Web Summit: A tecnologia aplicada à humanidade

A tarde do 3º dia da Web Summit, a maior conferência europeia de tecnologia e empreendedorismo, foi marcada por uma diversidade de temas como a inteligência artificial, a cibersegurança e o sexismo na tecnologia.

 

“The Future of Work: Enabling Human Connection – O futuro do trabalho: possibilitar a conexão humana”
O grande destaque neste painel foi o papel da Slack, que facilita a comunicação dentro da empresa, na mudança do paradigma das interações empresariais – a plataforma tem como alguns dos seus principais utilizadores, a Nasa e o Ebay.
Stewart Butterfield, o cofundador e CEO da plataforma, afirma que a Slack possibilita criar uma maior empatia e intimidade entre os funcionários de uma empresa através de tópicos informais, face a uma pergunta de Jemima Kiss, escritora e editora tecnológica do site Jemimakiss.com e ex-jornalista do The Guardian, que moderava a conversa.
Outro dos assuntos mencionados foi a hipótese dada aos mais introvertidos de participarem de forma mais ativa no diálogo intraempresa.

Figura 1 – Stewart Butterfield

 

“The future of Technology: Will everybody benefit? – O futuro da tecnologia: Irão todos beneficiar?”
No 2º painel da tarde, debateu-se sobre se todos beneficiarão dos progressos tecnológicos: a favor encontrava-se Pat Gelsinger, o CEO da VMware – empresa conhecida por permitir instalar e utilizar um sistema operativo através de uma máquina virtual; contra estava o fundador da MuleSoft (especializada na conexão de aplicações, dados e dispositivos através de um software), Ross Mason. O debate foi moderado por Jeremy Wilks, apresentador e produtor da Euronews.
Os argumentos a favor da ideia de que a tecnologia irá beneficiar a população mundial foram divididos em 4 “super-heróis”: o móvel; a cloud, a inteligência artificial e a internet das coisas (Internet of Things). Os problemas que eles conseguem combater, na visão de Gelsinger, são: a saúde, o meio ambiente, a pobreza e o extremismo.
De forma a sustentar o seu ponto de vista, afirmou que na saúde cada vez mais, através da tecnologia, é possível criar braços biónicos e até erradicar doenças como a malária; ao nível do meio ambiente, prevê-se que em 2050 carros autónomos com 0 emissões de gases vão ser o meio de transporte nº1; no extremismo, as armas mais eficazes de o combater são a esperança (através da educação) e a oportunidade (através do trabalho e do crescimento económico). Salientou que existe uma ideia errada quanto à tecnologia destruir trabalhos, afirmando que esta criou mais emprego que o inverso.
Finalmente, quanto à pobreza, disse que existem menos famílias consideradas estar no limiar de pobreza (viver com menos de 1 dólar por dia) devido às oportunidades trazidas pelos telemóveis.
O CEO da VMware acabou a sua intervenção, dizendo: “A tecnologia é intrinsecamente neutra. É o nosso trabalho moldá-la para o bem”.
á Ross Mason, que defende a ideia oposta à de Pat, afirmou que a tecnologia não irá beneficiar todos, algo já atualmente visível por ela não estar equilibradamente distribuída pelo mundo. Para além disso, argumentou que muitas pessoas morrem todos os dias por doenças curáveis, mostrando esse desfasamento na distribuição.
Suportando a visão da não beneficiação, utilizou o caso das “fake news”, dizendo que atualmente qualquer pessoa está sujeita à possibilidade de ser manipulada como aconteceu nas eleições norte-americanas.
Falando na automatização, na inteligência artificial e na robótica, disse que não devemos de ser otimistas, mas sim perceber que o que fizermos agora vai influenciar o futuro e que a automatização e a inteligência artificial vão obrigar a imensos trabalhadores a terem que se requalificar de forma a terem emprego.
Terminou a sua argumentação, afirmando “Eu não estou confiante de que nós seremos capazes de corrigir o curso no futuro”.
O debate acabou com Pat a contra-argumentar que o mesmo tipo de reação extremista de Ross ocorreu no passado com o surgimento de outras tecnologias, como a televisão, e com Ross a pedir cautela face à inteligência artificial devido à sua imprevisibilidade.

 

“Where I am putting my Money in 2018 – Onde vou colocar o meu dinheiro em 2018”

Figura 2 – Jim Breyer e Dana Settle, respetivamente

Em conversa com Arjun Kharpal, repórter tecnológico da CNBC, Dana Settle, cofundadora e parceira da Greycroft (especializada em investimentos tecnológicos e capitais de risco) afirmou que o capital apostado pelos diversos investidores terá como foco as tecnologias com valor prático como os veículos autónomos.  Já Jim Breyer, fundador da Breyer Capital, empresa que investe também em capitais de risco, disse que o investimento passará pela inteligência artificial e nas atividades desenvolvidas em campus universitários por todo o mundo.
Quanto à inteligência artificial, Dana declarou que é fundamental nas empresas haver um certo domínio de capacidades nesta área e Jim disse que, para a inteligência artificial ajudar, por exemplo, na pesquisa do cancro, vai ser necessário uma aposta na recolha de dados.
Algo vincado por ambos é que a inteligência artificial e machine learning podem ter uma aplicação em diversas áreas, desde as finanças até à compra de propriedades.
Um outro grande foco vai ser a China e a oportunidade de mercado lá, principalmente, a nível educativo e da saúde.
Outro dos tópicos abordados foram as criptomoedas (como o Bitcoin) e as blockchain (tecnologia de descentralização de informação como forma de segurança de dados bancários), sendo que poderão tornar-se um padrão em algumas áreas e é algo impossível de parar.
Para além de que as ICO (initial coin offering ou oferta inicial de moedas, na qual através da compra de “tokens” poderá se investir numa empresa ou esta angariar dinheiro) serão uma alternativa de financiamento no futuro, na perspetiva de Jim.

 

“The Cybersecurity Challenge: Our need to protect the World – O desafio da cibersegurança: A nossa necessidade de proteger o Mundo”

Figura 3 – Brad Smith enquanto discursava acerca do que é preciso ser feito na área da cibersegurança

O presidente da Microsoft, Brad Smith, focou o seu discurso na cibersegurança, mostrando o papel da Microsoft no combate contra os ataques informáticos e apelando a um acordo global no setor de forma a garantir a segurança do mundo digital.
Na sua visão, o dia 12 de maio de 2017 foi um marco nesta área, tendo acordado o mundo para o campo de batalha ter passado a ser o ciberespaço, devido a mais de 200 mil computadores em 150 países terem sido hackeados pela WannaCry, um ransomware criptografado que afetou o sistema operativo Windows, bloqueado os arquivos das vítimas sem possibilidade de recuperação fácil destes.
Afirmou que as empresas tecnológicas têm uma responsabilidade partilhada de manter o digital seguro, proferindo “Precisamos de usar a nossa voz”. Utilizou como exemplo a ação da sua empresa face ao WannaCry, tendo lutado contra a Fancy Bear, entidade a que se atribui a responsabilidade do ataque.
Acabou a sua intervenção, dizendo que o objetivo das empresas tecnológicas deve passar por “construir um mundo melhor”.
Entre este e o seguinte, Sheryl Sandberg, a nº2 do Facebook fez uma homenagem às ações das pessoas que, através da tecnologia, ajudaram em casos de catástrofes como o furação Harvey e os incêndios em Portugal, demonstrando a capacidade da tecnologia de criar o bem no mundo.

 

“Building trust in a connected world – Construir confiança num mundo conectado”

Figura 4 – Simon Segars no palco principal da Web Summit

Quando a tarde de apresentações ia a meio, subiu ao palco Simon Segars, da ARM (uma das desenvolvedora de microprocessadores), que falou que com cada vez maior conectividade aumenta a preocupação do uso dos dados recolhidos pelos vários dispositivos.
Face a isto, defende que se deve ter uma abordagem humana quanto à inteligência artificial e aos dados, passando a ser-se mais transparente quanto à utilização dos dados recolhidos.
Além disso, apelou às empresas tecnológicas que tentassem ativamente fazer a manutenção da segurança dos dispositivos sendo essa uma das únicas hipóteses de assegurar a confiança por parte do público e que o público deve fazer uso da sua força para assegurar que as empresas o fazem.

 

“Sexism in the Valley – Sexismo no Valley”

Figura 5 – Erin Griffith, a moderadora da conversa

Este foi um dos painéis mais atuais face ao escândalo Weinstein que tem abalado nas últimas semanas o panorama noticioso mundial. Para discutir o tema estiveram presentes Christine Herron, mentora da StartX, organização sem lucros que pretende desenvolver as capacidades dos empresários de topo de Stanford; Dick Kramlich, fundador da New Enterprises Associates, especializada em capital de risco; e Kara Swisher, a editora executiva da Recode, site noticioso focado nas noticias de Silicon Valley sobre tecnologia e media digital.
 Erin Griffith, editora sénior do Wired, que guiava a conversa começou por perguntar quando é que se pararia de falar nisto em conferências. Enquanto Kara defendeu que “A única maneira de alterar as coisas é continuar a fazer as pessoas pagarem o preço por esta cultura tóxica”, de forma a fazer com que o assunto não se esbata novamente, Dick acha que devido à magnitude dos últimos eventos, não se vai acabar de falar sobre isto assim tão cedo. Só quando for resolvido legalmente é que parará.
Um dos casos mencionados durante a conversa foi o de Ellen Pao, que em 2012 processou a empresa Kleiner Perkins Caufield & Byers, acusando-a de não a ter promovido devido a ser uma mulher. Foi referido que este caso não teve tanta cobertura e só demonstrava o sexismo em Silicon Valley.
Christine Herron comparou o caso de Ellen Pao com o da Uber, no qual foi malvista a posição tomada pela companhia por ter posto em causa a credibilidade de uma mulher que foi violada em 2014 por um condutor da Uber, e declarou que enquanto no caso de Ellen ninguém queria derrubar aquela empresa, no caso da Uber o contrário ocorreu, tendo existido mais cobertura noticiosa sobre este último.
Um dos pontos referidos foi de que quando diversas pessoas se juntam e falam sobre casos de sexismo que experienciaram, torna-se mais fácil de falar porque, segundo Christine, “Se foste a primeira, a única, estás marcada.”.
Outro dos assuntos mencionados foram os acordos de confidencialidade que, segundo Kara, levam a que ninguém consiga “dizer o que aconteceu”. Já Herron afirmou que os assédios sexuais são algo “que às mulheres é dito para não falarem acerca, desde sempre. Isso é um problema.”.
Mais tarde Kara acrescentou que em vez de se gastar dinheiro a assinar contratos para calar as vítimas, dever-se-ia investir em resolver as situações pela raiz, algo que levaria ao gasto de menos dinheiro.
Face à pergunta de Erin Griffith sobre como impedir que, em casos de assédio sexual, as vítimas tenham medo de contar a sua história devido ao que lhes aconteceu não ter sido tão terrível como os últimos casos.
Kramlich focou a sua resposta no assédio sexual existir em todas as atividades e que se deve trazer a verdade ao de cima.
Já Kara afirmou que nenhum tipo de assédio deve ser tolerado, desde os piropos até à violação, tendo de existir maior regulação e uma política de tolerância zero. Além de ter referido que é no interesse de todos os homens bons que estes casos não aconteçam e ter proferido a frase que marcou o painel “Todas as mulheres que conheci tinham uma história (…) Todos os homens que conheci não sabiam”.
Finalmente Christine Herron disse que já viu imensos pedidos de desculpa nas redes sociais, mas que nenhum até agora cumpriu todos os requisitos de um pedido de desculpa: pedir desculpa, reconhecer o que fizeram, dizer o que vão fazer e o que vão fazer para que tal não ocorra novamente.
O painel encerrou com a moderadora da conversa, Griffith, a informar o público de que 42% da audiência e 35% dos oradores eram mulheres.

 

“Hybrid reality: Humanity 2.0 – Realidade híbrida: Humanidade 2.0”

Figura 6 – William Sargent no inicio do painel

O grande tema deste painel, que contou com a presença de William Sargent, CEO da Framestore, empresa que trabalhou em vários filmes como Blade Runner 2049 e Thor Ragnarok, foi a realidade virtual e a maneira como um mundo digital irá sobrepor-se ao mundo real, aumentando as experiências dos humanos.
Para William, o futuro da realidade virtual passará desde a aplicação na educação até à aplicação na descoberta de lugares.
Um ponto fulcral que mencionou foi o surgimento das humanidades digitais (nova área de aprendizagem que combina tecnologia com as disciplinas de humanidades), sendo que a tecnologia propulsiona avanços, mas a humanidade dá os valores e a ética pela qual vivemos a nossas vidas.
Um último tópico foi o perigo das tecnologias e de como está cauteloso porque ainda existe muito trabalho por fazer, ao mesmo tempo, que otimista porque a humanidade é resiliente.
Acabou o seu discurso proferindo “Sejam pensativos”.

 

“Mind Control with Julius Dein – Controlo de mente com Julius Dein”

Figura 7 – Julius Dein a executar o seu truque com a ajuda de um membro da audiência

Um dos momentos altos da tarde foi o truque de magia executado por Julius Dein, estrela das redes sociais e mágico, devido à interatividade com o público. Primeiramente mandou todos se levantarem e abrirem as mãos abertas para depois mandar se sentarem após tirar uma foto.
O truque de magia que apresentou foi o truque de tentar adivinhar a carta que a outra pessoa desenhou. No momento de revelação fez as pessoas baterem as mãos no peito e revelou a carta errada, para depois mostrar a verdadeira enquanto o público batia novamente com uma das mãos no peito.

 

Live it: Creating a successful culture – Vive-o: Criar uma cultura de sucesso

Figura 8 – Dustin Moskovitz e Wladimir Klitschko, respetivamente.

O último painel da tarde foi moderado por Laurie Segall, correspondente tecnológica sénior da CNN Money que juntou dois ex-funcionários do Facebook, Dustin Moskovitz e Wladimir Klitschko.
Dustin é o cofundador do Facebook e da Asana, da qual também é CEO. A Asana especializa-se no melhoramento da produtividade através de um serviço para ajudar equipas a verem o progresso do trabalho.
Já Wladimir é uma lenda do boxe e CEO da Klitschko Ventures, empresa que aconselha companhias, associações e sociedades em todos os tópicos relacionados com gestão de desafios e desenvolvimento de novos modelos de negócios e produtos.
A primeira parte da conversa focou-se na saída deles do Facebook. Para Dustin com a ideia de melhorar a produtividade das empresas tornou-se claro que deveria de focar-se a tempo inteiro a isso, depois de ver o impacto que a ideia teve no Facebook. Já para Wladimir teve tudo a ver com mudar de “corredor”, sair do espaço de confronto. Acrescentou que o maior desafio que temos é o tempo, sendo que mudar de “corredores” é um desafio que nos deixa continuar a viver ativamente, desafiando o tempo.
Em referência ao tópico principal da conversa (“Criar uma cultura de sucesso”) para Dustin é tentar escolher a direção correta, ter um plano e entender o papel de cada pessoa no cumprimento do plano.
A resposta de Wladimir consistiu em 5 passos: encontrar a unidade que nos motiva, as consequências do objetivo, a imaginação da concretização desse sonho, a existência de aliados e por último amar obcecadamente o objetivo.
Um último ponto referido foi o falhanço. Para Wladimir falhar é uma oportunidade de aprender mais. Ter medo de falhar é mau. Algumas das maiores descobertas surgiram do ato de falhar como a descoberta da América por Colombo.
Com este painel deu-se por encerrado o penúltimo dia de Web Summit, que levou milhares de pessoas até ao Parque das Nações.

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