No meu tempo

Este artigo é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico

Não fui à minha viagem de finalistas. Recusei-me a manchar a minha reputação de misantropo pseudo-straight edge. Mal de mim se alguma vez eu me iria associar com a mentecapta ricalhagem com quem partilhava a sala de aula.

O meu esquerdismo extraiu um pouco desta arrogância juvenil, mas não mexeu muito nas minhas convicções originais – continua-me a subir a bílis à boca sempre que sinto a presença de um snobe, de uma tia ou de um menino/a rico/a.

Como podem imaginar por este discurso, não me arrependo de não ter ido. Os acontecimentos recentes em Torremolinos surpreendentemente não funcionaram muito para mudar a minha opinião. No entanto hoje não quero focar-me no incidente em si, mas na reação do Zé Povinho ao dito cujo.

Quando este tipo de fenómenos ocorre, ouvem-se sempre umas vozes, uns burburinhos “restelianos”, bem personificados por estas frases que retirei da secção de comentários de vários sites noticiosos: “O episódio de Torremolinos reflete bem o que se passa em termos educacionais neste nosso Portugal ‘moderno’.”, “Será que estes ‘finalistas’ vão entrar na Universidade? Creio que não.” e “Isto não era assim. No meu tempo cada um destes palermas levava um enxerto.”

O discurso é sempre o mesmo – um orgasmo de ruminação. A julgar por estas pessoas, a humanidade já deveria ter voltado àquela sopa primordial de onde saiu. Zero passos à frente, dois passos atrás, é aqui a filosofia dominante.

É uma pena ter de estragar o palanque moral destes sábios, mas este tipo de coisas sempre aconteceu. É só vermos, por exemplo, aquilo que se passou em Abril de 1980, também em Torremolinos. Este uso seletivo da memória é quase orwelliano. A filosofia do “no meu tempo” é apenas a manifestação de uma forma não patológica de Alzheimer. Pois bem, a única diferença é que agora temos a possibilidade, para bem ou para mal, de gravar e propagar este tipo de coisas de forma extremamente rápida e, como tal, não há maneira de esconder ou de “esquecer” estes atos desmesurados, típicos da adolescência rica em hormonas.

Como teoria alternativa podemos apontar a culpa destes fenómenos ao governo de António Costa, como faz a minha nova cronista preferida, Maria João Marques. Aliás, se virmos os vídeos frame a frame, podemos ver a Catarina Martins a atirar uma máquina de lavar a roupa da Singer pela janela do hotel.

Autor
João Carrilho

João Carrilho é a antítese de uma pessoa sã. Lunático, mas apaixonado, o jovem estudante de Jornalismo nasceu em 1991. Irreverente, frontal e pretensioso, é um consumidor voraz de cultura e um amante de quase todas as áreas do conhecimento humano. A paixão pela escrita levou-o ao estudo do Jornalismo, mas é na área da Sociologia que quer continuar os estudos.

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