Marcelinho de Belém

O nosso “querido” presidente cumpriu dois anos de mandato no passado dia 24. Escusado será dizer que vai ser reeleito daqui a três anos. Desse modo, as aventuras de Marcelo pelas terras que, por hierarquia, são como se fossem suas (não são não, são do povo!), vão ser renovadas por mais algumas temporadas. Deviam ser nomeadas a algum prémio de televisão, porque nem o pessoal de Hollywood conseguiu (que me lembre) personificar uma bola de ténis no corpo de um chefe de Estado. Conforme o evento, era como se o Marcelinho levasse uma raquetada do destino ou da mente, ou do que é que fosse. Lá ia, tipo bala, onde quer que estivesse antes. Depois, de olhos postos na televisão, pasmamo-nos com a prontidão dele. Até me dói o pescoço. A televisão é o court, mas todos estamos à mesma distância dos jogadores e da bola presidencial.

Metáforas à parte, nunca houve no nosso país uma figura política como o atual presidente da República. Da mesma maneira, ele também aproveitou a conjuntura do mundo em que vivemos, quer no panorama geral em Portugal como do ponto de vista da sociedade humana e dos avanços tecnológicos que vão formando esta conjuntura. Primeiro, Marcelo não era propriamente um desconhecido antes de tomar posse. A não ser que estivéssemos isolados do mundo nos últimos 10/ 15 anos, toda a gente o conhecia das noites de domingo da TVI, quer víssemos o segmento, quer lêssemos nos jornais aquilo que o senhor tinha dito. Isto digo das gerações mais novas, visto que os mais velhos provavelmente já o conheciam dos comentários na RTP, dos tempos de ministro ou dos tempos como líder do PSD. Durante os seus tempos na televisão, as manhas do senhor viraram meme antes de os memes terem ganho popularidade, especialmente a partir do momento em que Ricardo Araújo Pereira, outro meme do folclore da era da informação em Portugal, imitou o atual chefe de Estado.

Uma década passa. O professor Marcelo torna-se candidato à presidência da República na era da Internet. Desse modo, a sua popularidade ganha um efeito “bola de neve”: já era popular junto de uma faixa etária mais velha, não só devido ao seu comentário político, mas também devido à sua personalidade afável e, a meu ver, genuína (como se pode comprovar com os constantes beijinhos e abraços às velhotas). As suas façanhas podem, agora, ser acompanhadas e escrutinadas pelos mais jovens. Para estes efeitos, Marcelo Rebelo de Sousa foi abençoado, porque a sua personalidade num contexto em que tudo e todos o podem ver e adorar é um casamento perfeito. Gostaria de cunhar Marcelo como o presidente do dab. Título mais honroso não existe. Ninguém quer saber da Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, pessoal. É também o presidente do Europeu! Obrigado, deus Éder.

Mas se isto tudo é uma bênção, há que lembrar quem antecedeu Marcelo. Penso que esta comparação será fácil de entender: passámos da Vossa Excelência e Eminência Senhor Presidente da República Portuguesa Aníbal António Cavaco Silva para o Marcelinho de Belém. O primeiro destacava-se por não se destacar, basicamente. Primava pela sua atitude estoica e letárgica, vista pelo cidadão comum como sendo uma atitude arrogante e de superioridade. Não digo que não o fosse. O atual presidente é o oposto. Não é só diferente: Cavaco é um dos Polos; Marcelo é o Equador. Um suga a energia e o calor de tudo num raio de 2,3 quilómetros. Ao outro dá-se um abraço, mesmo se estivermos a cortar a relva ou a regar o jardim numa manhã de julho.

Mesmo se o atual presidente da República fosse alguém polarizante, seria sempre melhor em relação a Cavaco. Este facto, aliado à personalidade de Marcelo e ao seu já alto nível de popularidade, foi a cereja no topo de uma candidatura infalível. Por consequência, resultou numa nomeação praticamente inevitável, como se comprovou pelos números nas votações. As suas visitas de caráter emocional durante os trágicos incêndios, a sua promessa cumprida de passar o Natal em Pedrógão e a sua atitude aparentemente imparcial para com o poder legislativo (Governo e Parlamento) já mitificaram o seu mandato.

Quem, entretanto, morrer, conseguiu ainda viver durante o mandato da mais adorada figura da democracia portuguesa. O argumento da campanha eleitoral de 30 anos não pega, porque, dessa maneira, todos estamos em campanha eleitoral desde que nascemos. Qualquer ação conta. Marcelo é presidente porque é ele, e se candidatou na altura certa.

Resta saber é se o mito, entretanto, desvanece. Tão grande é a expetativa, que não seria de estranhar se a opinião pública se virasse contra o querido líder, caso ele dissesse a coisa errada na altura errada. A sua ponderação faz com que eu não acredite muito em tal coisa, mas pode acontecer. Li isto à Marcelinho. Temo mais é por quem substituirá este presidente. É uma sombra cuja dimensão cobre muita coisa. Há que perceber que nem todos somos Marcelo. É uma questão psicológica. Marcelo é um poço de energia, um monstro emocional e um puro extrovertido. É alguém que parece energizar-se por cada sorriso que dá. Nem toda a gente é assim. Cavaco certamente teria de nascer outra vez para conseguir chegar perto desse jeito de ser.

No entanto, não é com beijos e abraços que se resolvem problemas. Só os atenuam, são como um penso rápido. Com políticas e ações é que estes se resolvem. É com um equilíbrio de ambas que se consolida a ordem e a estabilidade de um povo. Até lá, agarrem as pipocas e uma almofada de pescoço e disfrutem das Aventuras do Marcelinho de Belém (a Maria de Belém é da Belém que meteram no Portugal dos Pequeninos). Esta não está na Netflix.

Netflix.meteram no Portugal dos Pequeninos). Esta não está na Netflix.

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