O Escândalo de Phllippe Dussaert – review

Marcus Caruso atravessou o Atlântico para interpretar o premiado monólogo “O Escândalo de Philippe Dussaert”. O ator, mais conhecido pelo público português pela presença em telenovelas da rede Globo, comprovou, no passado dia 25 de Fevereiro, a distinção que é atribuída à sua performance. Para aqueles que pretendam assistir à peça (agora apenas no Porto, Famalicão, Águeda, entre outros) sugiro que dêem por terminada a vossa leitura.

O movimento artístico de vanguarda, com definições artísticas que em pouco se cruzam com aquelas pelas quais os grandes mestres se regiam, é, ainda hoje, um ponto de reflexão. Com três buzinas sonantes a peça começa, expondo logo de início que qualquer conhecimento artístico não será necessário e partindo para o debate e confronto de movimentos tradicionais e clássicos em oposição aos de vanguarda. No séc. XX é nos trabalhos de artistas como Duchamp e Philppe Dussaert que nos questionamos sobre se aquelas obras se tratam de arte ou “gozação”.

A técnica de Dussaert, com base na imitação de grandes obras da história de arte, parte do conceito de exploração do fundo. Assim, quase como um prefixo, surge a série de 19 obras “O fundo de ….“, de Mona Lisa ou da Rapariga do Brinco de Pérola. O artista limita-se a tirar personagens ou elementos que se encontrem em primeiro plano ou destaque de obras conhecidas. O escândalo surge não por estas obras, que, de alguma forma roçam o ridículo, mas a partir da obra do vazio em que o artista despojou o primeiro plano, segundo, terceiro, a tela e o apoio da tela. Nada aquela obra tinha de palpável, visual ou sensorial. Tinha apenas um conceito e este valeu perante um concelho como fundamento para considerar uma obra de arte. Assim, comprova-se que a arte contemporânea é movida não pela técnica mas pelo conceito envolvente, pelo discurso que o artista tem com quem contacta com a obra e o discurso que o espectador tem com a obra. É o conceito que diferencia a obra de muitos artistas de a de um chimpanzé com uma exposição em Berlim. Será de alguma forma uma ilusão, um jogo de persuasão que através das palavras certas distingue artistas? Ou não passará apenas de uma mentirinha de conveniência?

Ficamos com a ideia que há muito perpetua, a de que arte, hoje, pode ser tudo, “por um dia ter visto numa exposição um prato branco com defectos humanos, nao posso chamar de ***** as obras de Dussaert”. Este é um exemplo menos subtil usado no texto de Jacques Mougenout, enriquecido por exemplos factuais e realistas que envolvem o espectador de tal forma que nos deixamos levar por uma mentirinha. Muito do impacto dos acontecimentos deve-se à convicção de Marcus que nos leva a crer, durante uma hora e vinte, que Philippe Dussaert existe.

No entanto, contrariamente ao mundo das artes plásticas, no teatro podem existir mentiras e é em palcos que estas devem coexistir e não no mundo real.

Uma performance que incita à reflexão sobre o que é a arte e ainda mais importante, a ingenuidade humana.

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