A Fábrica do Pai Natal

ilustração

Num futuro não muito longínquo, duas criaturas jogavam à bola no quintal da casa de uma delas. Uma era um lama, chamado Roberta; a outra um duende chamado Bea, em cuja casa estas se encontravam.

Estavam divertidas a jogar, quando Bea, a duende, agarra a bola com as mãos e exclama:
– Isto é uma seca!
– Pois é. – disse Roberta, a lama.

Foram as duas sentar-se no degrau de pedra que dava para a cozinha. Passado uns momentos de silêncio, Bea disse, seriamente:
– Olha, recebi a carta. Já a recebi há três dias, desculpa só te contar agora… Não me apetecia muito falar disto.
– Qual carta? – perguntou a lama, que, apesar de saber perfeitamente do que a amiga falava, não queria acreditar.

Bea não respondeu e ficou de cabeça baixa. Estava pensativa e triste. Roberta imitou-a. E ali ficaram em silêncio, cada uma no seu pensamento, mas com o mesmo em mente.

Passou-se uma semana e tinha nevado. As duas amigas encontravam-se outra vez a brincar no quintal, atirando neve uma à outra. Desta vez foi Roberta quem parou com a brincadeira:
– Temos de falar do elefante na sala de estar.
– Ok, desculpem. – disse Paulo, o elefante, primo de Bea, que as observava a brincar da janela da sala. Foi-se embora; foi à casa-de-banho, também já estava aflito.
– É amanhã que tens de te apresentar. – continuou Roberta – E ainda nem nos despedimos, não fizemos uma festa, nem nada de especial… Continuamos a viver tudo igual como se nada se passasse.
– E não temos de fazer nada disso! Eu não vou para aquela m… de sítio, estás a ouvir?
– Mas como?!
– Parte-me a perna. – disse Bea, decidida.
– O quê? Não!
– Sim, é isso mesmo! Parte-me a perna, assim não me escolhem de certeza.
– E depois quando recuperares? – perguntou Roberta.
– Tens razão… – respondeu Bea depois de pensar por um pouco – Tenho é de apanhar uma doença permanente e contagiosa. É isso… Tuberculose!, como é que eu arranjo tuberculose?
– Bem, disseram que a Maria tinha, por isso é que nunca mais apareceu nas aulas…
– Vamos à escola, temos de ver onde ela vive. – disse Bea, enquanto se ia embora.
– Espera! – gritou Roberta, agarrando-a no braço – Ela deve estar internada e isso não é solução! Nós temos é de ir falar com o Pai Natal, fazê-lo ver o nosso ponto de vista e mudar isto tudo. Independentemente de tu ires ou não, os milhares de duendes que nascerem nos próximos tempos continuarão a estar sob esta injustiça! E é isso que tem de acabar.
– Ok. – disse Bea, depois de alguma hesitação. A seguir, começou a chorar e Roberta abraçou-a. Ambas choraram, no meio do quintal, abraçadas; e assim ficaram por algum tempo.

Ao completarem dezoito anos de vida, os duendes tinham de se apresentar na Instituição Natalícia da sua localidade para realizarem testes ao seu estado de saúde e às suas capacidades de performance, com o objetivo de os separar em três grupos: os aptos, os não aptos e os potencialmente aptos (aqueles que possuíam problemas temporários, podendo vir a ser aptos quando estes se resolvessem). Bea tinha feito dezoito anos há dois meses e era duende, logo, uma potencial trabalhadora na Fábrica do Pai Natal – o emprego mais temido da época.

Lá foram as duas amigas. Para se protegerem, Bea levou uma espada e Roberta uma manta. Apanharam o eléctrico, depois o metro e por fim Bea montou em Roberta e assim foram pela neve. Só era permitida a utilização de transportes públicos eléctricos ou meios privados não poluentes, como uma bicicleta, ou um animal que consinta e seja montável.

Bea ia montada em Roberta enquanto esta caminhava pelo passeio cor-de-rosa que ligava a Aldeia das Cebolas, onde tinham saído do metro, à Fábrica do Pai Natal. Mal se via o chão: estava tudo coberto de neve e em redor só se via branco, enfeitado por algumas árvores sem folhas. Finalmente, chegaram ao portão. Lá, estava um duende com uma lança bem afiada na mão esquerda e em sentido, bem direito. Parecia estar ali há já umas horas.

– Olá! – disseram Roberta e Bea ao mesmo tempo, contentes por terem chegado.
– Que querem? – perguntou antipaticamente o duende.
Bea e Roberta ficaram tristes com esta reacção, mas Bea falou:
– Queríamos dar uma palavrinha ao Papai Noel.
– Também eu queria muita coisa… – respondeu o guarda duende, rindo-se sozinho.
– Sim, mas nós combinámos com ele; temos uma reunião marcada para as onze. Já estamos atrasadas e tudo… – disse Roberta.
– Ai é? Então entrem, peço desculpa. – respondeu o guarda, deixando-as entrar.
– Não faz mal. Com licença. – disse Roberta, passando pelo portão.

Percorreram o jardim e chegaram ao edifício. A porta estava encostada; abriram-na e entraram. Não estavam assustadas, até estavam entusiasmadas por terem conseguido passar por aquele guarda. De qualquer modo, encontraram logo a porta que, a letras bem grandes, tinha escrito “PAI NATAL VI”: era o gabinete dele. Roberta deu duas patadas na porta.
– Olá! – disseram as duas amigas ao mesmo tempo enquanto entravam.
– Que raio de animal este! – exclamou o Pai Natal, dando um salto na cadeira.
– Calma, nós somos duas criaturas distintas. – disse Bea, desmontando de Roberta – Eu sou a Bea, um duende. E ela é a Roberta, um lama. Vimos da Floresta Maléfica, perto de Cabra Cega do Moinho.
– Sei bem, sim… Assustador esse lugar. – disse Pai Natal, enquanto carregava no botão a seu lado para chamar os seguranças.– F…, esqueci-me de que esta m… estava estragada, p… … – suspirou fundo – Que querem?
– Ora, – começou Roberta – nós queremos dar-lhe a conhecer o mal que está a provocar ao mundo, sem noção, provavelmente. Mas tem de saber que existem cerca de três mil e oitocentos duendes adultos actualmente e estima-se que, daqui a dez anos, este número suba para os cinco mil e duzentos, aproximadamente. É um facto também que cerca de setenta e cinco por cento desses duendes passarão, pelo menos, quinze anos a trabalhar na sua fábrica.
– Queremos que saiba – continuou Bea – que há duendes que não querem ter esta profissão e que pretendem trabalhar noutra área. Por exemplo, eu sou duende e sonho um dia tornar-me professora de natação; sonho do qual provavelmente vou ter de desistir devido a esta condição que me foi imposta apenas por eu ter nascido dentro de uma certa espécie.
– Oh c… – disse o Pai Natal – e acham que também não me foi imposta esta profissão? Que só por eu ter saído o filho primogénito do Pai Natal V agora tenho de passar os dias nesta fábrica horrível a mandar em duendes. Também não gosto… E estou quase a bater a bota, sou infértil, não tenho descendentes para serem Pai Natal. O meu namorado por acaso era fértil. Pensámos em ter um filho, mas deixou-me fez ontem duas semanas!, que isto também era muita pressão para ele… F… … Também não estou bem!…

Bea e Roberta sentiram compaixão pelo Pai Natal VI. De facto, também ele fora obrigado a trabalhar ali. O Natal não fazia bem a ninguém, começavam a concluir os três naquela sala.

– Mas então porque lutou tanto em tribunal até ganhar o caso, quando saiu a lei da proibição da gasolina? – perguntou Roberta – Seria uma excelente oportunidade de acabar com isto.
– Oh, amiga, eu era jovem… – respondeu o Pai Natal, encostando-se na sua cadeira e adormecendo.
– Espera, ele usa um trenó a gasolina? – perguntou Bea.
– Usa pois. – respondeu Roberta.
E Bea espetou a sua espada no peito do Pai Natal, que gritou “Ah!” e morreu.
– C… poluidor. – disse Bea enquanto puxava a espada de volta.
– Pois, até tens razão… Fizeste bem. – disse Roberta enquanto dava uma palmadinha nas costas de Bea – Bora bazar daqui.

Nunca mais se ouviu falar no Pai Natal; o mundo tornou-se num lugar menos poluído; e as duas compinchas, para sempre, viveram felizes e livres, tal como todos os duendes e o resto da população.

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