Música

“Hoje os artistas já não se distinguem uns dos outros”

Miguel Cadete é director da revista de música Blitz desde 2006. Numa conversa à tarde em Paço de Arcos, no edifício principal da Medipress, o director fala um pouco de tudo, começando com o tema mais global da indústria musical: a pirataria e o download ilegal.

A indústria musical está em recessão e não só em Portugal. As grandes editoras preocupam-se com os lucros que estão a desaparecer, devido à quebra de vendas dos álbuns físicos e com o fenómeno crescente da pirataria, em que milhões de utilizadores em todo o mundo possuem discografias inteiras de artistas sem haver qualquer tipo de remuneração direta para estes.

Isto leva a que as editoras sejam mais cuidadosas nos seus investimentos e que a imagem do artista seja o mais “vendível” possível. Miguel Cadete diz que “os artistas já não se distinguem uns dos outros e as editoras já não conseguem lançar um produto novo/original porque não querem arriscar”.  E o panorama torna-se mais negro quando se fala do caso português: “a indústria discográfica portuguesa mal sobrevive – e a culpa é do download digital (ilegal) que fez decrescer as receitas dos discos e, consequentemente, das editoras”. O fenómeno do digital é uma consequência directa do fenómeno do download ilegal. O fácil acesso a músicas, álbuns ou discografias inteiras de artistas, em apenas dois ou três cliques, relativiza o roubo.

Porém, novos programas e serviços foram desenvolvidos para se combater o roubo digital. O Spotify (serviço online de streaming de músicas gratuito) pode ser

pequena fração na resolução do problema. Mas Miguel Cadete aponta que tal pode não corrigir o comportamento total da pirataria: “a noção de que se está usufruir de uma coisa que tem proprietários é muito mais vaga na Internet e portanto será bastante mais difícil combater esse problema. É esperar para ver como corre”.

REDES SOCIAIS

Com o advento do digital, o negócio de divulgação de músicas também mudou. Desde que a banda inglesa Arctic Monkeys se tornou famosa através da rede social Myspace e divulgou os seus primeiros trabalhos pela Internet, outras jovens bandas passaram a acreditar no sucesso imediato e fácil, sem ter de recorrer aos serviços de uma editora. No entanto, Miguel Cadete acredita que isso é mera ilusão: “Esses grupos novos tiveram, com o MySpace, a ilusão de que não precisavam de editoras e todos poderiam fazer a sua música, torná-la pública e a partir daí desenvolver uma carreira. Hoje todos os novos artistas não se distinguem uns dos outros, não pela música que produzem mas porque neste mar de informação que existe todos parecem iguais. São mais e mais grupos a aparecer e não há nada no sistema mediático que faça essa distinção.

FESTIVAIS

Não podendo depositar todos os seus rendimentos na pequena venda de singles ou álbuns, os artistas de hoje têm de apostar fortemente em digressões por todo o mundo. A época alta de concertos acontece no verão e o formato de festival atrai massas de jovens prontos a viver a praia e o sol com muita música. Com a forte austeridade que se tem feito sentir nos últimos anos, o público fica expectante e curioso com o desempenho dos festivais de verão. Este ano, Portugal recebe artistas como Queens of The Stone Age, Green Day, Depeche Mode, Kings Of Leon, The Killers, Smashing Pumpkins, Palma Violets, Tame Impala, La Roux, entre outros.

Muitos festivais mudaram de equipas de patrocínio ou acabaram. Assim, não há nenhuma receita certa, pois, tal como diz o director da Blitz, “ninguém é invulnerável à crise. E, se este ano já foi difícil, o próximo ano será pior. Estou certo de que não haverá tantos festivais, penso que alguns de menor dimensão irão desaparecer, e os maiores terão também mais dificuldades.”

Sendo director da única revista de música generalista em Portugal, e com a crise a atingir o sector dos media, Miguel Cadete tenta estrategicamente agradar a um leque muito variado de leitores e guardar espaço para um pouco de tudo. No entanto, não dá descontos à música portuguesa: “sentimos também uma responsabilidade em relação à música portuguesa – mas não, para nós, a nossa música tem de ser tão boa quanto a música estrangeira. Não é por ser nacional que deve ser louvada, deve-o ser porque é boa.”

Próximas apostas

Miguel Cadete não sabe quais são as bandas mais promissoras que vingarão na próxima década: “Depende de uma conjuntura da indústria e também da vida pessoal da banda. Miguel Araújo, dos Azeitonas, vingará porque é um grande escritor de canções. E o Pedro Matias da Silva, dos Deolinda.” Já no mercado internacional, Cadete destaca a banda The XX, que vem a Portugal em maio deste ano.

Quanto à década que passou, o director da Blitz desabafa que a indústria não conseguiu impor ninguém, à excepção da Lady Gaga, que teve um grande investimento de marketing a acompanhar a sua ascensão. “É a consequência dos download ilegais, essa é a tristeza”.

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