“Os médicos portugueses têm capacidade para trabalhar em qualquer lugar do mundo”

Há quem diga que é sorte. Outros dizem que é obra de Deus, e outros ainda que é o Destino. Mas, mesmo que Deus ou a sorte tenham algum papel determinante na vida hospitalar, há sempre um herói principal que está por detrás das histórias: o médico. Este mês, a ESCS MAGAZINE conhece o lado de um destes heróis, neste caso, de uma heroína, uma médica: estivemos à conversa com Vanda Pratas Vital, de 43 anos, médica-cirurgiã no Hospital da Luz desde 2007, e especialista em cirurgia pediátrica com quase duas décadas de carreira profissional. Numa viagem à faculdade, à Alemanha ou ao futuro, eis a medicina portuguesa (e não só), sob a perspetiva de quem já salvou muitas vidas, com quase cinco mil cirurgias feitas.

ESCS MAGAZINE (EM): Na sua opinião, quais são os pilares da vida profissional de uma médica, neste caso cirurgiã?
Dra. Vanda Vital (VV): Fundamentalmente sermos honestos naquilo que fazemos; ter também um bocadinho de coragem para fazer o que fazemos; mas essencialmente, também do ponto de vista técnico, ser um bom profissional, ter desenvoltura cirúrgica para fazer aquilo que fazemos. Mas na relação médico-doente, e eu trabalho com crianças, portanto mais na relação com os pais, haver honestidade, haver verdade e esclarecimento. Acho que é fundamental nos dias que correm.

EM: Como surgiu a vontade de querer ser médica e cirurgiã?
VV
: A vontade de querer ser médica é um bocadinho comum a todos os médicos: é aquela vontade de fazer alguma coisa pelo outro, por quem sofre, por quem está doente. A vontade de querer ser cirurgiã tem muito a ver com a sensação de realização pessoal quando se faz alguma coisa com as próprias mãos, acho que tem um bocadinho a ver com isso. Quem tem essa necessidade, indo para uma especialidade médica, não se sente tão completo, tão compensado.

EM: A Doutora Vanda já foi operada. Esse acontecimento influenciou a sua decisão de querer seguir medicina?
VV
: Eu fui operada, mas já depois de ser médica. Aliás, a primeira vez que entrei num hospital foi já quando estava a tirar o curso na faculdade de medicina.

EM: Como correu a sua primeira cirurgia como cirurgiã?
VV
: Nós fazemos um treino antes, nas pequenas cirurgias, mesmo em coisas experimentais. Há um treino. Lembro-me perfeitamente do doente, lembro-me da situação – foi uma apendicite –, mas de facto senti que era uma coisa natural, porque já estava há imenso tempo a ajudar os outros a fazer as cirurgias e por isso foi para mim uma coisa natural e feita com entusiasmo. Não com aquele nervosismo de quem vai fazer uma coisa pela primeira vez, mas com entusiasmo de quem finalmente vai fazer aquilo pela primeira vez.

EM: Aquilo que vemos nas séries de televisão, como por exemplo os cirurgiões treinarem as operações em bonecos, é real e verdadeiro?
VV
: Sim. Em especial, porque estamos na era da laparoscopia(a). E muito do treino para cirurgias laparoscópicas é feito ou em animais ou em bonecos. Em bonecos mesmo ou às vezes em coisas simuladas num computador, também. Na cirurgia dita aberta (barriga aberta, por exemplo), o treino vem muito das ajudas que fazemos aos outros, mas também das pequenas cirurgias: uma ferida do couro cabeludo que suturamos, por exemplo. É assim que aprendemos a suturar, muitas vezes. Portanto são essas suturas de pequena cirurgia que nos dão muito treino ao início para começarmos a fazer cirurgias por via aberta. Em laparoscopia, como não há tanto esse treino, temos que ir buscar ao laboratório formas de treinar, em especial quando são cirurgias mais diferenciadas: há uma série de gestos que temos de treinar, e isso aprende-se no laboratório.

(a) Laparoscopia – procedimento cirúrgico minimamente invasivo realizado sob efeito de anestesia. É realizada com pequenos furos, o que diminui bastante o tempo de recuperação e as dores.

EM: Qual foi a cirurgia mais complicada que fez na sua carreira?

VV: As cirurgias mais complicadas podem ser complicadas por duas razões: ou porque em si, tecnicamente, são cirurgias mais difíceis – normalmente tem a ver com cirurgias de doentes que já foram operados, porque os tecidos não estão virgens e há um grau de dificuldade maior – ou porque o contexto é difícil: ou porque os doentes morrem, ou porque ficam com sequelas graves e nós temos a noção de que realmente os doentes não vão ficar bem… e essas, às vezes, é que são as cirurgias mais difíceis.

EM: Dada a dificuldade ou a sensibilidade de algumas cirurgias, custa-vos, às vezes, chegar a casa e despir a pele de médico?
VV
: A pele de médico nunca se despe. Os nossos doentes dormem muitas vezes connosco e ficam no nosso pensamento muitas vezes. Não só antes, como depois das cirurgias, obviamente.

EM: Há um par de meses tornou-se viral na Internet uma carta aberta ao Presidente da República de uma jovem que não conseguiu entrar em medicina por algumas décimas, deixando várias críticas ao atual sistema de entrada nos cursos de medicina no Ensino Superior. Qual é a sua opinião sobre este método de entrada?

VV: Em relação ao sistema de entrada na faculdade, é óbvio que não é o mais correto. É difícil às vezes perceber qual é o sistema correto, porque as pessoas, se entram em medicina, deveriam entrar fundamentalmente porque têm vontade de serem médicos, porque querem ajudar os outros e tratar dos doentes e isso não devia estar só dependente de uma nota. E o que acontece, e que já acontece desde o meu tempo, porque quando entrei já a entrada para a faculdade de medicina era com notas de 18, 19, é que essa não é a forma mais correta de se avaliar. Porque às vezes há pessoas que têm os tais 19 que são precisos, mas não têm qualquer aptidão para serem médicos. E depois há pessoas que nós temos a noção de que iriam dar ótimos médicos e que não entram porque não chegaram ao 19 vírgula qualquer coisa. Portanto essa não será, seguramente, a forma mais correta de se fazer a entrada.

EM: A Dra. Vanda já trabalhou em países estrangeiros, como a França ou a Alemanha. Que diferenças existem entre os métodos que usam lá e os que usam no nosso país?
VV
: Em relação particularmente aos alemães, são sistemas muito organizados: os cirurgiões de lá só se preocupam com a cirurgia. Nós aqui somos inundados com coisas burocráticas – relatórios, escrever tudo no computador –, nós aqui temos uma parte burocrática muito mais pesada. Eles não têm essa parte, é um sistema muito mais organizado. De qualquer das maneiras, acho que nós somos muito bons em termos de improviso. Quando há materiais que nos faltam à última hora porque não chegaram a tempo ou porque afinal não vão dar, temos sempre aquela capacidade de dizer “mas temos outros, podemos improvisar”. Os alemães são incapazes de fazer isso. Ou têm o cateter correto, o fio de sutura exato ou então a cirurgia não é feita, é cancelada, porque aquilo tem que ir tudo segundo o protocolo. Nós temos uma boa capacidade de adaptação, temos de facto boas faculdades de medicina, temos um bom treino, temos bons hospitais e acho que temos capacidade de trabalhar em qualquer lugar do mundo. Claro que sentimos que seria bom trabalhar num país superorganizado como a Alemanha, mas trabalhamos bem lá como trabalhamos igualmente bem se estivermos em África. Temos realmente essa capacidade de improviso.

EM: Pegando na Alemanha: os médicos e os profissionais alemães são mais “frios” comparados com os nossos?
VV
: Acho que sim. As pessoas não são todas iguais, obviamente, e cá em Portugal não são todos calorosos e simpáticos, tal como na Alemanha não são todos frios e distantes. Mas de uma forma geral, sim, há essa diferença. As pessoas são mais distantes, mais frias. Tem a ver com uma questão de cultura e educação, são educados assim. Não é que não sejam também afáveis, mas não são tão emotivos, não falam tanto com os gestos, não abraçam tanto. Há essa diferença, de facto, em relação aos alemães.

EM: Os pacientes saem dos internamentos felizes, mas também devem sentir saudades do pessoal do hospital, dado o tempo que estiveram internados. Vocês, médicos, também têm esse confronto de sentimentos face aos pacientes e sentem saudades deles ou tentam distanciar-se e separar um pouco as coisas?
VV
: Não, acho que não tentamos separar e sentimos também todas essas coisas que vocês sentem. Mas para nós, o facto de o doente ter alta, no fundo, também é um triunfo. Em especial quando é um internamento prolongado. Quando aquele doente, que até é um bom doente, mas que por circunstâncias várias o internamento se foi prolongando, tem alta, não é só uma sensação de alívio, é também uma sensação de “finalmente”: “finalmente chegou o dia! O doente está bem e vai ter alta!”. E isso acaba por ser uma vitória e, portanto, de alguma forma, ficamos contentes com a alta. Não quer dizer que no dia a seguir não nos lembremos do paciente, claro que sim, claro que também sentimos saudades e também nos lembramos.

EM: Acha que essa relação de proximidade é saudável para um médico?
VV
: Quem não quer ter uma relação médico-doente não vai para medicina. Uma relação médico-doente não é o mesmo que ter uma relação entre um advogado e um cliente ou entre um vendedor de um carro e um comprador. É diferente. E a relação médico-doente é isso mesmo: há uma relação entre o doente e o seu médico, que só existe daquela forma com aquela pessoa e com aquele médico. É isso que se chama relação médico-doente. E não há como evitar, porque senão também não tem graça.

EM: A Web Summit esteve em Portugal em novembro e mostrou algumas inovações tecnológicas aplicadas à medicina. Sendo já médica há alguns anos, acha que a sua profissão tem mudado muito com estas inovações?
VV
: Sim, acho que sim, sem sombra de dúvidas. Na própria laparoscopia, na robótica… estou a falar do ponto de vista cirúrgico obviamente. Mas também nos próprios materiais para fazer as cirurgias se sente uma evolução. Se a medicina de hoje está completamente diferente da medicina de há dez anos atrás, que é tão pertinho, então seguramente estará muito mais diferente da de há vinte anos atrás.

EM: Acha que no futuro os médicos poderão ser substituídos pelas máquinas?
VV
: É assim, o robot não trabalha sozinho. A máquina é sempre uma mais valia para nós, nós não pensamos na máquina como o substituto do médico. Há coisas que são insubstituíveis (risos). Não tenho essa preocupação.

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