O meu lado negro

 Esta crónica é escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico

Apesar das minhas marcadas posições canhotas na esfera política, venho aqui, em jeito de confissão, falar um poucochinho de algumas das minhas posturas mais à direita. Antes de mais, um momento rapper – esta é dedicada àqueles que já não gostavam de mim de qualquer maneira. Um beijo para as inimigas.

Sou um claro conservador artístico: acho a arte dita moderna um embuste – desde a pretensão de James Joyce aos filmes igualmente arrogantes de David Lynch, a maioria das pessoas acha artístico aquilo que lhes dizem para achar artístico.

Consigo em absoluto apreciar a metáfora de Dali, ou a emoção crua de Van Gogh, mas quando entramos nas pinceladas aparentemente aleatórias de Pollock, a minha tesão artística morre por completo. A arte mimética é, para mim, a mais bela: seja transformativa (como a de Monet, ou até a do próprio Van Gogh), ou pura cópia (Rembrandt ou Miguel Ângelo), a técnica aliada à busca pela perfeição é genuinamente tocante.

O meu conservadorismo artístico atinge o seu auge quando falamos do mundo da música; como Darwinista que sou, pergunto o seguinte ao leitor: porque é que quando é pedida aos críticos uma lista dos melhores álbuns de sempre a maioria dos LP escolhidos é dos anos 60 ou 70?

Simples: seleção natural. Nessas décadas, não se fazia música melhor, não estou a dizer isso. A arte era algo mais elitista – estava na mão de meia centena de sábios. Hoje em dia, faz-se tão boa música como no passado, mas a democratização da mesma multiplicou infinitamente a quantidade de má música. Qualquer marmanjo com o Audacity, uns samples manhosos e um instrumento de 50€ faz um álbum. Acreditem em mim – eu já caí neste erro.  A seleção natural da qualidade artística é agora algo perto do impossível.

E agora para algo completamente diferente: detesto mulheres que trazem bebés para supermercados, ou outros locais com grandes filas, com a intenção clara de objetificar o neném de forma a serem consideradas clientes prioritárias. Já vi o ridículo de pais à porta do estabelecimento em causa com o carrinho de bebé vazio à espera da mamã que, vá-se lá saber porquê, decidiu levar o miúdo consigo.

Outra: não tenho muito apreço pelo vegetarianismo. Nem é muito pela ideologia/dieta em si, é mais pelo palanque moral eterno onde se encontram a maioria dos veganos, olhando para a populaça comedora de carne com nojo e desprezo. Muitas vezes, faz lembrar uma religião: têm dogmas, ritos, propaganda (geralmente disparates científicos acerca da natureza da dieta humana) e ódio a hereges.

Poderia falar dos guerreiros da justiça social, esses heróis do teclado e grandes censores modernos, mas esse tema é tão vasto que merece por si mesmo uma crónica dedicada.

Mais alguma… Não gosto muito do Sean Penn enquanto ator. Isso conta? Acho que a fruta biológica é uma roubalheira e que a maioria dos hipsters são uns arrogantes pretensiosos, mas é provável estar-me a olhar ao espelho.

Temo já estar a entrar no estereótipo e é melhor ficarmos por aqui, antes que eu comece para aí a falar de barbas grandes ou afins.

Autor
João Carrilho

João Carrilho é a antítese de uma pessoa sã. Lunático, mas apaixonado, o jovem estudante de Jornalismo nasceu em 1991. Irreverente, frontal e pretensioso, é um consumidor voraz de cultura e um amante de quase todas as áreas do conhecimento humano. A paixão pela escrita levou-o ao estudo do Jornalismo, mas é na área da Sociologia que quer continuar os estudos.

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