Um manual de sobrevivência mental: entrevista com Emma Ruth Ruddle

“Queria que este disco fosse uma coisa do passado. Queria que todas essas emoções distorcidas desaparecessem”.

Para Emma, as gravações do seu mais recente álbum, Marked For Death são primordialmente sobre performance. O álbum exibe um retrato fortemente autobiográfico: a mais sincera representação da decadência de uma pessoa para o abismo de auto depreciação, que, no fim, resulta no abuso de substâncias psicotrópicas. O foco é ocasionalmente uma mistura de derrota, autodestruição, mas que termina em transformação, dando como encerrado o ano mais sombrio e desolador na vida de Emma.

Feito numa residência isolada idílica, a cerca de uma hora e meia de Los Angeles, a que muitos artistas chamam “A Quinta”, Marked For Death não só é o trabalho mais pessoal, obscuro e decadentista da carreira de Emma, como é o seu melhor – tendo em conta as indecisões da própria cantora: “honestamente, não fiquei muito orgulhosa do álbum quando o terminei. Não gostei mesmo dele. Estava numa fase muito negativa da minha vida, o que tornou o processo criativo bastante complicado. Eu sabia que queria fazer um trabalho que fosse emocionalmente desafiante, mas não sabia que tinha de me matar por dentro para chegar a este estado”, afirmou.

A aclamação do disco foi bastante pesada quando saiu em setembro de 2016. Os fãs notaram uma evolução sónica nas músicas, como também uma maior devoção por parte de Emma para com a sua audiência. Pouco depois do lançamento, a cantora embarcou numa tournée mundial que só dará por concluída em novembro deste ano. Com duas passagens por Portugal, a artista estreou-se no passado dia 21 de abril, no Sabotage Club, no Cais do Sodré. Horas antes, encontrei-me com Emma e falámos sobre o processo tétrico e quase traumatizante que levou a Marked For Death.

Quando cheguei, fui saudado pelo agente dela, que rapidamente me disse para aguardar pela chegada de Emma. Era hora de sound-check e a banda estava a afinar as cordas, a limpar os instrumentos, a fazer as últimas alterações ao alinhamento e, consequentemente, a beber cerveja portuguesa. 15 minutos depois, chega Emma e cumprimenta-me com um enorme sorriso e diz-me: “ainda bem que conseguiste vir”.

Ao sentarmo-nos, perguntei-lhe como é sobreviver ao estado em que se encontrava e como é que se cria algo bonito a partir de algo deprimente. O então sorriso continuou e sem hesitar respondeu-me: “apercebi-me de que durante o processo de criação deste disco, a minha vida teria de mudar. Eu estava a viver uma realidade em que me sentia dormente grande parte das vezes: estava a lidar com depressão clínica, a combater (pouco) o meu alcoolismo e a minha toxicodependência. Não me sentia como uma pessoa”.

O próprio grafismo do disco remete-nos para estes tempos umbrosos da cantora. Na capa, Emma está em cima de um piano despenteada, com olheiras, mal vestida e com a depilação por fazer: “durante muito tempo, essa era a minha imagem”. As próprias músicas aliam o ouvinte a esta realidade: o material é denso, claustrofóbico e vai buscar inspirações a um post-metal de Russian Circles e The Swans, mas sempre com uma textura folk que nos remete para Marissa Nadler.

“A música mais difícil de cantar inicialmente era a “Protection”, porque foi aí que tudo começou; foi aí que comecei a perder quem eu era”. A música fala sobre um vício por quem a faz mal, quem a destrói, mas a cuja posição submissa e vulnerável a cantora acaba sempre por voltar: “You are colder in your heart/ I am worthless in your arms/ But you offer this protection no one else has given me”. “Medusa” é outro tema que se destaca no álbum. Nesses cinco minutos e meio, a cantora, já com uma voz cansada e exasperada, fala para a figura da mitologia grega e queixa-se do facto de só ela  compreender a posição em que Emma se encontra.

Contudo, o álbum parece chegar a um ponto mais esperançoso na música final, “Real Big Sky”. Aqui, Emma acompanhada pelos riffs distorcidos da sua guitarra canta sobre a possibilidade de voltar a reencontrar quem outrora foi, de modo a encontrar paz interior: “I can’t wait to see you smile on the other side/ I can’t wait to kiss the face os the big sky/ Won’t ou stay here for a while with me, my child”.

Para Emma, cantar estas canções tem-se tornado cada vez mais fácil, pois as memórias ficam diluídas e abaladas pelo público: “as pessoas cantam todas as noites as minhas letras com outros significados: significados que, para elas, são completamente diferentes dos meus. Ajuda a colmatar a dor, sabes?”, disse-me. Ao longo da entrevista, Emma esteve sempre atenta ao posicionamento das colunas e à densidade dos holofotes que estavam a ser montados. O controlo sobre o espetáculo é fulcral, pois dá-lhe uma motivação para inovar em cada concerto.

Ao gravar este trabalho, Emma teve como premissa o grande deserto americano como ponto de inspiração e de refúgio: “A Quinta fica junto ao deserto californiano e senti a necessidade me dissolver nele. Lá estava sozinha, rodeada por completo nada; mal se viam habitações ou pessoas. Pensei que era o sítio ideal para expor esta minha catarse ao mundo”. Por esta altura, não há propriamente um momento de alívio ou de quietude quer na vida pessoal quer na vida profissional da cantora. A violenta beleza do deserto fez com que o processo do álbum ganhasse vida. Hoje, nem todos os demónios de Emma foram devidamente exorcistados, mas o processo de recuperação ainda não foi dado por concluído: “Não tinha noção do quão doente eu estava. Naquela altura, eu bebia imenso e drogava-me com alguma frequência. Não posso dizer que já ultrapassei isso por completo, mas posso dizer que estou a esforçar-me ao máximo para conseguir”.

E são estes retratos crus, atormentados por angústia e dor que fazem Marked for Death um extraordinário trabalho. É um disco capaz de apresentar um imenso senso de poder, mas também de demonstrar uma fragilidade nunca antes registada por Emma. Este poder recai nos versos brutalmente honestos, nada fracos, que estabelecem um clima pesado, mas sem remorsos. Ao parecer tão delicadamente sugestivo, não espanta que Emma esteja à procura de conjunturas musicais mais brilhantes e esteticamente apelativas: “Tive de recapitular todos os temas deste disco enquanto tocava as músicas. Para mim, a premissa deste trabalho é feia, é uma merda e preciso de me afastar dela. Queria que este disco fosse uma coisa do passado. Queria que todas essas emoções distorcidas desaparecessem. Quero focar-me em coisas melhores agora”.

Capa de “Marked For Death”

Posted in Música and tagged , , .

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *