“Não sou eterno. Quando os meus camaradas quiserem, eu saio”

Estava sentado à secretária quando entrei no seu gabinete. Tímido e de simples blazer vestido, recebeu-me no Parlamento para uma entrevista que fez viajar até ao passado, com os olhos no futuro. Na primeira de duas partes desta Grande Entrevista poderás conhecer melhor o homem que não gosta de ser chamado “doutor”: Jerónimo de Sousa, nascido em Pirescoxe em 1947, e secretário-geral do Partido Comunista Português há quase 13 anos, mostrou à ESCS MAGAZINE o seu lado mais pessoal. Eis o seu percurso, passando pela fuga à prisão, até ao possível fim da sua carreira política.

Começou a trabalhar aos 14 anos como um “humilde” operário metalúrgico. Como é que deixou essa carreira e enveredou antes pela política?
A minha origem social resulta do sítio onde nasci e cresci, naquela corda industrial de Lisboa, que ia desde Sacavém a Vila Franca de Xira, onde o filho de um operário seria operário. No tempo do fascismo era assim. E quando o professor, na escola primária, nos perguntava o que queríamos ser quando fôssemos grandes a resposta era sempre “operário”. Também não tínhamos grandes ilusões: conhecíamos bem as más condições de vida das nossas famílias e sabíamos que a fábrica era o nosso destino inevitável. E foi lá, na fábrica metalúrgica, que tive o primeiro contacto com aquela realidade de exploração, de injustiça, de baixos salários e sem direitos, que começou a despertar em mim a consciência social dessas mesmas injustiças e explorações. Na altura o PCP tinha uma grande influência naquela zona e os mais velhos foram começando a alertar-nos e a puxar pela nossa consciência. Por outro lado, houve outras duas dimensões que também foram importantes: a participação no movimento associativo e na Guerra Colonial, na Guiné Bissau. A primeira, através de coletividades com iniciativas sociais diversas, desde o teatro, que eu fiz, passando por bibliotecas, entre outras coisas. A segunda, por ter sido uma vivência e uma experiência marcante, por sermos muito jovens e porque naquela zona se desenvolvia a luta de guerrilha, o que para nós era uma batalha inevitavelmente perdida. E acredito que foi esse equilíbrio entre a experiência da fábrica, as vivências e o movimento associativo que foi formando a minha própria consciencialização política da realidade. Tanto que quando regressei da Guiné comecei imediatamente a participar mais na ação reivindicativa da empresa em que trabalhava, apesar de todos os riscos que isto implicava, porque a DGS – a polícia política – nos perseguia e naquela região era comum prenderem dezenas e dezenas de operários.

E como era essa vida de clandestinidade partidária?
Não sei se devemos dizer propriamente “clandestinidade”. Eu não estava na clandestinidade. Estava a trabalhar e participava no movimento associativo, mas o grande problema era saber que se caíssemos na alçada da polícia ficaríamos marcados. E nesses casos, à primeira oportunidade, eles não tinham qualquer problema em irem buscar os operários à fábrica ou a casa e prendê-los. Portanto, isso era um risco permanente. Houve um momento decisivo nesse aspeto: entre 1972 e 1973, foi preciso criar uma lista para concorrer ao Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa, e havia um quadro semilegal em que quem já tivesse sido preso político não poderia participar. Foi então que um grupo de jovens, do qual eu fazia parte, encetou um processo e, em eleições controladas pela polícia, vencemos e ficámos à frente desse sindicato. A partir daí há todo um processo de luta reivindicativa, até ao ponto em que a DGS decidiu que estava na altura de acabar com aquilo e prender-nos.

Chegou a estar preso, então…
Não, não cheguei e é uma história curiosa: foi uma ironia do destino, mas eu e os restantes membros do sindicato íamos ser todos presos no dia 30 de abril de 1974. Cinco dias antes deu-se a revolução do 25 de abril, e assim quem acabou por ser preso foram os agentes da polícia política.

De que forma é que a Revolução de 25 de abril o marcou?

Marcou-me imenso: a minha vida ficou muito marcada por abril, pela revolução, pela liberdade e pelas transformações sociais. Também por ter acompanhado de perto todo aquele processo, todos aqueles avanços e recuos. O impacto foi tão grande que, num belo dia, o PCP chamou-me e disseram-me que ia ser deputado na Assembleia Constituinte. E eu lembro-me que as minhas primeiras perguntas foram “Mas como é que é isso de ser deputado? Como é que isso se faz?”. E aí responderam-me que eu já tinha alguma experiência, quer das minhas vivências, quer de falar em público, porque falei para milhares de trabalhadores nos plenários da empresa. Bastava transportar da fábrica para a Assembleia essa experiência e esses conhecimentos. E assim foi: fui eleito em 1975 para a Assembleia Constituinte, mas sempre com a peculiaridade de que de manhã ia para a fábrica, a MEC, e à tarde ia para a Assembleia.

Mencionou algumas vezes o papel que os militantes mais velhos tiveram na sua carreira política. Acredito que um desses mestres tenha sido Álvaro Cunhal. Como era a sua relação com ele?
Tendo em conta que ele foi forçado ao exílio, eu só conheço o Álvaro Cunhal já depois de abril e por isso toda a aprendizagem que fiz com ele foi depois dessa altura. Mas era uma figura fascinante em termos de militância, de inteligência e de coragem. Foi uma pessoa que me marcou muito como um grande exemplo de um revolucionário.

Jerónimo de Sousa com o lendário líder do PCP, Álvaro Cunhal | VISÃO
(Nesta altura, entre risos, Jerónimo de Sousa pede-nos para que não o tratemos por “doutor” nem por “engenheiro”. Por respeito às origens de um operário que se transformou num deputado de sucesso, diz-nos para o tratarmos apenas por quem ele é: “Jerónimo”.)

Em relação ao futuro: faz em novembro 13 anos desde que foi eleito secretário-geral do PCP. O seu antecessor, Carlos Carvalhas, não chegou à marca dos 13 anos por apenas um mês. Apesar de em princípio conseguir superá-lo, acha que também o seu ciclo está perto do fim?

A verdade é que ninguém é eterno. Com certeza que por razões da vida, de saúde, de idade, até mesmo por razões de necessidade do próprio partido, havemos de fazer essa substituição. E nesse processo eu tenho sempre uma grande tranquilidade, que é o facto de eu não ser candidato a nada nem ter qualquer pretensão pessoal. Não estou agarrado ao poder. No meu partido são os meus camaradas que decidem, e, portanto, quando eles acharem que é necessária essa substituição ela dar-se-á normalmente. Mas tenho visto a confiança dos meus camaradas ser renovada relativamente à responsabilidade que tenho. Aliás, no Congresso que me elegeu, em dezembro do ano passado, houve uma grande unanimidade em torno da minha liderança. E com uma particularidade: são muitos e muitos portugueses, alguns até de outros partidos, que reconhecem e testam a forma como eu estou na política. Porque se formos a ver bem, eu não obedeço ao estereótipo do líder político e deputado, eu saio um pouco dessa regra geral. E nisso, apenas uma coisa me anima: eu sou daqueles que considera que é importante resgatar a coisa mais nobre que tem a política, que é servir os interesses dos trabalhadores e do meu povo e não de me servir a mim próprio. E essa é uma marca que me faz sentir profundamente realizado, até porque não tenho bens pessoais ou materiais. Aliás, na política não tive qualquer benefício material, o meu salário é aquele que eu receberia na fábrica.

Olhando para o lado mais pessoal: como é o Jerónimo de Sousa no dia a dia, o cidadão?
Bom, essa é outra caraterística muito própria. Eu sou o cidadão mais comum quando estou fora da política. O tempo que me sobra para a minha vida pessoal e familiar é pouco, devido a uma agenda muito carregada, com iniciativas permanentes, fins de semana preenchidos… mas, sempre que posso, tento ter duas dimensões: primeiramente a família, aproveitando todos os tempos disponíveis para lhes dar acompanhamento, atenção e para estar com eles; e depois, em segundo lugar, as outras pessoas, como os meus vizinhos e os meus amigos. Tento estar com eles na coletividade de onde moro, Pirescoxe, e lá eu sou um deles. É claro que eles sabem das minhas responsabilidades, mas não têm problema nenhum em desafiar-me para um jogo de cartas ou em chamar-me para me sentar a uma mesa com eles e conversar. Ou seja, eu digo que sou um deles porque eles não olham para mim com subserviência nem com supremacia. Muitos nem são do PCP, mas, no entanto, às vezes tratam-me por camarada, por exemplo. Mas a essência fundamental é que eles me consideram um deles.

É este o lado pessoal de Jerónimo de Sousa, um deputado-operário, amante de teatro e jogador de cartas com os amigos. Poderás conhecer o lado profissional e a visão política do secretário-geral do PCP na segunda parte desta entrevista, aqui, na tua ESCS MAGAZINE.

Categoria: Grande Entrevista
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