Um adeus inglório

Parece-me que esta é uma má altura para se ser italiano (futebolisticamente falando).

Depois de o Il Capitano, Francesco Totti, ter pendurado as suas chuteiras, no final da temporada passada, e, mais recentemente, do Maestro, Andrea Pirlo, ter colocado um ponto final na sua carreira, a Itália vai falhar, pela primeira vez desde 1958, a participação na fase final da mais importante prova de futebol do mundo: a Copa do Mundo.

Apesar deste fenómeno quase inédito, não acredito que este seja o principal catalisador do choque causado. Não foi este facto que deixou quase todos os amantes deste desporto com uma lágrima no canto do olho. Mas sim, esta imagem. A imagem deste momento. Deste homem. O momento em que Gianluigi Buffon disputou o seu último jogo pela seleção nacional da Itália.

Não venho aqui discutir as táticas ou a semântica do jogo, até porque me parece uma análise simples de se fazer: a Itália lutou, dominou e criou diversas oportunidades, mas não teve a capacidade e o engenho para furar a barreira defensiva amarela da Suécia, que se entregou ao jogo desde o primeiro minuto, manteve a frieza, a calma e soube sofrer, o que, por ironia do destino, são características muito marcantes em qualquer equipa e, especialmente, na seleção italiana.

Venho aqui, então, prestar uma homenagem a uma lenda, que, com quase 40 anos, e apesar de todo a maturidade e experiência que possa já ter adquirido, tem tido um final de carreira demasiado agridoce. Injusto, a meu ver.

Gianluigi Buffon será, muito provavelmente, o primeiro a dizer que, no futebol, a justiça reina sempre e, depois de enxugar as lágrimas, a primeira coisa que fez foi atribuir o devido mérito e congratular a seleção nórdica pela qualificação. No entanto, ninguém se pode mostrar indiferente à disparidade de eventos que têm marcado o final de carreira do eterno guardião da Juventus.

Numa altura em que já conquistou o respeito de todo o mundo, Buffon andou à procura do único troféu que lhe faltava vencer com a Juventus: a Liga dos Campeões. E viu essa oportunidade desvanecer-se à sua frente quando, em 2015, a Juventus foi derrotada pelo Barcelona na final da Liga dos Campeões. Parecia o final do sonho, um sonho que nunca iria concretizar. Mas, sem nada o fazer prever, apenas dois anos depois, em 2017, a Juventus, depois de mais uma fantástica campanha, foi novamente à final da Liga dos Campeões, desta vez contra o Real Madrid. Mas o destino foi o mesmo. 4-1 para os merengues e o sonho voltou a cair por terra. E agora, ainda em 2017, depois de ter sido galardoado com o prémio de “Melhor Guarda Redes do Mundo”, a Itália falha o acesso à fase final do Campeonato do Mundo e Gigi Buffon perde a oportunidade de quebrar mais um recorde: o de participar em 6 mundiais consecutivos. Perde a oportunidade de se despedir da “Squadra Azzurra” ao mais alto nível, na competição mais prestigiada.

Chega assim ao fim uma das histórias mais bonitas que o futebol tem para contar. Um dos poucos exemplos, ainda bastante característicos em solo italiano, de lealdade, de liderança e de paixão. Era um adeus já anunciado. Mas foi um adeus antecipado, inesperado. Um adeus inglório. Foram 175 jogos de “Squadra Azzurra” ao peito, 175 exibições ao mais alto nível e 175 partidas de verdadeira alegria para qualquer adepto de futebol.

Porém, a história ainda não tem um final definitivo. Apesar de esta história ter recebido o seu ponto final, o eterno guarda-redes continua a defender os postes da hexacampeã italiana e, quem sabe, ainda tenha uma última oportunidade para conquistar o único troféu que lhe falta.

Quanto ao futuro das redes da seleção italiana… estão em boas mãos. Gianluigi Donnarumma já provou ter o talento para colmatar a enorme perda que a seleção sofreu. Por agora, resta-nos apenas agradecer o contributo de Gigi Buffon e desfrutar de todo o seu restante percurso futebolístico porque, e muito infelizmente, tudo o que é bom, tem de acabar um dia.

Obrigado, Buffon.

Autor
André Medina

Num universo tão vasto como o nosso, quantas são as pessoas que são açorianas (micaelenses), ouvem música todos os dias, não falham um jogo do Sporting, leem livros e veem wrestling? Algumas, reconheço. Mas a pessoa que está a redigir este pequeno texto introdutório chama-se André Medina, tem 20 anos e, há dois anos, embarcou na maior aventura da sua vida. Sair de casa nunca é fácil, e fazê-lo quando não se sabe cozinhar nem dobrar roupa é ainda mais complicado. Mas, muitas saladas de atum, pizzas do Pingo Doce e noodles depois, aqui estou eu: vivo e no último ano do curso de Jornalismo. E, em jeito de recompensa por ter sobrevivido a estes duros anos, tive o privilégio de poder ser o primeiro editor da secção de Deporto na MAGAZINE. Eu, uma pessoa que ainda não sabe dobrar uma t-shirt como deve ser. De qualquer forma, espero poder retribuir a confiança depositada em mim e quero que todos se sintam bem-vindos a esta escola e a este magnífico projeto, que é a nossa querida ESCS MAGAZINE.

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