Kazuo Ishiguro: o mestre da memória, do tempo e da auto-ilusão

Entre o Japão e Inglaterra, Kazuo Ishiguro cresceu com influências de duas culturas totalmente distintas. Aos 62 anos, foi o 114.º autor galardoado com o Nobel da Literatura. Para a Academia Sueca, este prémio deveu-se aos seus “romances de grande força emocional” e ao facto de Ishiguro ter descoberto “o abismo da nossa ilusória sensação de conforto com o mundo”.

Verdade seja dita, os prémios não constituem uma novidade para o escritor nipo-britânico: já havia sido designado Oficial da Ordem do Império Britânico em 1995 quando, em 1998, recebeu a condecoração honorífica de Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres. Para além destes prémios, a sua obra-prima, Despojos do Dia valeu-lhe o Man Booker Prize for Fiction em 1989.

A obra supra-citada, escrita apenas num mês, pode ser considerada uma novela com um narrador-personagem, na medida em que o protagonista, Stevens, realiza prolepses e analepses para se focar no relacionamento que existia entre ele e a governanta Miss Kenton. Com uma visão abrangente do mundo, escreveu também As Colinas de Nagasaki, uma obra marcante por estabelecer um paralelismo entre a realidade do autor e de Etsuko, uma japonesa que vive em Inglaterra e revive todo o seu passado quando recebe uma visita da filha. De uma análise do papel da mulher na sociedade, passamos rapidamente para a vida de um pianista que vive uma crise interior profunda – situação peculiar, pois Kazuo desistiu de uma carreira musical após ser rejeitado por variadas editoras discográficas.

Apontando como principais influências Franz Kafka, Jane Austen e Marcel Proust, é possível entender como uma combinação de ficção absurda com ironia e conservadorismo e ainda uma pitada de temas fraturantes, como a homossexualidade, desenvolveu o pensamento de Ishiguro. Aliás, se refletirmos, o papel central que a memória assume na obra À la recherche du temps perdu, na desmistificação do conceito tempo que ocorre em A Metamorfose ou na ilusão recorrente em livros como Mansfield Park, chegamos à conclusão de que Ishiguro não se tornou um mestre da literatura por acaso.

“O mundo vive um momento muito incerto e eu espero que todos os prémios Nobel possam ser uma força positiva no mundo. Ficaria profundamente comovido se pudesse de algum modo contribuir para uma atmosfera positiva em tempos tão incertos”, afirmou Kazuo Ishiguro à BBC, revelando a sua humildade e não se apercebendo de que, mesmo numa época de confronto e incompreensão, não é apenas um “escritor de obras internacionais” como almejava, mas também alguém que permite que nos conectemos de forma autêntica ao mundo que nos rodeia.

Autor
Maria Moreira Rato

Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

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