Os media e as questões de género: uma equação cujo resultado é calculado no presente

“Nenhum destino biológico, psíquico, económico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Só a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como outro” – corria o ano de 1949 quando Simone de Beauvoir publicou O Segundo Sexo, livro onde se podia ler a passagem suprarreferida e a citação “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. A autora que influenciou fortemente a segunda vaga feminista não sonharia que, em pleno século XXI, as suas palavras se fariam ouvir de modo tão forte no seminário “Comunicação, Media e Questões de Género”.

 

“Entretanto, não se deve acreditar que todas as dificuldades se atenuam nas mulheres de temperamento ardente. Pelo contrário, podem exasperar-se. A perturbação feminina pode atingir uma intensidade que o homem não conhece”

Anthony Giddens, sociólogo britânico, sempre defendeu a existência da socialização do género, isto é, que se existe desigualdade entre homens e mulheres é porque estes “são socializados em papéis diferentes”. Na abertura dos trabalhos do seminário e seguindo muito o pensamento de Giddens, Jorge Veríssimo, Presidente da ESCS, questionou se a anatomia ainda seria uma fatalidade nos dias de hoje.

Filipa Subtil, docente da ESCS e investigadora que se foca nas áreas da sociologia da comunicação, da teoria social dos media e da relação que os media estabelecem com as questões de género, apresentou As Mulheres Jornalistas, novo título da comunicação Nos lugares de Francisco Pinto Balsemão e Vicente Jorge Silva não há espaço para as mulheres – o jornalismo também escolhe sexo? que apresentou há vinte anos num congresso da Associação Portuguesa de Sociologia, época em que começou a estudar o processo de feminização das redações em Portugal.

Nele, Filipa Subtil tratou três vertentes que conduziram à feminização dos media: o aumento dos níveis de instrução escolar, a entrada massiva das mulheres no mundo do trabalho produtivo e o crescimento dos media no quotidiano a partir dos anos 80 e 90 (ou seja, começaram a ser necessários mais profissionais).

Se nos anos 70 apenas 2,8% dos jornalistas eram mulheres, em 1988 já eram 19,8%, 40,7% em 2009 e, em 2016, 41,1%. À medida que estes valores eram apresentados, as expressões de descontentamento espalhavam-se pelas faces dos formandos. A professora referia-se ao seu trabalho no domínio da “investigação sociográfica que dava conta do processo de feminização das redações em Portugal” como “pequeno e pouco ambicioso” – na realidade, tornou-se numa referência em território nacional.

Foi possível concluir que existe uma segregação horizontal e vertical no jornalismo, que a presença em cargos de responsabilidade e direção prossegue pautada pela desigualdade e existe um processo de feminização “parcial e travado”. Mas Filipa Subtil não se deixa vencer pelos números e acredita que as mulheres conseguirão “fazer-se ouvir mais tarde ou mais cedo”.

 

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”

Sofia Branco, jornalista da Agência Lusa e presidente do Sindicato dos Jornalistas, revelou factos tudo menos agradáveis. Somente quatro por cento das peças jornalísticas desafiam os estereótipos de género e, para descontentamento geral, confessou conhecer casos de mulheres que trabalham nos media e assumem não ser feministas para não sofrerem represálias.

“Os homens desenvolveram a capacidade de falar sobre tudo e muitas vezes não sabem nada. As mulheres só falam sobre aquilo que sabem” – para Sofia Branco, este é um dos grandes problemas existentes na comunicação social e constitui o motivo forte pelo qual as mulheres não recebem mais convites para participar em programas televisivos ou em entrevistas, para dar os seus pareceres e opiniões, enquanto especialistas nas mais diversas áreas.

Quando as mulheres são sujeitos das notícias, são-no por serem mães, filhas, mulheres de x ou y, estudantes, domésticas, reformadas, vítimas, pertencerem aos serviços sociais, serem testemunhas oculares ou fazerem parte do mundo do espetáculo. Portanto, chega-se à conclusão de que se encara o género feminino como fonte de “senso comum e opinião popular”, sendo especialista em apenas 17% das notícias. Só 9% das notícias abordam a igualdade de género e 4% questionam-no.

“O homem é definido como ser humano e a mulher é definida como fêmea. Quando ela se comporta como um ser humano, é acusada de imitar o macho”

Da informação à publicidade, Jorge Veríssimo apresentou a comunicação “O corpo e as questões de género na publicidade”, baseada no texto “A Mulher na Publicidade e os Estereótipos de Género”, que escreveu em colaboração com Francisco Costa Pereira, ex-docente na ESCS. “A publicidade segue as tendências, não quer gerar a rutura e não muda a componente sociológica, isto é, torna-se conformista na reprodução de estereótipos” – o Presidente da ESCS captou a atenção da plateia, mas provocou a sua indignação.

Com exemplos práticos, desmistificou o monstro da publicidade. Em 2016, foram gastos cerca de 74,3 milhões de euros em publicidade na televisão. Anualmente, esse e os valores relativos aos outros meios de comunicação não são difundidos. A questão é que a publicidade pode ser benéfica, como os anúncios “Pequeno-almoço de Verdade” e “Primeiro Jantar” da cadeia de supermercados Pingo Doce, onde observamos uma família monoparental (com um pai e uma filha) e um marido que faz o jantar pela primeira vez para a mulher em quarenta anos de casamento (publicidade igualitária, pois a diferença sexual é não hierarquizada), respetivamente.

Por outro lado, influenciando o inconsciente humano e as atitudes, pode tornar-se discriminante e agressiva, como é o exemplo dos anúncios da marca AXE, onde habitualmente observamos que a mulher surge metamorfoseada de produto (submissa, discriminada, em posições animalescas, híper-sexualizada), tal como Jorge Veríssimo referiu “descontextualizada; não é o destinatário do produto nem da mensagem”.

Noutros casos, diferencia-se pela inversão dos estereótipos de género, como no mais recente anúncio da Planta, onde o homem aparece de tronco nu, numa posição de submissão perante a mulher.

Segundo Jorge Veríssimo, há um rumo a seguir: “há que contrariar a saturação publicitária e a redundância discursiva”.

 

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”

Sónia Soares, psicóloga e investigadora no Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA), estabeleceu a distinção entre femicídio (assassinato de mulheres por serem mulheres) e feminicídio (matar alguém por ser mulher mas mutilar todos os órgãos característicos do seu género).

O OMA realiza o seu estudo com base na análise de notícias e Sónia Alves Soares apontou algumas conclusões a que chegou com a sua equipa: existe a objetificação das mulheres (a mulher passiva da ação por oposição ao masculino como sujeito da ação) e a sexualização da mulher é um elemento permanente, pois lemos títulos como Taxista mata e lança fogo à amante.

As tentativas de explicação dos femicídios são habituais, como, por exemplo, identificar a depressão grave do homicida ou dizer que um agricultor que matou a mulher é louco. Os homens surgem como proprietários do direito à vida ou morte das mulheres, na medida em que os jornais chegam ao ridículo de afirmar que eles as matam porque estão em fase terminal e não as querem deixar sozinhas “a sofrer”.

Também ocorre a sobrevalorização do suicídio e o desvanecimento do homicídio, ou seja, fala-se brevemente do ataque à mulher e muito do suicídio do agressor. A valorização da orientação sexual é outro erro crasso cometido pelos media – para quê usar termos como “amante gay” e “crime gay” e, normalmente, evidenciar a palavra gay com uma cor garrida?

No seguimento do raciocínio de Simone de Beauvoir, no decorrer deste seminário foi notório que se “reprovava a mentira mas fugia-se cuidadosamente da verdade”, como se aceitar a desigualdade de género fosse algo demasiado duro e cruel. Mas a participação elevada, as intervenções pertinentes dos alunos, o interesse manifestado pelos docentes e o estudo frutífero dos preletores não deixou margem para dúvidas: o resultado desta equação será encontrado, pois “o presente não é um passado em potência, é o momento da escolha e da ação”.

Autor
Maria Moreira Rato

Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

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