Opinião

Viagem

…Senhoras e senhores passageiros, coloquem os cintos de segurança; o avião está prestes a descolar. Obrigado…

Não deixa de ser curioso o seguinte fenómeno: é quando se tira os pés do chão que se sente estar mais em terra… O barulho de fundo instala-se em mim com convite e o cérebro permite-se relaxar pela primeira vez desde há demasiado tempo. Venho falar-vos sobre viagens, claro está.

Sendo uma necessidade antropológica – não foi à toa que fomos nómadas –, o ser humano sempre se mostrou bastante predisposto à sua movimentação como forma de ser e não como forma de estar. Agora, infelizmente, já não é assim – imitámos as árvores e criámos raízes.

É pena, pois só em viagem a vida é o que deve ser, e não o que os outros querem que seja. Viajo de mim, em mim e para mim, na esperança inocente de conseguir fugir apenas o suficiente para ultrapassar o tempo e alcançar-me lá à frente, feliz e completo.

…Senhoras e senhores passageiros, iremos dentro de breves momentos iniciar a aterragem. Coloquem os cintos de segurança. Obrigado por escolherem a nossa companhia…

Não me encontrei, mas soube tão extraordinariamente bem procurar-me. Do telemóvel reiniciam-se os problemas, o perdão, a vida. A Teresa, que se chateou com o marido, e o Pedro, que foi despedido outra vez. Agarro-me ao cinto – talvez ele me impeça de sair, de enfrentar a monotonia do agora.

Percorro as mesmas escadas e a mesma porta, oiço a mesma campainha e o mesmo cão vem saudar-me a chegada. Recebo os mesmos beijos e os mesmos sons – já não os distingo; o que é som e o que é contacto, parece tudo tirado da mesma tela usada, tudo material incolor e bafiento do hábito. Procuro-me e encontro-me ali perdido, à espera de tomar novamente controlo, pobre e aborrecida alma.

…Senhoras e senhores passageiros, gostaríamos de informar que o avião está prestes a despenhar-se, obrigado…

A casa está silenciosa. Ou o silêncio decidiu encontrar-se todo em minha casa. Seja como for, sente-se o peso da ausência do som e eu estou tão agradecido por isso. Quase oiço os meus pensamentos ecoarem pelas paredes vazias, negras e rudes, à procura de significação exterior a elas – como todos nós.

Mas a casa já não existe, já não há paredes a restringirem-me o espaço e tetos a bloquearem-me o céu. A casa agora sou eu e já nada me impede de voar, e digo-o literalmente, ou escrevo-o, para ser mais preciso.

Já não preciso de viajar em mim ou de mim, eu sou a viagem ou a viagem sou eu. Deixei de tentar categorizar, ordenar ou qualquer palavra que remonte à pegada rotineira das ações, essa devoradora da criatividade e da arbitrariedade humana.
Estou enquanto tiver de estar e vou quando já não quiser voltar. O agora é tudo e nunca me senti tão feliz. Se é egoísta? Sem qualquer sombra de dúvidas. A própria existência também o é: dão-te para as mãos a tua vida e mais nenhuma – agora resolve-te. Assim o fiz.

Viajei, viajo e quero permanecer em viagem, até porque estou a corresponder às expectativas criadas – não se diz que a vida é um caminho? Então eu estou a percorrê-lo, só não escolho fazê-lo no mesmo lugar.

Em quantos países já estive? Só num, no meu. Viajo para mim, em mim e talvez um bocadinho de mim, e o resto é paisagem. E eu estou tão grato por isso.

Um viajante.

“O João Garrido escreve ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.”