Cult Fiction – O Legado dos Anos 90

Filmes de culto. Uma expressão bem conhecida junto dos aficionados da Sétima Arte que designa uma produção cinematográfica com uma grande comunidade de fãs. Transversais a toda a história do cinema, podem ter sido, ou não, sucessos comerciais ou críticos, mas proporcionaram momentos que para sempre irão prevalecer na cultura popular.

Uma das décadas em que o filme de culto ganha maior expressão foi a de 90, curiosamente coincidindo com o início da carreira de Quentin Tarantino. Sim, sou suspeito por referir o nome do icónico realizador, mas ele é o espelho de um cinema mais cínico, arrojado, inconformista e irreverente, sedento por quebrar as tradições dogmáticas da indústria em questão. É por isso que abordarei mais detalhadamente os clássicos deste período.

Certo que Reservoir Dogs (1992) e Pulp Fiction (1994) entraram numa onda diferente dos filmes noir, estilo altamente personalizado por Tarantino com as narrativas não lineares e abordagens violentas acompanhadas por diálogos exímios. Mas temos de ver que a expressividade do culto vai muito mais além do que “andar à porrada”, encher o ecrã de sangue e não filtrar informação ao público.

The Big Lebowski (1998), realizado pelos irmãos Cohen, aborda a temática do crime. Contudo, tem um objetivo peculiar e raro neste estilo de cinema: incluir uma representação satírica do mundo criminal. Personagens idiossincráticas, cenas surreais, um homem preocupado por causa de um tapete urinado e muitas referências à bebida White Russian fizeram com que o filme protagonizado por Jeff Bridges se tornasse num dos clássicos do grande ecrã. Nunca esquecendo também que a sua personagem principal, “The Dude” Lebowski, entrou num lote restrito dos protagonistas mais bem desenvolvidos do cinema, onde se incluem também Jules Winfeld e Vincent Vega (de Pulp Fiction).

A representação deste estilo mais underground regido por um sistema anárquico é conseguida com maior precisão em Trainspotting (1996), de Danny Boyle, baseado no livro do mesmo nome de Irvine Welsh. Retratando uma realidade punk subjugada pelo crime, sexo e drogas, a vida urbana de Edimburgo foi escrutinada de forma crua e dura, sem camuflagem, oferecendo um grafismo deliberado para chocar fortemente a audiência. O gosto da comunidade pela abordagem naturalista e pouco assertiva de temas sensíveis acaba sempre por favorecer um filme a ganhar um estatuto de cult classic, e Trainspotting não foi exceção. Para além disso, à semelhança dos filmes de Tarantino, uma banda sonora  ilustrativa do enredo constituída por baladas fortes e significativas entrelaçam o filme à nossa memória. Isto leva-nos a associar temas como “Lust for Life” de Iggy Pop ou “Perfect Day” de Lou Reed, citando os mais conhecidos, a esta obra-prima de Boyle.

Se nos referimos ao retrato de um dado grupo ou estilo de pessoas, não nos podemos esquecer de mencionar Dazed and Confused (1993). O realismo evidente na representação da rebelde vida adolescente aliado a um enredo simples com personagens muito bem construídas transcende em qualidade o filme realizado por Richard Linklater. Passado em 1976, constituiu um marco no retrato do complexo e inconsciente pensamento dos jovens universitários e nas suas aventuras em busca da liberdade utópica, abarcando sentimentos de nostalgia e rápido envolvimento com as personagens por parte do público mais velho e mais jovem, respetivamente.

O inconformismo é, como referido, um dos pontos essenciais num filme de culto. Ainda que presente em diferentes níveis nos diversos filmes já listados, este atenua-se numa das maiores obras de toda a história de Hollywood – Fight Club (1999). Transmitindo uma mensagem meramente crítica da sociedade capitalista e consumista, foi considerado um falhanço comercial e recebeu reações polarizadoras por parte do público. Contudo, o filme de David Fincher obteve o merecido destaque com o decurso dos anos graças à sua postura firme, audaz e revolucionária, juntamente com a presença da aclamada técnica do plot twist – diga-se de passagem, criticada sem razão aquando da sua estreia.

Se ambientes e ideias irreverentes tornam um filme num produto memorável, a transposição da realidade para a ficção acaba por lhe oferecer maior significado. O caso de Office Space (1999), escrito e realizado por Mike Judge (criador de King of the Hill), reflete um cenário que passou pela cabeça de qualquer trabalhador por conta de outrem: “quero-me despedir e ser livre para fazer o que me apeteça.” Situações que são facilmente relacionadas pela audiência fortalecem a obra cinematográfica. Acrescentem realismo com uma pitada de humor – mais sólido se torna. O lado humano foi explorado minuciosamente e o tom satírico bem ao jeito de Mike Judge permitiram que Office Space estabelecesse uma ligação especial com o público.

Para concluir o tema, há um largo número de filmes que poderia ter mencionado aqui mas que tive de deixar de parte para não escrever uma tese. Deixo, no entanto, uma menção a três filmes que eu considero como cult classics ainda que a generalidade das pessoas possa discordar: The Usual Suspects, LA Confidential e Se7en. Todos criminais, mas sem romper muito as barreiras tradicionais desse estilo. Contudo, um denominador comum: Kevin Spacey, o ator de culto da década de 90.

Os anos 90 são, portanto, um dos meus preferidos em termos de Sétima Arte. Muita vontade de mudar, muito pensamento fora da caixa, heterodoxia e irreverência a cem por cento. Uma verdadeira lufada de ar fresco na arte industrializada e uma década cujos filmes são de obrigatória visualização.

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