Os abutres suicidas

Há que admirar a capacidade da direita portuguesa de transformar desgraça em arma política. Refiro-me evidentemente ao recente incêndio monstruoso em Pedrógão. Sobre esse assunto nada mais deixo do que os meus sinceros pêsames e o meu apoio incondicional à população afetada por aquilo que foi um autêntico inferno na Terra. Sofreram mais do que suficiente para não merecerem esta infeliz massagem da direita nacional.

Quase todos vós devem ter visto as declarações do ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, acerca dos alegados suicídios de sobreviventes da tragédia por falta de apoio estatal, tanto a nível emocional como monetário.

Ora, esta mentira asquerosa não demorou muito tempo, felizmente, a ser desmascarada – tratava-se pois de suicídios imaginários, meros desejos do PSD para uso de arremesso retórico. Esta é indubitavelmente uma das mentiras mais nojentas na história política portuguesa (e isto é vindo, caro leitor, de alguém que nunca se ofende com nada). Mesmo a ser verdade, nada mais revelaria do que uma total falta de noção e de respeito perante as ditas vítimas – o suicídio deve ser mencionado o mínimo possível nos media, não por censura, mas pelo efeito copycat, cujo existência já foi demonstrada cientificamente.

A direita portuguesa pouco se distingue de um abutre sobrevoando uma qualquer zona fétida à procura de um naco de carne moribunda. Qualquer tragédia é motivo para regozijo e alegria, porque agora há razões para apontar o dedo. Não interessa se é ao Governo, ao SIRESP, aos Bombeiros ou ao INEM. O que interessa é que o dedo tem de ser levantado, dê por onde der, porque no fim de contas a culpa tem de ser de alguém.

Questões válidas sobre a eficácia da reforma florestal já em curso, ou sobre alguns problemas nas infraestruturas estatais são irrelevantes quando a demagogia, o populismo e o aproveitamento das tragédias para uso político é muito mais doce. Uma perpétua sede de sangue. Um vampirismo vanilóquio. Uma líbido pela desgraça. Chupam tudo e não deixam nada.

O PSD e o CDS são o Correio de Manhã da política portuguesa, mas com uma significativa diferença: eu consigo rir-me ironicamente a ler um tablóide. Já a ver os discursos da direita só a náusea se espoleta dentro de mim.

Autor
João Carrilho

João Carrilho é a antítese de uma pessoa sã. Lunático, mas apaixonado, o jovem estudante de Jornalismo nasceu em 1991. Irreverente, frontal e pretensioso, é um consumidor voraz de cultura e um amante de quase todas as áreas do conhecimento humano. A paixão pela escrita levou-o ao estudo do Jornalismo, mas é na área da Sociologia que quer continuar os estudos.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *