“Sou parte de uma geração privilegiada no jornalismo”

Autor de entrevistas de referência, Carlos Vaz Marques, desta vez, falou sobre si: em pequeno não tinha livros em casa e, ainda recém-licenciado, foi “especialista em livros TSF”. Hoje, tem uma gratidão geral pela vida. Fomos conhecer o homem brilhante que tantas vezes fica na sombra.

Ao longo de quase uma hora, conversámos com uma profunda simplicidade – daquelas que deixam significados a germinar durante os dias seguintes. Encontrámo-nos na Mexicana, um café clássico da Praça de Londres, em Lisboa. Carlos Vaz Marques apresentou-se com uma simpatia muito familiar e contou as suas histórias enquanto lanchámos. O jornalista, formado em Línguas e Literaturas Modernas, entrega o mérito do seu percurso profissional a um encontro entre o acaso e o empenho. O homem das letras que não tinha livros em casa encantou-se pelos jornais, esse grande romance com capítulos novos todos os dias. Entrámos com sol e saímos com chuva, a contrastar com o crescente entusiasmo da conversa que aqueceu a nossa tarde.

Carlos Vaz Marques é jornalista, escritor…

Escritor não diria. Não visto esse fato.

Editor, tradutor…

Certo. Jornalista, editor e tradutor.

O que mais é Carlos Vaz Marques?

Sou um cidadão português, com mais de 50 anos, que está atento ao mundo que o rodeia. Daí ser jornalista. Sou do Benfica (risos), pai de um filho. E que mais? Nós somos muitas coisas consoante o contexto em que estamos, não é? Há uma frase de que gosto muito do poeta americano Walt Whitman: “I am large, I contend multitudes”. Às vezes sinto isto também. Todos contemos multidões, porque, consoante as situações em que estamos, temos papéis diferentes.

Das “multitudes” que uma pessoa pode conter, o que é que queria ser quando era pequenino?

A primeira coisa foi pica-bilhetes de elétricos. Mas o que mais consistentemente quis ser desde cedo foi escritor. E o gosto pelas palavras evoluiu para aquilo que faço hoje: jornalismo e edição.

Teve referências que o foram marcando ao longo dos tempos?

Sim. Tive a dos escritores que fui lendo em pequenino e que se foram sucedendo. A cada semana ou a cada mês havia uma referência nova e um entusiasmo novo. A minha casa não tinha muitos livros. Não tinha muitos livros, não: não havia livros!

Por algum motivo em particular?

Não havia um interesse especial pela literatura. Esse gosto foi-me incutido por me terem dado alguns livros, quando era muito pequeno. Descobri que a leitura era uma forma de conhecer coisas que não estavam ao meu alcance. Por outro lado, era uma forma de evasão. Eu não era muito sociável, portanto, passava bastante tempo a ler. Lia tudo o que me aparecia à frente.

Como é que passa desse encanto pelos livros para aquilo que faz hoje em dia?

Esse interesse pela leitura levou-me, a certa altura, a descobrir os jornais. Os jornais renovam a narrativa do mundo todos os dias. E comecei a lê-los como quem lê um romance, no sentido em que é uma história que todos os dias tem novos capítulos. No fundo, um grande folhetim. E os jornais levaram-me a esse interesse pelo jornalismo.

E daí para onde foi?

Fui estudar Línguas e Literaturas Modernas, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade Nova de Lisboa. Não tirei nenhuma licenciatura em Comunicação Social.

Como foi, então, o seu percurso no meio jornalístico?

Foi o percurso mais ou menos normal na minha geração. Comecei na Rádio Universidade Tejo, a RUT. Depois, surgiu a hipótese de escrever umas reportagens para o Jornal de Letras (JL). A certa altura, convidaram-me a ficar lá. Do JL passei para o semanário O Jornal. Acabou por acontecer com uma certa naturalidade, em que o acaso tem também um papel importante. Uma professora minha, na faculdade, era casada com um colaborador do JL. Eu conheci-o por intermédio dela. Se isso não tivesse acontecido, ele não me teria desafiado para escrever uns textos. Eu não teria sido convidado a integrar o JL e por aí fora. É um percurso.

Mas não há uma receita para um percurso.

Não. Agora as coisas são muito diferentes. Hoje, é mais difícil chegar à comunicação social por essa via. Sou parte de uma geração privilegiada no jornalismo. Sou contemporâneo do boom na imprensa portuguesa com a criação de novos títulos, de novas rádios – a TSF foi uma delas.

No trabalho de Carlos Vaz Marques parece que há um padrão: um programa de rádio que aproxima o leitor em três minutos de um livro; um programa na televisão que ajuda a desconstruir a atualidade política com humor. Tem uma missão por trás de tudo isto?

Não. É uma personalidade. Tenho um certo número de interesses e de características pessoais e, felizmente, foi-me dada a oportunidade de conjugá-los. Comecei no interesse pela literatura, depois fiz jornalismo do dia a dia, e agora estou outra vez com uma rubrica de livros. Há uma espécie de círculo que se está a fechar.

Conte-nos um pouco mais sobre isso.

Na TSF, comecei por fazer uma rubrica de livros, algo muito parecido com o que faço agora. Na TSF, no fim de cada noticiário, havia sempre uma sugestão de um livro ou de um disco. E havia várias pessoas para essa função, cada uma da sua área. Depois de um período em que quem fazia isso era Abel Barros Baptista, um distintíssimo ensaísta, meu professor na FCSH, desafiaram-me para aquele papel. Na altura, achei mais ou menos assustador. (risos)

Porquê assustador?

Aquilo tinha um nome muito pomposo: O Especialista em Livros TSF. Eu era um jornalista recém-formado e foi uma coisa com algum peso. Mas também agarrei com interesse e ânimo. A certa altura, o Emídio Rangel viu que eu tinha entusiasmo e convidou-me para a redação. Assim transitei do jornalismo escrito para a TSF. E agora está-se a fechar um círculo, estou a voltar aos livros na rádio.

E o padrão afinal qual é?

Acho que, grosso modo, são os livros e as artes em geral. Mas claro que também tenho muito interesse pela atualidade tout court: a atualidade política e social. O Governo Sombra participa um bocadinho desse interesse pela atualidade.

A revista Granta acaba por ajudar também a desenhar este círculo. Como começou o interesse pela Granta?

Fui leitor da Granta e era assinante, no final dos anos 80. A certa altura, a Bárbara Bulhosa, responsável da Tinta da China, teve a ideia de fazer uma revista e lembro-me de dizer um pouco a brincar que era engraçado fazermos cá uma Granta. Mas não acreditava naquilo.

Mas o projeto acabou por se concretizar. Como aconteceu?

Fui ao Brasil e descobri que havia uma Granta brasileira. Vim de lá entusiasmado a dizer: “Era muito giro trazer para Portugal”. O projeto ficou em ‘banho-maria’. É daquelas ideias que não têm grandes consequências imediatas, a não ser falar-se nelas. A Bárbara depois foi ao Brasil e conheceu o editor da Granta inglesa da altura, John Freeman. Mostrou-lhe o catálogo da Tinta da China e ele achou que tinha tudo a ver com a revista. E assim se fez a Granta em Portugal.

O projeto está a resultar?

Está a correr bem. Muito melhor do que pensávamos. No início, lançámos uma campanha e, neste momento, temos um pouco mais de mil assinantes. A revista também tem vendido bem nas livrarias. Os últimos números estiveram no top da Bertrand ou da Fnac. Não é um bestseller, claro, mas as vendas têm sido suficientes para manter o projeto. Não vamos ficar ricos. (risos)

O seu papel como entrevistador assume destaque nos projetos em que está envolvido. Já recebeu prémios pelas suas entrevistas, nomeadamente pelo programa da TSF Pessoal… E transmissível. Como se prepara para as entrevistas?

Lendo. Há uma anedota de que gosto muito que é de uma situação atribuída ao Picasso. Um dia, uma senhora da alta sociedade francesa pediu ao Picasso que fizesse um retrato dela. Ao fim de meia hora, Picasso tinha terminado o retrato. A senhora perguntou: “Quanto é?” e ele pediu um valor exorbitante. A senhora exclamou: “Por meia hora de trabalho?”. Picasso respondeu-lhe: “Não, minha senhora, há 60 anos que me estou a preparar para fazer este retrato”.

Refere-se a uma preparação a longo prazo?

A moral da história é que há um trabalho de acompanhamento, de cultura, de interesse permanente que vai sendo feito ao longo do tempo. Não se pode ser só jornalista no momento em que se está a preparar uma matéria específica. Temos sempre uma bagagem que vamos renovando e atualizando. E, até a alzheimer chegar, vai sendo sempre cada vez maior.

Nas entrevistas, há perguntas que não se colocam? Por exemplo, Pedro Mexia agora é consultor cultural do Presidente da República. No Governo Sombra, há perguntas que ficam por fazer?

Não. Mas há aqui duas situações diferentes: uma é a de entrevista, outra é a de painel do Governo Sombra. São casos diferentes.

Em que sentido?

Em relação ao Pedro Mexia, ele disse-nos que tinha sido convidado e perguntou-nos o que achávamos. A única coisa que lhe disse foi: “Eu pergunto tudo da mesma forma que sempre perguntei e tu respondes, não respondes, foges à pergunta, fazes uma declaração de interesses… Fazes o que entenderes”. Temos um acordo perfeito nessa matéria.

E quanto à situação de entrevista?

Há perguntas que não se fazem, claro. Não acho lícito fazer perguntas sobre aspetos da vida privada aos meus entrevistados, a menos que sejam eles a trazer a questão para a conversa, porque as entrevistas que faço são de perfil. Já se eu entrevistasse responsáveis políticos acharia que tinha o direito de escrutínio. Em função do cargo exercido, há obrigações de transparência e de explicação que podem ser exigíveis. De qualquer maneira, não quer dizer que eu tenha o direito de escrutinar a vida pessoal.

Tem muito o papel de dar sentido às histórias, de fazer as outras pessoas brilhar. Para Carlos Vaz Marques, transparência significa diluir-se ou é também trazer para a situação um pouco de si?

Genericamente, na função de entrevistador, não tenciono ter protagonismo. Naquilo que faço, acho que não é o meu papel. Não quer dizer que a minha personalidade não esteja lá de alguma forma investida. Claro que está presente, não se dilui totalmente.

Todos os dias apresenta o Livro do Dia. Há um livro da vida?

Há vários. Esta é sempre daquelas perguntas em que tenho a sensação de que amanhã daria outra resposta. Tenho de pensar o que é que me apetece responder hoje. (risos) Um livro que foi muito importante numa altura decisiva na minha vida foi Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Li-o aos 18 ou 19 anos e, na altura, foi muito marcante. A primeira frase, aliás, é célebre na literatura portuguesa: “Se eu quisesse enlouquecia”. Os livros do Beckett foram muito importantes também a certa altura. E um livro de Thomas Bernhard, chamado O Náufrago.

De que maneira o marcou O Náufrago?

É um livro sobre a ideia do bom e do ótimo. Por vezes, diz-se que o bom é inimigo do ótimo, mas também é verdadeiro dizer que o ótimo é inimigo do bom. O livro é à volta desta ideia no mundo da arte e da figura de um pianista que alguns consideram o maior pianista do século XX: Glenn Gould. Dois colegas de Glenn Gould, quando o ouvem tocar um dia, percebem que era um génio e que eles nunca conseguiriam alcançar o nível dele. Um matou-se e o outro deixou o piano.

O ótimo foi inimigo do bom…

O ótimo foi inimigo do bom, porque a fasquia, quando é colocada demasiado alto, é paralisante. Neste caso, acabou por anular o próprio talento que eles tinham. Tão mau como não ter ambições é, em certas circunstâncias, colocar uma fasquia inalcançável à nossa frente.

Um dos livros que já sugeriu no programa da TSF foi Gratidão, de Oliver Sacks. A que é que Carlos Vaz Marques está grato?

Tenho uma gratidão geral. Gosto muito de uma canção antiga da Mercedes Sosa chamada Gracias a la Vida. No cômputo geral, tenho tido muita sorte e só posso estar satisfeito e agradecido por isso. De qualquer forma, tenho feito os possíveis por aproveitar a sorte que tenho tido. Tentar saber merecê-la.

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