EuroCine Parte VI – O Cinema Português

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Antes do EuroCine ir de férias – ou aposentar-se, pois o valor da reforma nem é mau de todo – vai fazer uma paragem muito especial. Trata-se de um destino que está na moda em termos turísticos e que em termos cinéfilos tem uma rica e vasta cultura, não fosse este país um dos mais fascinantes a nível intelectual. Portanto, este mês damos à costa em Portugal, numa ilustre praia lusitana que tem recebido navios carregados de fantásticas obras durante quase um século. Não vamos navegar pelos mares comuns de Manoel de Oliveira ou Vasco Santana, pois esses já foram mais que explorados, iremos sim partir numa aventura rumo a outras marés por descobrir no cinema português. Comprimidos para o enjoo tomados, vamos a isso, marujos.

 

Jaime (1999), de António-Pedro Vasconcelos

Jaime é das obras mais consistentes da carreira de António-Pedro Vasconcelos, mas que parece ter caído em esquecimento com o decorrer dos anos. Trata-se de uma tocante história de um rapaz que acredita que a única forma de reconciliar os seus pais é recuperar a moto roubada do seu progenitor, onde é feito um ensaio à genuína inocência infantil. Recebeu diversos prémios, entre os quais Globos de Ouro (mas aqueles da SIC, que ninguém vê), e foi um dos grandes destaques do cinema nacional no final do século transato.  

 

Alice (2005), de Marco Martins

O primeiro trabalho de Marco Martins. O realizador português estreou-se com um filme que se debruça sobre um tema sensível, o desaparecimento de uma menina de três anos, e trabalhou-o como poucos. À procura de captar a essência minuciosa dos estados de alma das personagens, Marco Martins adota um estilo único de representar a aparente realidade humana, do qual se apropria em obras futuras. Obteve resposta positiva da crítica e lucrou bastante em bilheteiras estrangeiras. Foi a primeira grande jogada de mestre do cineasta português.

 

Aquele Querido Mês De Agosto (2008), de Miguel Gomes

Talvez o filme mais ousado e inusitado dos que constam desta lista. Aquele Querido Mês de Agosto é um documentário que não é bem documentário e uma ficção que não é bem ficção, mas que se encontra, a meu ver, no meio termo. Com uma narrativa não-linear, Miguel Gomes apresenta-nos várias estórias sobre emigrantes e aldeãos portugueses durante o período de festas de verão. Concorreu a inúmeros festivais internacionais de cinema e recebeu um Globo de Ouro (novamente aqueles que só vemos quando fazemos zapping e passamos pela SIC).

 

A Gaiola Dourada (2013), de Rúben Alves

Do argumentista e realizador luso-francês Rúben Alves, A Gaiola Dourada é um marco na história recente do cinema português. Com um elenco liderado por Rita Blanco e Joaquim de Almeida, o enredo constrói-se em torno de um casal emigrante que habita num prédio luxuoso em Paris e cuja vida dá uma grande volta quando surge a possibilidade de regressarem a Portugal. Uma comédia hilariante, foi o filme mais visto de 2013 em território nacional e obteve uma receita de quase 4 milhões de euros. Útil inclusive para o estudo sociológico da comunidade emigrante que, por norma, invadem as praias portugueses no mês de Agosto.

 

Capitão Falcão (2015), de João Leitão

Também conhecido como o primeiro super-herói português, Capitão Falcão é uma sátira ao regime do Estado Novo onde o protagonista se assume como defensor da ditadura de Salazar. Com Gonçalo Waddington no papel principal, a boa disposição está garantida desde o primeiro minuto, ainda que a narrativa possa ter algumas falhas óbvias ou momentos menos bons durante o seu decurso. Contudo, a génese humorística supera qualquer percalço e faz com que o filme de João Leitão seja uma das melhores comédias que estrearam em solo nacional nos últimos anos.

 

São Jorge (2016), de Marco Martins

Na sua terceira longa-metragem, Marco Martins provou que é um valor a ter em conta no cinema português. Uma estória arrepiante, que induz o público à reflexão, estreou em território nacional em março de 2017 e foi bem recebida pela crítica, onde muitos apontaram São Jorge como um dos filmes do ano, em Portugal. Escolha da Academia Portuguesa para a corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017, acabou por não constar da seleção final. Ainda assim, Nuno Lopes, ator que espelha a dor Jorge, protagonista, foi laureado com o Prémio de Melhor Ator no Festival Internacional de Veneza. Um pequeno triunfo para um pequeno país com muito para dar na Sétima Arte.

 

Concluímos que ainda estamos em desvantagem comparativamente a outras indústrias, mas o cinema português tem qualidade suficiente para singrar lá fora. Falta, talvez, maior capacidade de argumento e uma reciclagem comercial em Portugal. No entanto, acredito que a cinematografia nacional está no bom caminho para, um dia mais tarde, ter outro tipo de aceitação em festivais e prémios mais prestigiados. Basta apenas um esforço cultural por parte de dez milhões de indivíduos para regressarmos aos bons anos dourados.  

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