Memórias da Primavera

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Num passado próximo, no princípio do Abril de há dois anos atrás, foi o funeral do meu avô. Tinha acabado de vir de Madrid nessa manhã e nem estava com a minha família; comi rapidamente um almoço incompleto em casa da minha amiga e saí com a roupa mais adequada que tinha dentro da mala, juntando com um casaco preto da minha amiga. Cheguei um pouco atrasada, mas não demasiado.

A capela transbordava; não que houvesse muitas pessoas – não havia -, éramos poucos, uns vinte e tal. Aquilo é que era bastante pequeno.

Fiquei lá fora, junto de uns senhores já de idade que nunca tinha visto na vida, mas que estavam muito atentos ao pouco daquilo que deviam conseguir ouvir o padre dizer. Passei por eles e olhei pela porta: vi o meu pai de cabeça baixa e de mãos juntas à frente; vi os meus irmãos, a minha mãe e a minha tia; reconheci mais alguns rostos, mas não me lembrava donde os conhecera. Olhei para o lado esquerdo: o morto, porra, era mesmo aquilo que eu não queria ver!… Desviei o olhar e saí logo dali.

Voltei lá para fora e fiquei à espera de que acabasse. Tive de aguentar meia hora o desejo que tinha por um cigarro, estava com medo que alguém decidisse ir apanhar ar ou assim e me visse ali a fumar. Tentei distrair-me ao observar os velhos.

Mas lá acabou, vi a minha família e abracei o meu pai. A seguir passei outra meia hora a cumprimentar pessoas e a ouvir os seus lamentos pela minha perda. Agradeci, mas só me fizeram sentir pior; eu até nem estava triste, aquilo é que me deprimiu à brava. Eu e o meu avô não éramos nada chegados, devo-lhe ter falado umas cinco vezes na vida; as pessoas é que não sabiam disso.

Fomos para o cemitério. Já estava a ver que aí é que ia ficar bem deprimida, mas, surpreendentemente, aquilo melhorou em dez mil vezes o meu humor; já não pensava em lamentos, nem em missas, ou velhos, já nem pensava em mortos. Era um sítio bestial: amplo e plano, cheio de relva e flores de todas cores – vermelhas, roxas e amarelas (bem, não eram de todas as cores, mas fazia um contraste excelente com o verde do relvado) -, senti-me bem capaz de me inscrever na agência funerária só para ver aquilo todos os dias.

Lembro-me de falar com a minha tia:
– Tia, o avô vai ser enterrado ou queimado?
– Diz-se “cremado”, filha, não é “queimado”.
– Sim, mas vai ser queim… – era-me difícil dizer aquela palavra, fazia-me parecer que iam pôr creme nele ou algo do género, mas mesmo assim corrigi-me – cremado, vai ser cremado ou enterrado, tia?
– Cremado. Agora, shiu, que vamos entrar.

Entrámos numa sala e lá foi o padre dizer mais umas palavras. Depois levaram o caixão dali (já não era sem tempo, finalmente pude olhar para a frente) e o padre pôs-se a tentar consolar o meu pai :“Nós somos estrangeiros nesta terra, todos nós, pertencemos é ao reino de Deus; isto é só uma passagem, a vida não acaba aqui”. E o meu pai sorria imenso; aposto que acreditou naquilo tudo. E eu só espero que não haja vida nenhuma quando eu morrer, eu quero é mesmo isso, ser bem queimada (ou cremada!), bem enterrada no fundo desta relva, e que me deixem estar lá bem morta; para que me serve uma vida eterna? Vou-me fartar daquilo e depois não me consigo suicidar, volto lá sempre… Essa ideia põe-me nervosa.

Saímos da tal sala e chovia ligeiramente, apesar de estar calor: até tirei o casaco, pu-lo pela cintura. Lembrei-me de que tinha as malas todas em casa da Ana e de que era melhor ir lá buscá-las. Os meus pais aconselharam-me a ir com um velho, porque ele “ia lá para esses lados”, como disseram. E o mesmo disse o velho, quando me veio falar e começou a explicar porque é que era ele a levar-me no seu carro; devia estar com medo de que eu o achasse estranho ou assim. Antes de entrarmos, depois de dez minutos agarrados um ao outro debaixo do seu mini guarda-chuva, desde a tal sala até ao estacionamento, ele e outra senhora ainda começaram a discutir sobre a construção do cemitério: ela achava um disparate, que devia era ali estar o quartel da guarda, que os miúdos da escola destruíam as campas todas e brincavam lá às escondidas, e ele achava que não; chatearam-se imenso. Ele chateou-se principalmente na parte dos miúdos; era muito protector das crianças. Temi pela vida quando me veio à mente o que poderia significar; já culpava os meus pais, que me deixaram ir com aquele infeliz. Mas tinha dito à Ana que estava lá às quatro e já eram três e meia; passei a preocupar-me mais com isso.

Já só falavam dos miúdos da escola e ele agora estava especialmente irritado; às tantas, perguntei-lhe se me podia abrir a porta do carro, que já estava a ficar com frio. Aí ele relaxou da discussão – quando lhe toquei no braço -, despediu-se da velha com um grunhido e um movimento com a cabeça e lá fomos embora.
Era péssimo ao volante e super lento; devia ter uns cento e cinquenta anos, nem sei como deixam aquele perigo para a estrada conduzir; juro-vos que temi pela minha vida ainda mais umas cem vezes no caminho. Vinte e cinco minutos até Entrecampos.

Ele decidiu contar uma piada, na definição dele da mesma:
– Olha, deixa-me dizer-te, conheci um amigo – começou a contar; era parvo como tudo aquele velho: “conheci um amigo”! – Ele chamava-se Rui… Bem, chama-se Rui, ele chama-se Rui, ainda é vivo, Deus me perdoe e o proteja, que eu não quero andar aí a enviar maldição para ninguém, hein? Eu… Foi sem querer, saiu-me!…
– Deus entende. – interrompi-o, pousando-lhe a mão no braço. Isto pareceu acalmá-lo.
– Pois… Deus é compreensivo… Enfim, o meu amigo Rui teve um filho. E chamou-lhe Rui – já se engasgava todo no riso, cuspindo para as mãos – chamou-lhe Rui… Tu vê lá, depois teve outro filho… – ria-se imenso agora, já mal se percebia o que ele dizia, o homem parecia até sufocar no próprio riso e no meio das palavras; estava roxo, estive quase para lhe aplicar o suporte básico de vida ali mesmo em movimento.

Depois de uns segundos, voltei a tocar-lhe, desta vez no ombro, acompanhando o toque com um “Pode contar”. Acalmou-se mais uma vez e continuou, após um suspiro:
– Vá, agora adivinha tu: como chamou ele ao segundo filho?
– João. – quis deixá-lo achar que a piada era imprevisível; podia ser que assim também eu própria achasse mais graça.
– Não, tonta – gritou, dando uma patada no meu braço (assustei-me) – Chamou-lhe Rui!

E a seguir a proferir estas palavras desatou num riso incontrolável. Já estava de olhos fechados, dos quais caíam lágrimas, e não ligava minimamente à estrada. Passámos um vermelho e íamos chocando num poste, não fosse eu desviar o volante. Pedi-lhe para sair, íamos na Avenida de Roma, e tive de ser eu a parar o carro.

Ele suplicou que ficasse; disse que íamos tomar um chá a casa dele e ele ia ser muito amigo para mim, como um pai. Recusei mil vezes, enquanto tentava sair, mas o idiota do velho não me largava o casaco. Tentei puxar, mas ele cada vez puxava com mais força no sentido contrário. Acabei por desapertar o nó que prendia o casaco à cintura e pus-me a correr dali o mais depressa que pude. Ainda o ouvi guinchar qualquer coisa, mas nem olhei para trás.

Não sei por onde fui, já não me lembro… Só sei que corri super rápido e só me lembro de estar no Campo Pequeno quando parei e me apercebi de que já o devia ter conseguido despistar. Estava super cansada, tonta e cheia de sede. Fui sentar-me num banco ali perto.

Quase recuperada, olhei em frente e aconteceu algo mesmo estranho: vi um amigo meu de infância, o Tiago, a passar a uns três metros de mim. E isto supostamente não é estranho, simplesmente uma coincidência pouco significante, mas o Tiago foi um rapaz que conheci numa festa de aniversário de um filho de um amigo do meu pai, tinha eu oito anos na altura e, ao princípio, não gostei nada dele. Mas voltei a encontrá-lo uns meses depois, na passagem de ano, que foi na casa do mesmo amigo; aí, aproximámos-nos e comecei a achar-lhe piada, nós divertíamo-nos juntos e gostávamos das mesmas brincadeiras. No ano seguinte, o mesmo: vi-o na festa de aniversário, em Maio, e depois na passagem de ano. Comecei a aperceber-me de que passava praticamente todo o tempo só com ele e cada vez menos ligava às outras crianças; às tantas já só ia àquelas festas para estar com ele; e, quando uma acabava, já estava a pensar na seguinte e na roupa que levaria e na que ele levaria e do que iríamos falar dessa vez.

Mas num ano, tinha eu doze anos, não o vi. Nem no ano a seguir, nem naquele depois desse, nem nos outros que vieram até hoje. Há quatro anos, vi a mãe dele e falei-lhe: ele não estava – não me explicou porquê – , mas para eu não me preocupar, que ele iria tentar vir para o ano; eu disse que sim e desejei-lhe boa viagem – ela já estava de saída quando meti conversa com ela.

Entretanto, a mulher do amigo do meu pai ficou doente e morreu uns tempos depois; ele nunca mais fez daquelas festas cheias de gente e por isso nunca mais fomos convidados. Ainda me tentei aproximar do filho dele, mas nunca ficámos muito amigos, não pelo menos na altura do seu aniversário.

Por isso, para mim foi uma coincidência significante vê-lo ali. Quis falar-lhe, mas não sabia o que dizer. Pensei em correr e chocar contra ele; pensei em simplesmente segui-lo e descobrir para onde ele ia, para saber onde ele estudava ou vivia ou quem eram os seus amigos. Mas não fiz nada, fiquei ali sentada; pensei em várias opções e não fiz nenhuma. Fiquei sentada e ainda me pergunto se será que ele me viu; será que me viu, pensou em cinquenta mil opções de me abordar e também teve medo; pergunto-me se ele também se arrependerá de não me ter falado. Ou se simplesmente não me viu, ou já não se lembra de mim.

Era só isto que queria contar, porque quando penso em Primavera lembro-me do meu amigo Tiago; lembro-me de quando o conheci e da última vez que o vi, nesse dia. Só espero que volte a acontecer eu encontrá-lo daqui a uns tempos e que dessa vez eu tenha coragem.

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