Um Sporting quanto baste

Depois de sair derrotado no clássico do último fim de semana frente ao Futebol Clube do Porto, o Sporting Clube de Portugal ficou com uma desvantagem de 8 pontos em relação ao líder e, assim, é o primeiro concorrente ao título a pegar na calculadora e a fazer as primeiras contas à vida.

Depois de um início de época fortíssimo, os leões começaram a perder algum gás e o plano de Jorge Jesus está a começar a vacilar. No ano do “tudo ou nada”, o Sporting foi conciso e bastante eficaz nas contratações que realizou. Foi buscar muitos jogadores, mas todos eles tiveram um papel (e ainda o têm) essencial na dinâmica e no estilo de jogo da equipa do técnico português. Jogadores como Piccini, Mathieu, Fábio Coentrão, Rodrigo Battaglia, Bruno Fernandes e Marcos Acuna são novas caras que foram quase automaticamente inseridas no 11 inicial da equipa.

E o resultado disto foi uma primeira metade surpreendentemente positiva, talvez ainda melhor do que o expectado. O Sporting conseguiu terminar a primeira volta da época sem qualquer tipo de derrota, no que diz respeito às competições internas, e realizou exibições de altíssimo nível nas competições europeias, incluindo a goleada frente ao Steaua e a vitória em Atenas, sobre o campeão grego em título, o Olympiakos. Os comandos de Jorge Jesus chegaram até a ombrear com duas das equipas mais poderosas do futebol atual: o Barcelona e a Juventus, conseguindo mesmo arrancar um empate frente à hexacampeã italiana. E, obviamente, não se pode excluir o primeiro objetivo conquistado pelos pupilos de Jorge Jesus: a Taça da Liga. É a Taça da Liga, mas é um título. Vale o que vale.

Mas, algures na viragem do novo ano ou no início da 2ª volta, os problemas começaram a surgir: os amarelos e expulsões acumularam-se, as lesões assombraram e, mais do que tudo, a fadiga fez-se sentir. O Sporting sentiu muito as lesões de jogadores-chave na manobra ofensiva da equipa, como Gelson Martins, Podence e Bas Dost. Começou a perder intensidade e qualidade. O futebol praticado pela equipa de Alcochete tornou-se lento e previsível. Jorge Jesus optou por uma abordagem mais “italiana” à época, preparando uma equipa que jogava menos à bola, mas ganhava os jogos. Criou um Sporting quanto baste (q.b), que, embora não convencesse com as suas exibições, ia sobrevivendo aos jogos e somando os seus pontos.

Numa tentativa de responder às ausências e lacunas do plantel, o Sporting atirou-se ao mercado de inverno e, como resultado disso, cinco reforços integraram o plantel leonino. Mas, se no início da época a estratégia de contratações foi exímia, neste mercado de inverno foi o completo oposto.

Já se passaram dois meses desde o fecho do defeso e ainda nenhuma das contratações conseguiu impor-se na equipa. De todos os reforços, Montero é o mais utilizado. Mas o ponta de lança colombiano não é exatamente o mesmo que era quando saiu de Alvalade. Embora se note que tudo está lá: o toque, a qualidade técnica, quer no momento de receber a bola, quer no momento de a soltar para um colega. Mas tudo o resto ficou algures na China. Montero está mais lento. Não procura os espaços vazios como antes. Não faz as diagonais para as linhas em busca de receber as bolas nos espaços. Não remata de fora da área. Está, no geral, lento.

Rúben Ribeiro é possivelmente o segundo reforço (de inverno) mais utilizado por Jorge Jesus, mas a verdade é que o ala proveniente do Rio Ave, apesar de ter qualidade técnica e um drible rápido, não consegue causar o mesmo tipo de desequilíbrios ou mexer com o jogo da mesma forma que Gelson ou Podence conseguem.

Lumor foi contratado para fazer face à longa lesão de Jonathan Silva, mas Jorge Jesus prefere adaptar Bruno César a lateral esquerdo ou recuar Acuna a usar um jogador de raiz na posição. Misic e Wendel foram outras duas contratações realizadas no último mercado de transferências, sendo o segundo uma suposta grande promessa, que custou aos cofres do Sporting qualquer coisa como oito milhões de euros. Contudo, os nomes dos dois médios raramente surgem na lista dos convocados do técnico português, que prefere puxar Bryan Ruiz ou, mais uma vez, o pneu de socorro do Sporting, Bruno César, para a faixa central.

A crescente fadiga das principais peças do puzzle de Jorge Jesus, aliado ao facto de os novos reforços não se mostrarem capazes de colmatar os buracos deixados pelas lesões que naturalmente foram aparecendo explicam a decadência notória da qualidade de jogo dos leões e, quase consequentemente, os recentes maus resultados.

O Sporting da 2ª volta está a ser vítima do sucesso que o Sporting da 1ª volta conquistou. E o plantel leonino está a revelar-se insuficiente e incapaz de aguentar o ritmo que a época está a levar.

Contudo, não nos podemos afogar nesta onda pessimista, porque nem tudo é mau. Apesar da descida de rendimento, penso que o clube verde e branco está a viver uma das melhores épocas dos últimos anos. Se formos comparar com esta mesma altura, mas da época passada, o Sporting já estava fora de todas as competições, bem como praticamente afastado das contas do título.

Ainda com dois meses de época pela frente, há legitimidade para o Sporting sonhar. Já conquistou o primeiro troféu da época. Está na meia final da Taça de Portugal, embora em desvantagem relativamente ao Porto, e pode ambicionar à final do Jamor. Tem todas as condições para se apurar para os quartos de final da Liga Europa. E, no que toca ao campeonato, a recente derrota no Dragão foi um duro golpe, pois quem é conhecedor deste campeonato sabe que, apesar de ainda haver 27 pontos por disputar, uma desvantagem de 8 pontos é muito complicada de se recuperar, especialmente tendo em conta o exigente calendário do Sporting até ao final da temporada, com deslocações muito difíceis a Chaves, Braga e Vila do Conde, para não falar da receção ao eterno rival da 2ª Circular, o Benfica.

Resta apenas ver como irá Jorge Jesus gerir o plantel até ao final da época e, depois desta derrota, ver se as prioridades se alteraram ou irá continuar a jogar com as fichas todas no campeonato.

Autor
André Medina

Num universo tão vasto como o nosso, quantas são as pessoas que são açorianas (micaelenses), ouvem música todos os dias, não falham um jogo do Sporting, leem livros e veem wrestling? Algumas, reconheço. Mas a pessoa que está a redigir este pequeno texto introdutório chama-se André Medina, tem 20 anos e, há dois anos, embarcou na maior aventura da sua vida. Sair de casa nunca é fácil, e fazê-lo quando não se sabe cozinhar nem dobrar roupa é ainda mais complicado. Mas, muitas saladas de atum, pizzas do Pingo Doce e noodles depois, aqui estou eu: vivo e no último ano do curso de Jornalismo. E, em jeito de recompensa por ter sobrevivido a estes duros anos, tive o privilégio de poder ser o primeiro editor da secção de Deporto na MAGAZINE. Eu, uma pessoa que ainda não sabe dobrar uma t-shirt como deve ser. De qualquer forma, espero poder retribuir a confiança depositada em mim e quero que todos se sintam bem-vindos a esta escola e a este magnífico projeto, que é a nossa querida ESCS MAGAZINE.

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