O tempo entre as costuras

Podia ser mais uma das muitas lojas de souvenirs que encontramos na grande Lisboa. Mas não é; pelo menos, não só. É no número quatro da Praça da Figueira que encontramos, entre postais que nos levam até ao Castelo de S. Jorge e ímanes que nos trazem o cheiro da sardinha assada, que invade Lisboa durante as festas dos Santos Populares, uma porta atrás de um balcão. Não fosse atrás dela estar um lance de escadas, e diríamos que para além dela apenas se guardavam os tais postais e ímanes que ainda não estavam expostos às centenas de turistas que por ali passam todos os dias.

É no segundo andar que encontramos Paulo, um dos sócios da casa “Marques&Sequeira”. “Começou por ser um comércio só de tecidos”, explica-nos quando lhe perguntamos sobre o início do negócio, que já está na sua família há três gerações. “A empresa propôs sociedade ao meu avô em 1928 – que, na altura, estava aqui empregado – e, uns anos mais tarde, saíram. Ele ficou sozinho”. Mas não foi logo que o negócio do avô de Paulo se tornou o negócio de família que hoje ainda é. O avô, de quem nunca soubemos o nome, arranjou um sócio. “O Sequeira era um sócio que na altura o meu avô arranjou; mas, ao fim de seis meses, pô-lo logo a andar [risos]. Ele não queria trabalhar.” Depois da morte do avô, o negócio que um dia viria a ser não só, mas também seu passou para as mãos do seu pai.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 10.56.19Paulo Figueiredo, um dos sócios da empresa Marques&Sequeira

Aos 26 anos, o Paulo recebeu um convite do pai – vir trabalhar, juntamente com o seu irmão, que é também um dos atuais sócios, para a loja. Estudantes de Direito e de Engenharia, respetivamente, os irmãos nunca chegaram a acabar o curso e, ao longo dos anos, foram “ganhando amor por isto e levando as coisas para a frente”. Conta-nos que desde que aqui trabalha, as coisas têm evoluído bastante. Com o avançar do tempo e com as mudanças de sócios deixaram de ser apenas os tecidos a fazer parte do dia-a-dia da loja. Armazéns como este apareceram em demasia e houve uma urgência em destacar a loja onde o seu avô tinha começado o negócio que já dura há quase um século. Os botões, as linhas e as entretelas ganharam lugar na área da retrosaria, onde hoje trabalham o Sr. Jaime e, em “part-time”, o Sr. João.

O Sr. Jaime é o empregado mais recente da “Marques&Sequeira”. Trabalha na loja há um ano e três meses e, anteriormente, trabalhava em têxteis de lar. Diz-nos, no entanto, que é completamente diferente porque “aqui há imensas coisas. Linhas, botões, agulhas, fechos; pronto, as coisas de retrosaria”. Revelou-nos já ter quase tudo decorado – o preço das coisas, os nomes e as respetivas referências. Orgulhosamente, diz que ao nível dos botões são “milhares e milhares e milhares”.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.00.41

Já o Sr. João, um antigo florista, cuida da parte da alfaiataria – dando, muitas vezes, “uma mãozinha ali do outro lado”, onde ajuda o Sr. Jaime. O Sr. João, que já havia trabalhado na loja, está cá pela segunda vez. Diz-nos que há sempre alguma coisa para fazer – “quando não há clientes, há coisas para arrumar”.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.02.01Senhor Jaime, o responsável pela secção de retrosaria.

Chega, no entretanto, uma cliente que, com o ar do seu próprio nome, coloca uma revista em cima do balcão. “ Sr. João, quero um tecido desta cor”, diz enquanto aponta para uma fotografia na revista. “Pode ser malha, pode ser um crepe – não estou a falar em qualidade”. O Sr. João atende-a e, no final, entrega um papel à D. Graça. “Nós apontamos tudo à mão. Já é hábito, é um método de trabalho – o cliente chega, pede ajuda, escolhe o que quer levar; escrevemos o preço daquilo que leva e, no fim, o pagamento faz-se ali no escritório”.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.03.34A D. Graça já é cliente da Casa há 40 anos.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.04.42A D. Graça comparava a cor do tecido com a do vestido que viu numa revista.

Quanto à clientela, o Sr. João fala-nos com alguma tristeza. “Às nove horas já tínhamos dez clientes à porta para entrar. Agora não, tudo muda” – diz-nos, referindo-se à época em que veio para cá trabalhar, em 1987. Hoje “não há um quarto daquilo que havia antigamente”; a secção da alfaiataria já foi constituída por sete empregos e hoje o Sr. João consegue tomar conta dela sozinho e ainda dar uma ajuda na secção da retrosaria. Só daqui saem todos dias cinco mil metros de cones e, segundo o Sr. Jaime, “vem gente de todas as idades”; o Sr. João conta-nos que “a alfaiataria trabalha a 20% e que é na retrosaria que se vende sempre qualquer coisinha”.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.07.18A secção de retrosaria.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.08.56

A secção de alfaiataria.

Como se se lembrasse de algo que não poderia esquecer, o Sr. João confessou-nos que, apesar de o negócio não estar muito bom, “quem é do mundo da moda tem que cá vir mesmo”, devido à exclusividade de alguns artigos.
Manuel Alves, João Rolo e José Carlos são alguns dos estilistas que pelo número quatro da Praça da Figueira já têm passado. Segundo Paulo, é o próprio Manuel Alves, também professor na Faculdade de Arquitetura, que “manda muita rapaziada nova, no princípio do ano, vir cá arranjar umas coisinhas para os trabalhos”.

Para além da loja no número quatro, os irmãos e a sua mãe – que é a terceira e última sócia -, já foram proprietários do Império das Lajes, que funcionava no segundo andar. Apesar de esta última já ter fechado, é para o primeiro andar que, no final do ano, a loja que começou por ser apenas uma loja de tecidos se vai mudar. O espaço onde trabalharam as três gerações da família Marques vai ser transformado num hostel. O acesso, no entanto, continuará a ser o mesmo – os números quatro e cinco da Praça da Figueira são os únicos com portas traseiras que nos trazem a um mundo que hoje nos é condensado em roupas já confecionadas e traduzido em lojas com semelhantes espalhadas por todo o lado.

Agora, a clientela já não são alfaiates ou modistas – ou, pelo menos, não na sua maioria; “são gente de Leste e o povo brasileiro”, para além dos estudantes e da D. Graça. A clientela muda, mas as costuras não – “as linhas, os fechos, os botões, os mesmos artigos”, continuam a ser aquilo que mais se vende todos os dias.

Captura de ecrã 2016-04-16, às 11.27.02Há milhares e milhares de botões na secção de retrosaria.

Quanto ao futuro do futuro primeiro andar dos números quatro e cinco, nem o Sr. Jaime, nem o Sr. João, nem o Paulo nos sabem responder. Para o Sr. João, o futuro é a reforma. Mas não quer nem pensar nisso. O Paulo não vê o futuro nem as cinco raparigas que confecionam a quarta geração “a continuar com isto”. “Mas a gente não sabe”, garante-nos. Diz-nos que as ferramentas estão por cá e que, se elas quiserem, “só têm que pegar nelas”, como ele e o seu irmão fizeram há tantos anos atrás.

Mas enquanto o futuro não chega e as únicas mudanças que o tempo traz são para o andar de baixo, a “Marques&Sequeira” continua aberta de segunda a sexta, para todas as Donas Graças que pela porta dos fundos entrarem.

Autor
Catarina Pereira

Tem uma enorme paixão por livros e um dos seus maiores sonhos é dar a volta ao mundo. Quis mandar a Ciência para trás das costas e dedicar-se ao Jornalismo, porém ainda anda à descoberta daquilo que quer fazer “quando for grande”.

Posted in Grande Reportagem, Informação.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *