Desporto? Negócio? Ambos?

Sou fã de bom futebol. Sim, isso mesmo: sou fã de um desporto em vias de extinção.

Antigamente o futebol jogava-se dentro das quatro linhas, e cada vez mais acontece o contrário. Sinto que o desporto, quando movido por outras regras que não as originais, perde o seu valor. Hoje, o interesse extradesportivo é a regra. Não só no caso do futebol, mas em todas as modalidades. Ainda assim, sou dos muitos que apreciam um jogo bem disputado.

Bem distante do seu nascimento, no seio dos estratos sociais mais pobres, o futebol popularizou-se e tornou-se produto para consumo, fonte de entretenimento para as massas. As partidas em terra batida deram lugar a encontros em grandes estádios, onde se juntam grandes aglomerados humanos. Nas poucas vezes que assisto a jogos ao vivo ainda consigo sentir os primeiros pontapés de saída do futebol moderno, oriundo de terras escocesas, passo a passo até se tornar a megaindústria que todos conhecemos. Desde aí, tudo mudou – o velho entretém da plebe virou uma ciência geradora de receitas extraordinárias. Multiplicaram-se as estratégias, os interesses, os protagonistas.

Na minha opinião a qualidade do jogo tende a diminuir à medida que se abstrai da sua origem, passando a servir uma terminologia estritamente comercial. Temos melhores equipamentos e atletas mais bem treinados, porém temos a pressão de agentes económicos que influenciam o espetáculo. Não o considerem como uma crítica negativa – é inevitável, os séculos passam e a evolução não olha para trás.

Voltando aos factos: o que faz do futebol um desporto extraordinário? Nenhuma outra modalidade à face da terra tem a capacidade de unir pessoas tão diferentes em torno de algo singular. O futebol ultrapassa fronteiras e barreiras invisíveis. Quer se queira ou não faz em 90 minutos o que alguns líderes políticos tentam afincadamente durante anos: captar a atenção de populações. Saber o resultado final de um jogo entre rivais é por vezes mais atrativo do que acompanhar a votação para o orçamento de estado. Ainda que se trate de uma situação preocupante, é mais um exemplo do poder da indústria futebolística.

Por outro lado, não podemos esquecer o papel do futebol em conceder oportunidades a miúdos de origens humildes. Quem não se lembra dos craques brasileiros das favelas? Quem não se lembra de algumas estrelas africanas, que de outra forma não teriam muito provavelmente as mesmas chances de “bisar na vida”? Tudo isso é importante ter-se em consideração. Quando não confundido com fanatismos, o futebol  é um desporto maravilhoso, inspirador para muitas infâncias, que incute práticas saudáveis nas crianças e as ensina a sonhar com o futuro.

Nem tudo são rosas. Apesar dos aspetos positivos, a modalidade atravessa tempos conturbados. No panorama profissional quantias avultadas são movidas através de mercados paralelos, à medida que a corrupção nos orgãos internacionais responsáveis tem vindo a público. O fosso entre as federações ricas e as federações pobres cresce a cada dia, e isso parece um obstáculo muito difícil de contornar. A profissionalização do futebol trouxe consigo novos e complexos desafios, a que nem sempre se tem conseguido dar resposta. Acompanho a realidade com alguma tristeza. Enquanto fã de bom futebol, exijo, nada mais, nada menos, do que bom futebol – e bom futebol, sejamos sinceros, é hoje uma raridade.

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