“Salve-se quem puder”

14 de setembro de 2017, 9h10 da manhã, estação Quinta das Conchas, linha Amarela. Avanço as cancelas do metro e chego à plataforma que está cheia. Penso: “bem, espero arranjar um lugar sentada visto que esta é uma das primeiras estações da linha”. O metro chegou. Qual lugar sentada qual quê. Fui brutalmente empurrada como uma sardinha em lata e lá fui eu, durante 3 longas paragens numa carruagem atulhada de pessoas espalmadas umas contra as outras, como se de mercadoria da pior espécie se tratasse.

Dentro do metro quero-me mexer e é impossível, quero ver as horas no telemóvel e também não consigo, para respirar tenho de me colocar de bicos de pés, e num dia de azar, tenho a genitália de um senhor que de nada tem culpa a roçar no meu corpo.

14 de dezembro de 2017, 9h10 da manha, estação Quinta das Conchas, linha Amarela. As eleições autárquicas já passaram há quase dois meses. “Boa, hoje não existem perturbações nem nesta linha nem em nenhuma!” penso eu enquanto leio os painéis do metro de Lisboa. Dirijo-me para a plataforma e está cheia de gente, como é habitual. Desta vez, a ingenuidade do começo da minha vida em Lisboa já não se abate sobre mim e só quero entrar no metro de forma a seguir para as últimas avaliações do ano. O metro vem para lá de apinhado, o normal. Consigo entrar entre empurrões, mas o Manel, o Francisco, a Maria e tantos outros não tiveram a mesma sorte (ou devo dizer azar?) de entrar naquela carruagem e ficaram em terra, à espera do próximo metro atolado, correndo o risco de chegar atrasados aos seus compromissos. Todos os dias este cenário se repete às horas de ponta em todas as estações do metro de Lisboa.

Há falta de composições, dizem que 20 estão estragadas. Há falta de maquinistas. Há falta de empatia e de compreensão pelos comuns mortais que utilizam este meio para conduzir as suas vidas. Há, acima de tudo, falta de vontade política para que esta situação se altere e melhore, ou não estejamos nós a falar de uma rede de metro gerida pelo Estado Português. A questão impera: onde estão todos aqueles políticos que na campanha das eleições autárquicas andaram de metro imensas vezes e em nenhuma delas o metro se apresentava nas condições que se apresenta aos utentes todos os dias? A segunda questão também é pertinente: como é que o serviço melhora brutalmente nos dias da “WebSummit”? Como é que de uma frequência de 10 minutos nas horas de ponta na linha amarela se passa para uma frequência de 3 minutos? Literalmente é para inglês ver. Lembro-me bem de quando, em campanha, a Assunção Cristas, líder do CDS anunciou que no seu plano estava a inserção de mais de 20 paragens novas, a minha pergunta é: para quê? Resolvam-se primeiro os graves problemas de insuficiência da rede que já existe e, só depois disso, é que se deve pensar no aumento da cobertura da rede que é manifestamente insuficiente. Existem zonas na cidade que já deveriam ter metro, é um facto, mas concentremo-nos primeiro em resolver os problemas que afetam a circulação da rede real.

Há quem compare Lisboa com o Japão e eu recuso-me a essa demagogia. Recuso-me à ideia que de nos devamos calar porque “há quem esteja pior que nós”. Claro que há. Mas não é por isso que vou deixar de lutar e de reivindicar os meus/nossos direitos a um transporte digno e seguro. Lisboa, os lisboetas e os que adotaram esta cidade como segunda casa merecem melhor. Merecem mais que um “salve-se quem puder” e mais do que a semelhança a um conjunto de animais a ir para uma matança.

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