardam, todos os dias, os passos e a história de Fernando. Uma história de um homem que se perdeu quando perdeu o emprego, uma história igual à de tantos outros. Fernando trabalhou sempre na área da publicidade, começando por ficar responsável pela secção de uma firma de coleções e numismática. Foi despedido e perdeu a casa em Campo de Ourique. Voltou à publicidade, mas, desta vez, enquanto motorista e distribuidor, o que não o fez ficar lá muito tempo. Em 2013, foi encaminhado para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde o acolheram durante três meses e o ajudaram a requerer o Rendimento Social de Inserção. Depois de sair do centro de acolhimento, esteve num quarto dois meses e meio, mas a falta de dinheiro levou-o até às ruas de Lisboa. “Dormi dois meses na rua, mas o tempinho estava quente, então não liguei muito.” Conseguiu arranjar um quarto, entretanto, mas o esquecimento de entregar os papéis para a renovação do Rendimento Social de Inserção ditou a rápida saída deste quarto e o regresso ao centro de acolhimento, onde ficou durante duas semanas. “Não me quiseram lá.” Sem opções, chegou a passar algumas noites no aeroporto, em janeiro de 2015.

Agora, a partir do sol-posto, as ruas já não lhe pertencem. Mas continua a percorrê-las, todos os dias, para recolher as refeições que, depois, vão também ser distribuídas a pessoas que vivem como ele já viveu. Foi aquele infortúnio que o levou às carrinhas do Saldanha e, mais tarde, à Refood. “No início, levava só um saquinho com sandes e salgados. Depois, um amigo beneficiário disse para me inscrever e aí passei a levar uma refeição quentinha.”

É hora de voltar ao núcleo para deixar as caixas de comida dos restaurantes a que já se dirigiram. Normalmente, as recolhas fazem-se a pares. Lá dentro, há muita gente a trabalhar para alimentar os beneficiários que já começam a chegar. Há voluntários a encher caixas para as famílias, outros a fazer sacos de pão e bolos e outros ainda a receber as famílias e distribuir-lhes os alimentos.

Laura Dorié, de 60 anos, está na copa a lavar as caixas dos restaurantes que vão ficando vazias à medida que os voluntários enchem as dos beneficiários. É beneficiária há quatro anos e voluntária há pouco menos. Já passou por todas as funções – recolha, distribuição e preparação – optando por se comprometer com esta última. Todas as quartas e quintas-feiras, dá duas horas à Refood. “Experimentei e gostei, gosto do ambiente.” Ao contrário de Fernando, tem um emprego estável, enquanto porteira do prédio onde vive, na Avenida Sacadura Cabral, e já passou por outros trabalhos, como casas de repouso e supermercados. Foi mãe solteira com 29 anos de uma menina que viu emigrar para a Suíça por falta de emprego em Portugal. Apesar desse vazio, preenche o coração com a família de sangue e a família Refood.

Fernando tem só a família Refood. Dois anos depois de a mãe morrer, os restantes familiares afastaram-se e quando Fernando sofreu a ação de despejo, cortaram mesmo relações. “Deixaram de me falar. Eu ligava-lhes para casa e eles desligavam. Sabiam onde me podiam encontrar, mas nunca foram à minha procura”, afirma, desiludido. Apesar disso, ainda pensa numa reaproximação. “Vou ver se entro em contacto com eles através do Facebook, pelo menos para saberem que ainda estou vivo.” Também a filha se afastou. “Estive com ela até aos três anos, quando me separei da mãe dela. Mais tarde, ofereci-lhe um telemóvel e ligava-lhe uma ou duas vezes por semana. A dada altura, começou a não atender e depois mudou de número. Não quis fazer vida comigo”, confessa, ressentido.

Na Refood, Fernando recebe o amor que a família lhe negou. “Não há ninguém aqui que não goste de mim. Sou muito bem tratado.” Cinco meses depois de se inscrever como beneficiário, começou a ser voluntário. “Se me ajudam a mim, eu também os devo ajudar a eles.” Disponibilizou-se para fazer as recolhas de terças e quartas-feiras, mas lembra-se de, na primeira semana, ter logo ajudado de terça a quinta e, na terceira semana, já fazer de segunda a quinta. Para além disso, sempre que pode, ajuda a colmatar as faltas dos outros voluntários. “Fiquei logo com a alcunha de ‘tapa-buracos’!”, diz, risonho. Chegou a fazer três recolhas por dia durante três meses. Hoje, encarrega-se também pelos trabalhos pesados, que passam pela recolha materiais de restaurantes que vão fechar atividade para equipar os núcleos, e por pequenos trabalhos de remodelação dos espaços. Entretanto, abriu um novo núcleo junto à casa onde mora, a Refood de Santo António, mas Fernando não prescindiu do sítio onde é, todos os dias, tão feliz.

Está inscrito no centro de emprego desde setembro de 2013. Em junho de 2016 surgiu a primeira proposta de trabalho para um armazém de embalagens de cartão em Benfica, mas não foi selecionado. “Pelo menos tentei. Agora é esperar. Já li um estudo que diz que as pessoas que fazem voluntariado arranjam melhores empregos. Continuo à procura.” Apesar das constantes rejeições, Fernando não desiste de investir na educação. Através do Instituto de Formação Profissional, já conseguiu obter o primeiro nível de inglês, informática e atividades para crianças, que se juntam assim à sua habilitação de eletricista de construção civil. Em junho, vai iniciar uma formação de espanhol que lhe vai ocupar três horas diárias. Provavelmente vai deixar de ter tanta disponibilidade para a Refood. “Quando a Célia ou a Rita me ligarem para fazer os SOS, se calhar vou ter de dizer que não”, assume. Mas não pensa nunca em abandonar este projeto. “Uma pessoa vem para aqui a pensar noutras coisas, mas chega e conversa, liberta-se, e sai a pensar que vinha chateado com alguma coisa mas já não está”, reconhece. E convida muita gente a experimentar. “Há tantas instituições a precisar de ajuda. E faz tão bem às pessoas. Eu aconselho.”

São 20 horas e é tempo de Fernando ir descansar. Antes disso, espera que lhe entreguem uma das refeições que recolheu durante várias horas. Há 15 anos que está sozinho. Para ele, a Refood é a família que nunca teve. “Quando não tenho nada para fazer, venho para aqui. Às 18 horas já cá estou para começar às 18h30.”

João Pedro Almeida está a chegar para a rota das 21h30. Vem da Encarnação sempre que o chamam para ajudar e sempre que a sua parte psíquica o permite. Foi morar com os avós paternos aos 16 anos para cuidar da avó, que tinha partido uma perna e ficado com graves problemas de locomoção. Quatro anos depois, viu morrer os avós e o pai. A partir daí, ficou responsável pelo negócio dos avós de alugar casas grandes e subalugar os quartos, o que lhe deu sustento durante um período. A par disso, João Pedro tinha um trabalho estável numa companhia de seguros. Mas a morte da restante família aos 39 anos de idade arrastou-o para uma depressão profunda. Ainda conseguiu manter-se naquele trabalho cerca de um ano e meio, mas, após esse período, saiu, e os atrasos no pagamento da renda levaram a uma ação de despejo. Até chegar ao quarto onde está agora, na Encarnação, viveu três meses em casa de um amigo, em Caneças, e alguns dias no carro de uma amiga. A partir daí, só conseguiu trabalhos temporários. Vive das ajudas das instituições desde 2009. A Santa Casa da Misericórdia auxilia-o no pagamento do quarto e dos medicamentos. Já tem colesterol desde novo, mas com a morte da família chegou também a diabetes e a hipertensão. Agora que precisa de uns óculos, também é a Santa Casa que vai interceder. A Refood ajuda-o na alimentação há já três anos e o Rendimento Social de Inserção permite-lhe comprar os bens de primeira necessidade.

Quando, na rota, entra nos restaurantes e pastelarias, lembra-se do tempo em que, também ele, foi empregado de balcão. “Fui trabalhar para o café do meu pai, na Amadora, no 12.º ano, o que me fez levar seis anos a completar esse ano escolar.”, confessa. Quando o pai faleceu, passou para outra pastelaria e, mais tarde, para a Caixa de Providência da antiga TLP, como contínuo, durante três anos. Até que chegou à companhia de seguros, onde se manteve durante 11 anos.

Hoje, só deposita esperança nas empresas de trabalhos temporários, a sua fonte de rendimento de 2005 a 2009. O centro de emprego não o chamou uma única vez. “Às vezes, fala-se mal das empresas de trabalho temporário, mas consigo trabalho. Pagam certinho, faz-se descontos. O único problema são as comissões, mas faz parte.” Dessa forma, João Pedro conseguiu trabalho em várias empresas, como a Tabaqueira, a Modis e as tintas CIN, algumas delas a uma hora e meia de casa. Chegou ainda a ser assistente de vendas do círculo de leitores, algo de que se recorda com nostalgia. Os 52 anos que já viveu não vão ao encontro das exigências do mercado de trabalho e João Pedro sabe-o bem demais. Há pouco tempo, enviou mais de uma dezena de currículos para as lojas de um centro comercial que pediam colaboradores. Nem para uma entrevista o chamaram. “Alguns disseram que só queriam pessoas até aos trinta ou quarenta anos. Outros não apresentaram qualquer justificação, mas sei que é isso. Se é falta de qualificações, eu tiro. Mas se é idade, não posso fazer nada”, afirma, resignado. João Pedro não compreende esta realidade e só pede uma oportunidade. “As pessoas tanto são válidas aos 20 como aos 50. Há pessoas de 20 anos que trabalham mal ou não gostam de trabalhar e o mesmo se passa com as de 50. Acho que as empresas deviam colocar as pessoas à experiência durante um mês ou dois.” Sentiu a mesma dificuldade na procura de quarto. “Só aceitam raparigas ou estudantes. Parece que, chegando aos 40, 50 anos, somos postos de parte.”

O pequeno ganha-pão de João Pedro passa, neste momento, pela copa de um café perto de casa. Em março, começou a fazer as folgas do efetivo, o que só lhe garante 50 ou 60 euros por mês.

Tal como Fernando, enquanto beneficiário, sente obrigação de ajudar a Refood. “Se há pessoas que vêm até cá no fim de um dia de trabalho, sendo eu ajudado e estando desempregado, sinto que devo vir”. E, como Fernando, não pensa em abandonar este núcleo. “Já conheço as pessoas, a zona, e tenho passe. Preciso de sentir este carinho”.

É quase meia-noite. As portas da Refood fecham-se mas, ao contrário das da sociedade, estas voltarão a abrir-se no dia seguinte. Fernando continua a dar as suas sobras de pão aos patos dos jardins da Gulbenkian.

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