João Rocha, que tipo de pessoa és tu?

 É um antigo aluno da ESCS licenciado em Publicidade e Marketing, que teve uma ideia. Duas, aliás. Inicialmente, criou um blogue no Tumblr: Kim Jong-Il looks at things. E, apesar do seu sucesso, o projeto acabou por terminar, depois da morte do protagonista que intitulava o blogue. E foi assim que, mais tarde, nasceu o 2 Kinds of People: blogue que consiste na divisão das pessoas em apenas dois grupos e que desafia todas as pessoas a perceberem quais as diferenças e semelhanças entre si e os que estão a seu redor.
O sucesso do blogue foi reforçado ao vencer, em 2016, um
Webby Award e, agora, com o lançamento do projeto em forma de livro. E para perceber melhor este projeto e o seu conceito, a ESCS MAGAZINE falou com João Rocha.

 

 

 Adriana Pereira (AP) e André Medina (AM): Fala-nos um pouco sobre o teu projeto: Two Kinds of People.

 O 2 Kinds of People é um projeto sobre as pequenas diferenças que encontramos no dia a dia. Pode ser entre amigos, namorados ou até familiares. A lógica é que são as pequenas diferenças que, todas juntas, fazem de nós pessoas únicas e distintas, independentemente do sexo, religião ou cor de pele. Uma mulher não é igual a outra mulher só porque partilha o mesmo género, e, se calhar, até é mais parecida com um homem que tem os mesmos gostos e manias, do que com alguém com gostos totalmente diferentes, mas que é do mesmo sexo.
 Esse foi o ponto de partida e, por isso, é que, das poucas regras que o projeto tem, esta é a principal: eu nunca desenho pessoas. Nunca exponho a coisa entre homem versus mulher ou velho versus novo. São sempre diferenças que vão para além de tudo isso.

 

 AP e AM: Através do teu Tumblr percebemos que consideras que existem dois tipos de pessoas. Podes descrevê-las?

 Existem dois tipos de pessoas, mas não acho que sejam mutuamente exclusivas. Há quem seja muito arrumadinho numas coisas e não precisa de ser necessariamente assim em outras. Cada ilustração é um caso isolado, apesar de a maior parte de nós ter um tipo de padrão que se vai revelando à medida que se responde.

 

 AP e AM: Qual delas és tu?

 Eu tento dividir o mundo em dois, mas é claro que ninguém é perfeitamente igual a ninguém. Ainda que, curiosamente, muitas das ilustrações têm que ver comigo e com a Rita, a minha mulher. A melhor lição que eu tirei disto tudo é que os opostos podem mesmo funcionar muito bem, ainda que ela ache que eu não dobro t-shirts como deve de ser.

 

 AP e AM: O teu projeto, quer o livro quer o Tumblr, já foi destacado pelos media internacionais, como o site da Oprah ou o jornal americano Chicago Tribune. Como conseguiste esta exposição?

 É tudo orgânico e natural. A maior parte das vezes eu nem sei que essas notícias foram publicadas. Só me apercebo quando recebo muitos followers de seguida no Twitter. Regra geral, quando isso acontece, é porque o meu Tumblr voltou a ser publicado em algum lado e, aí, procuro a sua origem.
 Às vezes pedem-me autorização para publicar um artigo ou fazem-me perguntas e, agora com o livro, tenho tido alguma ajuda do departamento de RP da editora, que tem puxado por isso. Mas, no geral, acontece tudo sem a participação de ninguém do nosso lado.

 

 AP e AM: O crescimento do teu projeto (o Tumblr) foi tão rápido, que vês agora as imagens do teu blogue editadas em livro, por uma editora internacional, a Workman Publishing. Como conseguiste chegar até eles?

 Foi a própria editora que tomou a iniciativa. Eu já tinha pensado que isto era capaz de dar um livro, mas estava a contar com isso mais lá para a frente. Foi uma surpresa ter recebido o convite tão cedo. O livro já está em produção há mais de 2 anos, mas só agora é que chegou às prateleiras. É um processo muito mais lento do que aquele de que eu estava à espera.

 

 

 AP e AM: Qual o principal objetivo deste livro?

 Numa das primeiras conversas que tive com a editora, surgiu logo a ideia de tentar fazer com que o livro fosse ligeiramente diferente ou interessante. Eu depressa propus completar aquela que tinha sido a minha ideia original: que as pessoas pudessem decidir a sua preferência em cada ilustração e, de alguma forma, conseguissem medir graus de compatibilidade com outra pessoa.
 Foram precisos alguns testes, muito para trás e para a frente, até decidirmos o sistema atual que a edição portuguesa partilha com o original. Cada ilustração em que os leitores façam correspondência significa mais um ponto, numa escala que vai de “inimigos mortais” a “almas gémeas”. É só ir folheando e descobrindo quão compatíveis somos com as pessoas à nossa volta.

 

 AP e AM: O mercado tem recebido bem o teu livro?

 Felizmente, sim. Já foi publicado também em Itália, e acho que está para sair a versão francesa e belga. Felizmente, é uma ideia bastante universal, que quase não precisa de uma língua para ser explicada, e eu acho que isso facilita  que o livro passe outras fronteiras.
 A tiragem atualmente está nos 40.000 exemplares (nos EUA), se não estou em erro, o que já é mais do dobro da encomenda original da editora. Portanto parece que, felizmente, funciona tão bem em livro como em blogue. Agora é continuar o projeto e eventualmente aventurar-me numa segunda edição. Mas ainda é cedo para dizer se consigo durar até lá.

 

 AP e AM: Além deste Tumblr, já tiveste um outro: “Kim Jong II looking at things”. Porque achas que este não teve tanta visibilidade e, digamos, sucesso?

 Acreditem ou não, o Kim Jong-Il looking at things teve mais sucesso do que o 2 Kinds of People e, até recentemente, tinha mais seguidores nesse Tumblr do que no 2 Kinds of People. Mas sim, não teve tanta expressão fora da Internet (apesar de também ter sido publicado em forma de livro).
 No fundo, são humores diferentes e foram alturas diferentes. O Kim Jong-Il looking at things era bastante negro e, para além disso, eu não era o detentor dos direitos das imagens, o que dificultou o processo de levar o projeto a algo mais do que um simples blogue. Ele (Kim Jong-II) morreu um par de anos depois de o projeto começar, o que fez com que eu ficasse sem material disponível para publicar e, então, tive que dar aquilo por terminado.

 

 AP e AM: Quais são os teus próximos projetos?

 Não sei, não tenho ainda nada definido. Quando o Kim Jong-Il looking at things chegou ao fim, ainda demorei uns anos a voltar a ter um projeto no qual acreditasse. Eu costumo focar-me exclusivamente num único projeto até à exaustão, literalmente. Chega a um ponto em que me farto dos projetos e de estar sempre a fazer a mesma coisa, e é nesses momentos em que fecho a loja até ter outra ideia.
 O 2 Kinds of People ainda não atingiu esse ponto, mas está perto de lá chegar. Já ganhei um Webby Award com ele, já escrevi um livro, estou no pico daquilo que o projeto pode ser e, por isso, aquela vontade de fazer melhor e de conseguir mais não é a mesma. Mas cada coisa a seu tempo…

 

 Pequeno quizz:

  1. Primeiro os cereais e depois leite ou primeiro leite e depois cereais?

Primeiro os cereais, e só depois o leite.

 

  1. Dinheiro ou cartão?

Cartão, sempre.

 

  1. Lavar a loiça à mão ou na máquina?

50-50, na realidade.

 

  1. 36 notificações ou nenhuma?

Nenhuma.

 

Para conheceres melhor o seu projeto vai a: http://2kindsofpeople.tumblr.com/  

Autor
André Medina

Num universo tão vasto como o nosso, quantas são as pessoas que são açorianas (micaelenses), ouvem música todos os dias, não falham um jogo do Sporting, leem livros e veem wrestling? Algumas, reconheço. Mas a pessoa que está a redigir este pequeno texto introdutório chama-se André Medina, tem 20 anos e, há dois anos, embarcou na maior aventura da sua vida. Sair de casa nunca é fácil, e fazê-lo quando não se sabe cozinhar nem dobrar roupa é ainda mais complicado. Mas, muitas saladas de atum, pizzas do Pingo Doce e noodles depois, aqui estou eu: vivo e no último ano do curso de Jornalismo. E, em jeito de recompensa por ter sobrevivido a estes duros anos, tive o privilégio de poder ser o primeiro editor da secção de Deporto na MAGAZINE. Eu, uma pessoa que ainda não sabe dobrar uma t-shirt como deve ser. De qualquer forma, espero poder retribuir a confiança depositada em mim e quero que todos se sintam bem-vindos a esta escola e a este magnífico projeto, que é a nossa querida ESCS MAGAZINE.

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