Previsões e hot takes um bocadinho tardias para o Giro d’Itália

A primeira semana do Giro está praticamente concluída. Como todos os fãs, quer casuais quer experts (por designação própria ou não), fazem as suas apostas em relação ao futuro vencedor. Na opinião deste humilde casual expert chico-esperto, apostas no final da primeira semana são meio batota. No entanto, há que entender que estas apostas requerem grande minúcia e reflexão. É bem mais importante para este estimadinho fã ser recompensado pela sua capacidade de previsão associada ao seu superior conhecimento ciclístico do que ter boas notas na escolinha.

Vencedor do Giro de 2018

Tom Dumoulin – O holandês confirmou na edição transata do Giro que é um verdadeiro peso-pesado do ciclismo na atualidade ao vencer a sua primeira “grande volta”, aliando a sua superioridade no contrarrelógio, que já era conhecida do público em geral (viria a tornar-se campeão do mundo da especialidade nos Mundiais da Noruega, no final do ano) a performances consistentes na alta montanha, incluíndo uma vitória no Monte Oropa. Apesar de ter sido a mais “fácil” das etapas de montanha, não deixa de ser uma vitória categórica. Mesmo que esta edição do Giro conte com mais um contrarrelógio de maior dimensão (menor do que o maior contrarrelógio do ano passado), acredito que o potente Dumoulin irá replicar a consistência do ano passado e levará a maglia rosa para a Cidade Eterna. O único senão nessa revalidação será o Monte Zoncolan: se Dumoulin sair do torturoso alto na liderança, não creio que perderá tempo suficiente para sucumbir na última semana e irá aumentar essa mesma liderança no contrarrelógio, dois dias depois do Zoncolan.

Top 5

Chris Froome – Sou um fã incondicional do estilo do britânico, apesar de reconhecer a legitimidade das críticas à sua superioridade, tanto a nível do doping como ao nível da equipa que o ajuda a alcançar tais resultados. Digo, também, que me irrita plenamente o facto de ouvir comentadores demonstrar surpresa quando Froome perde terreno numa subida, quando se sabe que é esse o estilo de corrida dele, independentemente de perder algum tempo ou não.

No entanto, não creio que vença o Giro. Não quero prever um “declínio” fruto da idade “avançada” de Froome, que completa 33 anos no dia da chegada a Sappada, depois do Zoncolan e antes do contrarrelógio. Outros dois senhores de 33 anos e de feitos estratosféricos, Cristiano Ronaldo e Lebron James, provaram que os rumores de que estavam a ficar velhos e caquéticos foram severamente exagerados (props ao mano Twain). Mesmo assim, creio que o britânico não vai ser capaz de ultrapassar o poderio de Tom Dumoulin, seu semelhante em estilo e capacidades, sendo Tom mais forte no contrarrelógio e Chris mais forte a subir. Vejo Froome a fazer pódio, muito provavelmente segundo, mas isso também depende da prestação de outro colosso.

Fabio Aru – O sardo vem de algumas temporadas discretas em termos de resultados em comparação à de 2015, quando venceu a Vuelta. Apesar de fortes prestações nas primeiras duas semanas de grandes voltas, tanto no Tour como no Giro, o antigo ciclista da Astana e agora companheiro de equipa de Rui Costa na Emirates (que apesar do nome tem a antiga estrutura da Lampre, com muitos italianos nas fileiras) tem fraquejado sempre na última semana, como aconteceu no ano passado no Tour. Na Vuelta não deu para reparar muito, visto que já vinha fraco, não beneficiando da liderança conjunta com Miguel Ángel López, uma das agradáveis surpresas dessa edição ao exibir-se de forma soberba na última semana.

Portanto, há que ter em conta que um Fabio Aru no pleno da sua forma durante as três semanas é rapazola para dar muita luta. O seu poderio na montanha, combinado com a sua audácia e agressividade, sobretudo a descer, faz com que seja um fortíssimo candidato à vitória. Por isso, vejo Aru a finalizar no pódio, resta saber em que lugar. Aposto num terceiro lugar.

Thibaut Pinot – O francês da Française des Jeux (agora patrocinadora secundária, em favorecimento da Groupama) vem de uma vitória na Volta aos Alpes, competição de aquecimento para o Giro. Uma vitória vale aquilo que vale: é sempre uma vitória. No entanto, Tom Dumoulin não corre desde o Paris-Nice, tal como fez no ano passado. A verdade é que o gaulês tem tido várias temporadas recheadas de dissabores, desde quedas em alturas inoportunas, a quebras repentinas de forma, a simples falta de sorte. Tal como Aru, a sua imponência na alta montanha é inquestionável, mas ao contrário do sardo, por vezes, falta-lhe alguma audácia, sobretudo a descer, onde nunca foi grande espingarda. Independentemente do seu nível de forma, não o vejo a finalizar no pódio: creio que irá repetir a quarta posição do ano passado. No entanto, também devido ao percurso da prova, é garantido espetáculo por parte de Pinot na montanha.

 

Miguel Ángel López – O colombiano foi a surpresa mais agradável da Vuelta do ano passado. A sua primeira metade de prova foi bastante discreta, mas na segunda metade a sua superioridade na montanha foi de tal forma notória ao ponto de, se por acaso a prova tivesse mais uma semana, se calhar viamos López no pódio. Essa prestação valeu-lhe uma subida de estatuto na Astana, algo que poderá ter influenciado a saída de Fabio Aru, que era, no papel, o líder da equipa na Vuelta do ano passado.

Por isso, vejo López como o wildcard desta edição. À partida, não será ciclista para ficar no pódio. No entanto, caso os outros quatro falhem ou caso se apresente num nível acima do esperado, seria insensato descartá-lo de uma vitória, muito menos de um pódio. O único entrave a essa possibilidade, em ceteris paribus, seria a sua fraqueza no contrarrelógio. Mas na montanha, os genes de altitude certamente serão úteis, e o colombiano deverá causar estragos e recuperar tempo perdido.

 

Top 10 (Menções honrosas)

Simon Yates – Há quem possa dizer que é o gémeo mais fraco, mas a verdade é que Simon não perde muito em relação a Adam. No ano em que o irmão conseguiu um soberbo quarto lugar no Tour, Simon foi sexto na Vuelta. Adam foi nono aqui no ano passado, e Simon foi sétimo no Tour. Ambos ciclistas explosivos e versáteis, Simon partilhará a liderança com Johan Esteban Cháves, como já tem feito em outras grandes voltas ao serviço da Mitchelton (antiga Orica), com moderado sucesso. Um top 5/7 não estará descartado, e é certamente candidato a levar uma vitória de etapa.

 

Esteban Cháves – Depois de um fantástico segundo lugar em 2016, o colombiano não conseguiu replicar a performance nem no Tour nem na Vuelta, e teve uma temporada deveras discreta, sofrendo também algumas quedas. No entanto, com a ajuda do gémeo Yates, poderá ter a vida um pouco facilitada. De qualquer maneira, é quase garantido que Cháves se mostrará a bom nível na montanha, nem que seja para um top 7, ou mesmo para uma vitória em alto.

 

Michael Woods – O canadiano vem de um motivador segundo lugar na Liège-Bastogne-Liège, que não é só um monumento do ciclismo, como também é das mais duras corridas do calendário, apesar de ser de um dia. No entanto, o canadiano vem de um ano em que correu o Giro e a Vuelta, acabando esta última no sétimo lugar. Não é nenhum colosso das grandes voltas, mas a sua explosão e consistência na montanha poderão ser suficientes para um lugar no top 10 ou para uma vitória em etapa, sobretudo naquelas à lá Ardenas.

 

Domenico Pozzovivo – Já lá vão as performances explosivas do “Professor” ao serviço da Colnago, no início da década, mas, independentemente da idade, Pozzo já provou que ainda consegue amealhar top 10 numa grande volta, mesmo com um estilo pouco espetacular. O físico diminutivo aliado à sua experiência serão os trunfos do italiano, natural da região de Basilicata, no extremo sul da península Itálica. Quem sabe, com um pouco de sorte, se não faz top 5…

 

Tim Wellens – Por esta altura, o atrevido flamengo já venceu uma etapa, e não há nada que vá contra outra. Para além disso, poderá ser esta a edição na qual Wellens demonstra que tem capacidade para finalizar no top 10 de uma grande volta, ao jeito do seu compatriota Thomas de Gendt, que fez terceiro em 2013 após uma fuga que culminou no Stelvio. Se não se concretizar essa possibilidade, podemos sempre contar com animação de Tim nas fugas.

 

Louis Meintjes – O sul-africano é dos ciclistas mais consistentes do pelotão na alta montanha, mesmo que as vitórias não cheguem. A sua maior vitória foi na Semana Coppi e Bartali, em 2015. Para além disso, o antigo companheiro de Rui Costa na Lampre e Emirates, agora ao serviço da Dimension Data, tem dois oitavos lugares no Tour. Meintjes demora a calibrar a forma, mas deveremos vê-lo a finalizar entre o top 10/15 na alta montanha.

 

Davide Formolo – Tal como Meintjes, Formolo não ganha muitos pontos em termos de espetacularidade, apesar de já ter uma vitória no Giro no currículo, mas é igualmente consistente na alta montanha, e, se for necessário, tem uma pontinha de dinamite pronta para safar, sempre que se encontrar em dificuldades. Para além disso, fez décimo no ano passado: certamente conseguirá replicar tal feito ou chegar perto desse lugar.

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