Salvador Sobral: houve tudo menos desculpas a pedir ao CCB

O vencedor do Festival Eurovisão da Canção 2017 subiu ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém pouco depois das 21h para apresentar o seu álbum Excuse Me. “Excuse me, if I’m not like them” – afirma o artista na canção homónima – na verdade, não teve nem tem de pedir desculpa por não ser como os outros e prova disso foi o ambiente de paixão e respeito pela música que se viveu no concerto.

“Desliguem os vossos bichinhos eletrónicos”, pediu Salvador, e o público obedeceu. Com o seu penteado característico e uma indumentária simples, apresentou a banda que o acompanha – aliás, os “amigos de sempre”, como os denomina: Júlio Resende ao piano, Bruno Pedroso na bateria e André Rosinha no contrabaixo.

As únicas luzes existentes eram as que iluminavam o palco. Os presentes abanaram a cabeça ao som de Nem Eu, gritando que nem eles nem Salvador fazem favor nenhum em gostar de alguém. De seguida, entraram definitivamente num modo sentimental com Ready To Love Again e, surpreendentemente, o jovem cantor parece ter sempre uma epifania ao entoar After You’ve Gone: talvez não tenha a noção de que o público o aplaude tal como aplaudiria Nina Simone, mas salta energicamente e vive cada momento enquanto saboreia as palavras: “Some day when you’ll grow lonely / Your heart will break like mine / And you will feel lonely / After you’ve gone / After you’ve gone away”.

André Carrilho – Observador

Como maiores influências aponta Chet Baker, Caetano Veloso e a irmã, Luísa Sobral. De facto, o estudante de Psicologia que abandonou os estudos para se dedicar à música revela ter nascido para integrar na sua carreira os géneros soul, jazz, pop e bossa nova. Mas Salvador não se esgota nessas definições e realçou variadas vezes: “Quero cada vez mais apostar no improviso”.

“Vou contar-vos uma história… Aliás, vocês já a devem conhecer, mas o que acontece é que a minha irmã me telefonou e disse que tinha escrito uma letra e, quando a li, não pude recusar cantar esta música. Para além disso, precisava do dinheiro na altura” – rematou em tom jocoso, acabando por se emocionar ao falar do talento da irmã. Em Amar Pelos Dois, dividiu o público em dois setores e pediu que entoassem em tempos distintos: “Eu sei que não se ama sozinho, talvez devagarinho, possas voltar a aprender”. O Grande Auditório tornou-se ainda maior com tamanho sentimento. Apesar de Salvador ter confessado: “Esta nem é a letra mais bonita que a minha mana escreveu”, ninguém se preocupou com o seu comentário, porque estava ali a ser ouvida a canção que reuniu mais pontos em Kiev e também em toda a história da Eurovisão.

Após ter ficado absolutamente assoberbado com a colaboração da plateia, Salvador entrou noutra dimensão e transportou-nos para o mundo de Fernando Pessoa, o que não deixou de ser totalmente curioso: o poeta modernista escreveu o slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” para a Coca-Cola, mas poderia tê-lo feito para Salvador Sobral.

Com a transformação do poema Presságio numa faixa do seu novo álbum, Salvador gesticulou especialmente nos termos “cala”, “sente”, “inteiramente” e “falar”, mas talvez a quadra mais significativa seja “Ah, mas se ela adivinhasse / Se pudesse ouvir o olhar / E se um olhar lhe bastasse / P’ra saber que a estão a amar!” porque se adequa perfeitamente àquilo que aconteceu na capital: com milhares de olhares, Salvador foi amado no CCB.

Continuando numa onda de expressão de conteúdo para além “do fogo de artifício”, brindou os presentes com a apresentação da sua personagem, Benjamin Cymbra: “Poderia sentar-me um dia, com cada um de vós, a explicar-vos o nascimento, a construção deste heterónimo. Mas o que têm de saber é que nasceu na África do Sul e estava no corpo de uma menina, mas não se sentia uma menina. Sentiu que tinha de se libertar e seguir a sua verdadeira personalidade. Então foi para os Estados Unidos e lá conseguiu fazer a operação, que ainda estava em fases experimentais, porque vivia no século XIX. Foi a primeira operação transexual”, esclareceu e pediu a todos e todas que explorassem o novo projeto em que participa, a banda Alexander Search (heterónimo criado por Fernando Pessoa em 1899).

André Carrilho – Observador

Transmitiu com toda a emoção o que acontece quando o corpo não se encontra em consonância com o coração, homenageou o compositor brasileiro Lupicínio Rodrigues, dando-lhe voz através de Ela Disse-me Assim. Quase 1500 pessoas já tinham ido ao rubro com o repertório que o artista havia apresentado, mas quando terminou a noite com A Case Of You, de Joni Mitchell, entendeu-se que tal como a cantora norte-americana, também Salvador é multifacetado e viaja por todas as sonoridades com um surpreendente à vontade.

Autor
Maria Moreira Rato

Se virem uma rapariga com o cabelo despenteado, fones nos ouvidos e um livro nas mãos, essa pessoa é a Maria. Normalmente, podem encontrá-la na redação, entusiasmada com as suas mais recentes descobertas “AVIDeanas”, a requisitar gravadores, tripés, câmaras, microfones e o diabo a sete no armazém ou a escrever um post para o seu blogue, o “Estranha Forma de Ser Jornalista”… Ah, e vai às aulas (tem de ser)! Descobriu que o jornalismo é sua minha paixão quando, aos quatro anos, acompanhou a transmissão do 11 de setembro e pensou: “Quero falar sobre as coisas que acontecem!”. A sua visão pueril transformou-se no desejo de se tornar jornalista de investigação. Outras coisas que devem saber sobre ela: fica stressada se se esquecer da agenda em casa, enlouquece quando vai a concertos e escreve sempre demasiado, excedendo o limite de caracteres ou páginas pedidos nos trabalhos das unidades curriculares. Na gala do 5º aniversário da ESCS MAGAZINE, revista que já considera ser a sua pequena bebé, ganhou o prémio “A Que Vai a Todas” e, se calhar, isso justifica-se, porque a noite nunca deixa de ser uma criança e há sempre tempo para fazer uma reportagem aqui e uma entrevista acolá…!

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