Sob o Espectro da Coragem

É o filme político de Ken loach que merece ser visto e revisto, não fosse Cannes vergar-se à sua irresistível beleza. A sombra do Brexit paira no meio da névoa do sentimento humano.

 

  Eu, Daniel Blake, um acontecimento cinematográfico da maior leveza e frescura de 2016, anda por aí a passar na televisão portuguesa (ver canais tvcine) meio despercebido, sem a atenção necessária que a sua história merece. Ken Loach, que assina a realização do filme, é conhecido pelo forte teor político que emprega aos seus filmes; sendo ele herdeiro de uma escola ativista e assumidamente de esquerda no Reino Unido; Loach é abertamente marxista e nunca escondeu a sua visão política nem fugiu dela. Vemos isso nos telefilmes que assinou para a BBC nos anos de 1960, onde caracterizava a vida operária na Grã-Bretanha; recuperamos toda essa herança agora com “Eu, Daniel Blake”. Tal como Loach diz, “é impossível falar de vidas sem falar em política”.

 

  Resumindo rapidamente a trama:  Daniel Blake, magnificamente interpretado por Dave Johns, é diagnosticado com um problema de coração e obtém uma indicação médica para deixar de trabalhar. Mas, quando Blake tenta receber apoio do Estado para que lhe conceda uma maneira de subsistência, depara-se com vários obstáculos que lhe dificultam a garantia de qualquer apoio; apesar do esforço em encontrar um modo de provar a sua incapacidade. Daniel acaba por conhecer Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças a precisar de ajuda, acabada de se mudar para Newcastle (Inglaterra). Daniel e Katie, veem-se assim obrigados a aceitar ajuda do banco alimentar. Envoltos em dificuldades, os dois formam uma amizade comovente.

É nesta relação improvável que o filme se constrói, sempre acompanhado de uma realidade crua e tocante, fruto de um mágico dinamismo; o mundo é assim e não interessa escondê-lo do espetador. Vemos a deterioração física de Blake; acompanhamos o fantasma em que ele se torna para um sistema social britânico triturador dos mais fracos; é tudo fidedigno; é tudo tão real e cruel na saga de Blake que lhe dá uma beleza invulgar e tocante. Como Loach diz: “No fundo sempre tentei capturar a verdade do momento”. A importância de capturar o momento e deixá-lo fluir, sem pressa ou sem “Planos prometidos”, no fundo, como Loach sempre viu o cinema. Daniel Blake é o reflexo da sua visão do cinema: a de um lutador a rumar contra a corrente.

 

Ken Loach, Fonte: Metropolis

 

É um filme a falar sobre e para o Brexit. Rodado antes do referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, Eu, Daniel Blake fala sobre as dificuldades de um país que ignora os seus pobres.  Nós (o espetador) sabemos bem ao que vamos; se o filme abordasse apenas o lado político já seria um grande statement, mas Loach transporta-nos para uma dimensão sentimental; e é aí que faz a diferença, porque uma coisa não se separa da outra e ver isso num ecrã é poderoso, é atual; será sempre atual. No fim, o cinema é o poder de contar uma estória.

 

Corrigido por: Beatriz Pardal

Autor
Luís Carvalho

O Luís tem 24 anos e vem de Sintra. Descreve-se acima de tudo como um curioso, uma das principais características de um jornalista, com o sonho de um dia viajar pelo mundo e relatar essa experiência. É um apaixonado por cinema, aliás obcecado pela sétima arte, e política internacional. Orgulha-se de poder dizer os vencedores de todos os campeonatos do mundo de futebol, outra das suas paixões.

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