Na rota do pistolero

O ciclismo é, na minha honesta mas relativamente tendenciosa opinião (que está bem vincada neste artigo), um dos desportos mais duros, senão mesmo o mais duro de todos. A imensidão do esforço que é necessário para se correr mais de 150 quilómetros durante três semanas, com apenas dois dias de descanso pelo meio, umas vezes sob chuva e frio, outras vezes sob calor insuportável, suportando diferenças de temperatura e de altitude abruptas (já para não falar das ocasionais quedas gravíssimas), é algo que imagino ser sobrehumano, mas que não posso compreender. Apenas quem teve a “sorte” de disputar tão prestigiadas e extenuantes corridas consegue (não digo com isto que o ciclismo são só as grandes voltas, mas são, sem dúvida, as mais duras).

Apesar da sua extrema dureza, o ciclismo é uma modalidade à qual muitos amantes de desporto não dão o devido valor. Um dos argumentos usados contra o ciclismo é o de “pessoas a andar de bicicleta” não ser um desporto. Ou seja, o ato de andar de bicicleta, algo relativamente comum e uma parte integrante do quotidiano de muita gente, é reduzido a uma existência cinzenta e aborrecida. Assim, visto que a maioria das modalidades desportivas são baseadas em atividades relativamente comuns, não teríamos desporto. Não havia competição. Eu, como alguém extremamente competitivo e obsessivo, teria que inventar uma forma de competição. Se eu não existisse, alguém se lembraria de o fazer. Felizmente para mim, lembraram-se. Outro argumento contra o ciclismo é que é “aborrecido”, algo com o qual concordo até um ponto. Ninguém vê as provas desde o início: só se vê as partes mais importantes, que são normalmente nos últimos 50 quilómetros de cada corrida/etapa. Se ainda acharem aborrecido, é porque não gostam.

Quando comecei a ver ciclismo também me aborrecia facilmente, mas era ainda muito “puto”. Via só a Volta a Portugal e não prestava muita atenção a quem corria, à exceção dos mais conhecidos (Cândido Barbosa, Rui Sousa, David Blanco, etc.). Mesmo quando não via, saber que a Volta a Portugal estava a ser disputada era suficiente para que eu pegasse na minha bicicleta e me pusesse a contornar os canteiros do meu quintal o mais rápido que conseguisse. A partir dos meus 11, 12 anos comecei a prestar mais atenção. Mais uma vez, tenho de agradecer aos jogos: comprar o Pro Cycling Manager para a PSP (e mais tarde para o PC) possibilitou-me acompanhar com melhor qualidade o mundo do ciclismo, e ajudou-me a, pelo menos, memorizar os nomes de ciclistas e de provas, sobretudo das menos importantes. A partir dessa altura, acompanhar a Volta a França já tinha outro gosto, visto que já conhecia quase todos os ciclistas mais ou menos importantes.

No entanto, Alberto Contador já me era familiar. A partir daquele ataque em Andorra, no Tour de 2009, aquela maneira de pedalar caraterística não me saía da cabeça: estava quase sempre fora do selim, mas sempre como se fosse a trote (imaginando a “bicla” como um cavalo), sem mostrar grandes dificuldades até nas mais duras subidas. Quando arrancava, só as motas é que o acompanhavam. Foi assim em Andorra. A partir dessa altura, mais ou menos, comecei a “brincar” com a minha família acerca de uma hipotética carreira como ciclista. O meu corpo dava para isso, visto que os ciclistas têm, na sua maioria, estatura semelhante à minha. Queria ser como o Alberto, queria deslizar pelas subidas mais íngremes com a maior das facilidades, e deixar para trás toda a gente, vencer com vantagens de minutos e minutos, e festejar como ele.

O ano de 2011 foi, para mim, memorável no que toca a grandes performances. Philippe Gilbert “limpou” as clássicas das Ardenas, sistema montanhoso que cobre sobretudo o Este da Bélgica. São três corridas disputadas no curso de uma semana: todas têm mais de 200 quilómetros e são extremamente duras, com muitas subidas curtas e íngremes, requerendo grande capacidade de explosão e endurance. Mas a performance de Alberto Contador no Giro foi algo de sobrenatural. Foi tão impressionante que, fruto da sua suspensão (acusou doping no Tour do ano anterior), a sua vitória foi-lhe retirada, tendo sido entregue ao malogrado Michele Scarponi, que acabou em segundo, a mais de cinco minutos. Em comparação com os outros favoritos à vitória, Contador chegava quase sempre isolado nas etapas mais duras. A facilidade era tanta que, nas duas ocasiões em que alcançou fugitivos, deu-lhes a vitória: uma foi dada ao companheiro de equipa Paolo Tiralongo, um dos melhores gregários dos últimos anos, e a outra foi dada ao venezuelano José Rujano, que acabaria na sexta posição nesse ano. A questão do doping é certamente discutível: visto que este desporto é tão duro, penso que o recurso a substâncias que auxiliam a performance (ilícitas ou não) é generalizado. É uma questão de quem é apanhado ou não. Mas eu não percebo muito do assunto. Meter motores nas bicicletas sempre é pior, pelo menos do ponto de vista desportivo. Esse Giro de 2011 também ficou marcado por um outro evento que, de uma maneira diferente, marcou-me a mim e a todos aqueles que gostam de ciclismo. Na etapa 3, o belga Wouter Weylandt faleceu após uma queda, onde bateu com estrondo no alcatrão. Nas imagens que nos chegavam à televisão, o seu nariz parecia que tinha desaparecido: tinha ficado para dentro, e o sangue cobria a cara e boa parte do alcatrão.

Foi ainda nesse ano de 2011 que, sob efeito desses sentimentos mistos de grandeza e medo, decidi tentar a minha sorte no ciclismo, ao inscrever-me num clube. Fui a duas corridas, onde terminei nos últimos lugares. Como em tudo na vida, se quiser ser muito bom em alguma coisa, tenho de sacrificar muita coisa para que consiga estar sempre a cem por cento naquilo que pretendo dominar. No ciclismo, esse esforço é acrescido. Portanto, tive de escolher entre isso e o futebol. A escolha era óbvia: escolhi aquilo de que gostava mais e que exigia menos sacrifícios em termos de tempo. Também não tenho de me preocupar com a minha vida no futebol, a não ser que parta uma perna ou que morra subitamente (a probabilidade é mais pequena): nem eu nem a minha família temos de nos preocupar. Posso dizer, em retrospetiva, que não me arrependo dessa decisão, tal como não invejo aqueles que conseguiram tornar-se ciclistas profissionais, apesar de ter desejado veementemente essa realidade para mim durante algum tempo (ainda desejo, kind of).

Portanto, decidi que me dedicaria apenas a acompanhar de perto as provas e os desenvolvimentos do desporto. Aliás, eu não ando de bicicleta há uns três anos. Em 2012, pude ver o despertar de Christopher Froome. A sua força é descomunal. Nem precisa de levantar-se do selim para o demonstrar. Faz a sua corrida e, quando está bem, acelera um pouco, volta ao selim, e lá vai ele como um foguete. Para quem quiser ver um dos melhores momentos dos últimos anos no ciclismo, vejam o final da etapa 17 da Vuelta de 2012. Também não posso esquecer o nosso Rui Costa, que protagonizou em 2013 o melhor momento da história do ciclismo português, ao sagrar-se campeão do mundo de estrada em Florença. E, como é óbvio, um shoutout a uma lenda em formação, Peter Sagan, que se sagrou este ano tricampeão do mundo de estrada. Nunca ninguém tinha sido campeão do mundo três vezes seguidas. É um autêntico caça-etapas, capaz de vencer, à exceção de etapas de montanha, todo o tipo de corridas. Deixo menções honrosas a Fabian Cancellara e a Tom Boonen, duas lendas do “pavé”; a Vincenzo Nibali, alguém que não parece ter medo de andar a 100 à hora em qualquer descida (e também um dos ciclistas mais completos do ciclismo moderno); a Mark Cavendish, Marcel Kittel e André Greipel, monstros dos sprints; a Jens Voigt, Thomas de Gendt, Thomas Voeckler, e àqueles que andam cento e tal quilómetros quase sozinhos em busca de etapas; e a Joaquim Rodriguez e Alejandro Valverde, dois dos ciclistas mais explosivos de sempre e animadores de qualquer final de etapa em altos, quer sejam curtos ou um pouco mais longos.

Mas nenhum me cativou tanto como Alberto Contador, a quem posso agradecer por ter sido o impulsionador da minha paixão pelo ciclismo. Tenho de lhe pedir desculpa por não ter confiado nele o suficiente para uma possível boa prestação na Vuelta deste ano: após a prestação no Tour, nunca pensei que ainda tivesse forças para uma Vuelta de sonho, apesar de ter sido apenas quinto. Já me tinha esquecido de que tinha ganho o Giro há dois anos. O show que deu no Angliru foi digno de um campeão, e vou ter muitas saudades daquele galope dele por serras e valados, aquele pedalar que tanto espetáculo deu ao longo de uma década. Um brinde ao Pistolero. Perdoem-me as “freitas-lobices”, já agora.

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