dēfixio

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Lisboa, 1591…

Em mais um dos autos-de-fé no Rossio, o povo ali reunido espera eufórico pelo grande espetáculo que se aproxima. Diante do maravilhado público, é possível destacar a presença da ilustre família Dourado, que, com uma grande influência na aristocracia da época, tem um lugar privilegiado, observando de perto a lenta e dolorosa morte dos condenados pelo Santo Ofício. Mas que interesse teria uma família tão nobre no castigo de não-cristãos? A resposta a essa questão atende pelo nome Filipa Rocha, uma bela rapariga de cabelos castanhos e olhos profundos, nascida e criada numa pequena aldeia ao pé de Mafra, que cometeu o terrível erro de se apaixonar pela doce Maria João Dourado, e com ela manter uma relação amorosa durante os meses em que trabalhara como camareira em sua casa. Como se já não bastasse tamanho pecado, a pobre rapariga ainda teve o azar de nascer numa humilde família pagã, conhecida na aldeia pelas diversas práticas de feitiçaria.

Como já era de se esperar, essa abominável atitude teria graves consequências para ambas as raparigas. A pena de pagar uma multa em dinheiro de Maria João, já havia sido cumprida. Já a pena de Filipa seria concretizada naquele célebre e excitante momento de entretenimento para os portugueses de boa índole. E assim aconteceu. O purificador fogo da Inquisição tomou conta do corpo ainda com vida daquela bruxa pecadora que se debatia com agonia, enquanto o gozo daquela maravilhosa visão deleitava a distinta família acusadora.

Ninguém que ali estava poderia imaginar que ao mesmo tempo que a alma de Filipa abandonava o seu corpo, a desintegrar-se em chamas, o mesmo estava precisamente a acontecer com Maria João, deitada na sua cama com um punhal no seu coração e uma carta suicida na mão esquerda.

Ao chegar a casa, e depois de terem tido conhecimento da triste tragédia que acontecera minutos antes, os membros da família, assim como os vizinhos que lá passaram, puderam ter a certeza de que a pura e meiga Maria João havia sido enfeitiçada pela bruxa. Ao menos era isso o que todos alegavam.

Pela manhã, tanto os pais como o irmão de Maria João acordaram com a pior visão de que alguma vez imaginaram ter. Na sala, pendurada no lustre pelos pés, estava a governanta da casa, que descobriu e espalhou pela vizinhança o sórdido caso entre a inocente Maria João e a camareira Filipa. Estava nua, com a boca cheia de terra e cortes por todo o corpo, que faziam com que o seu sangue formasse uma imensa poça encarnada sobre o caríssimo tapete indiano da família. No teto, escrito com o sangue da vítima, era possível ler os nomes da governanta, dos pais e irmão de Maria João além de uma palavra em latim: “dēfixio” (prender/amarrar/restringir – invocação a uma divindade com o intuito de trazer prejuízos a uma pessoa).

Já passava da meia-noite e todos os membros da família tentavam dormir, mas devido aos recentes acontecimentos, reviravam-se sobre a macia cama como se espinhos lhes espetassem a pele. Os mais incomodados eram os pais de Maria João. Sempre que fechavam os olhos, viam a imagem da filha ensanguentada com o punhal cravado no seu peito, da governanta pendurada no lustre e da maldição escrita no teto. Cada minuto que passava deixava o casal ainda mais perturbado, a imaginar que a qualquer momento poderiam ser os próximos a morrer. E foi no ápice da agonia, que o pior dos pesadelos se tornou realidade mesmo à frente dos seus olhos. O cheiro a podre começou a impregnar o quarto e uma grande quantidade de corvos começou a bater nos vidros das janelas. Ao sentarem-se na cama, recostados à cabeceira, puderam ver o que se passava. Do outro lado do quarto estava Filipa, de pé, a olhar para eles, com o corpo completamente queimado, que ainda parecia estar a arder lentamente. Dos seus olhos lágrimas de sangue escorriam como se fossem inundar o local. O casal, a olhar para aquela criatura, imóvel, não tinha forças para gritar. Aos poucos, Filipa começou a aproximar-se da cama e a cada passo que dava mais forte ficava o cheiro e com mais força os corvos batiam nos vidros. Totalmente desesperados, os pais de Maria João começaram a sentir os seus corpos a flutuarem, o que fez com que ficassem inteiramente suspensos no ar.

De repente, a cama transforma-se numa grande fogueira que começa a queimar lentamente o casal, enquanto este agonizava de dor, sem conseguir mover um único músculo. A um metro daquela horripilante cena, Filipa esboçava um sádico sorriso, exatamente igual ao da família Dourado enquanto ela ardia na fogueira da Inquisição há dois dias.
O fogo começou a tomar conta de todo o quarto e, aos poucos, das outras divisões da casa, o que fez com que o irmão de Maria João, ao aperceber-se do incêndio, se levantasse de imediato da sua cama e corresse para a frente da mansão, vendo-a a arder até não restar nada.

Durante instantes, o jovem rapaz ficou a pensar no que poderia fazer. Mas o seu primeiro pensamento foi o de ir atrás da família de Filipa para tentar, de alguma forma, impedir que a maldição da bruxa também o atingisse. E assim o fez.

No fim da tarde, ao chegar à pequena aldeia, o rapaz tentou perguntar aos seus habitantes onde morava a família Rocha, mas todos com quem falava reagiam assustados, como se tivessem medo de fornecer a informação. Até que encontrou um velhote sentado num banco tão velho quanto ele que respondeu à questão com um gesto simples. Apontou em direção a uma estrada de terra que o levaria para um local mais isolado.

Após vários minutos a andar numa estrada silenciosa, o rapaz chega a uma casa, praticamente abandonada no meio de um campo aberto. Ao lado desta casa, encontrava-se uma enorme árvore sem folhas, com centenas de corvos pousados sobre os galhos secos. Na varanda e no telhado, alguns gatos olhavam para ele como se soubessem as suas intenções.

A porta abre-se devagar, mostrando um interior ainda mais obscuro. O cheiro de milhares de corpos em decomposição sai lá de dentro. O rapaz respira fundo, cobre o nariz com um lenço que carregava no bolso e caminha lentamente para dentro da velha casa.

A porta fecha-se e os gritos do jovem rapaz ouvem-se durante toda a noite, ali por perto.

O dia amanhece…

As semanas passam…

E nunca mais se ouviu falar da família Dourado.


Um conto de terror original de Guilherme Galvão
Inspirado na trágica história de Filipa de Sousa (Portugal, 1556 – Brasil, 1600)

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