Opinião

Acreditem

Poucas são as vezes que me deito sem contar um belo rebanho de carneirinhos. Diminutivo mal empregue se considerarmos o tamanho que as vezes tomam passadas as noites de insónia juvenis. Quem não os tem? Podem é assumir formas diferentes, bichos com os olhos em bico, berlindes com cores angustiantes ou torcicolos aborrecidos. Ao invés, quando não os sinto aos rebuliços no meu salão, estou em harmonia com o meu ego. Por muito narciso que seja, é ele o senhor que se segue.

 Não gosto de andar, nem de me levantar do sofá para pôr o copo de leite vazio no lava-loiça, assim como odeio dar um pulo ao sótão porque o meu pai se esqueceu da chave do carro. Sei que são defeitos que muita gente partilha e sublinha, como se de uma qualidade se tratasse. Mas não vamos confundir as coisas. Por ser comodista e preguiçoso cresci à volta de uma cassete cansativa, mas razoável. Quem se deixa ficar sentado vê os navios passar. E em anos de tumultuosas marés afundar o casco é das tarefas mais básicas que hoje encontramos.

 Há um ano atrás, das poucas ocasiões em que fui proactivo, ganhei um lugar numa redacção de um jornal diário português. Foi uma experiência que, para quem ainda não acabou o curso, me colocou num patamar acima dos outros estudantes. Porta atrás de porta, caminho, desvio, caminho, desvio, direita, esquerda, um labirinto que criei com mapa no bolso. Era e sou, actualmente com outra noção e sensibilidade, um delfim no meio jornalístico. A exigência foi subindo gradualmente, nem sempre de braço dado com o reconhecimento. Há quem diga que fiz o que tinha que fazer, há quem diga que o fiz já todos sabiam que era capaz, há quem diga que não vou ter emprego quando me tornar licenciado. Não levo a mal. Primeiro, porque até posso reconhecer e compreender estas premissas, depois porque talvez as admita como verdadeiras. Mas desculpem-me os ofendidos, não posso tomar esta vivência com essa leviandade.

 O episódio que vos quero contar passou-se na última semana. Nas minhas escritas pontuais para o Jornal i, ao estilo jornalismo freelancer, fui ao ensaio de imprensa da peça “Um dia os réus serão vocês”, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. Um espectáculo que retrata o julgamento de Álvaro Cunhal, encenado por Rodrigo Francisco e interpretado por Luís Vicente. À conversa com o assessor de imprensa, Eduardo Brandão, este diz-me que o Rodrigo adorou o meu texto. Eu, meio sem saber o que dizer, corei e agradeci. Quando encontrei o Rodrigo, uma jovem promessa/certeza no teatro nacional, fiquei mesmo envergonhado. Disse-me que sou uma espécie em extinção, um género de jornalismo literário que está a acabar, uma escrita para além do jornalismo mais céptico e conservador – isto, diga-se, a propósito de um texto que tinha escrito anteriormente sobre a peça “Negócio Fechado”.

 Embasbacado, sem saber bem para onde olhar, fixava pontos atrás das suas costas, fui ganhando peito, senti as minhas costas a ficarem mais direitas, as minhas omoplatas a saírem do lugar, sem o demonstrar, obviamente. Fui para casa escrever com a promessa de voltar no dia da estreia. Dois dias depois os elogios repetiram-se, um desafio para me tornar dramaturgo também, mas, melhor do que isso, são os dois textos que estão agora pendurados no teatro da minha cidade, filho pródigo que sou. Cem arrepios na espinha e um grande aperto no coração, de orgulho.

 É por isso, caro colegas e amigos, futuros jornalistas como eu, que vos peço para largarem o sonho de abrirem um restaurante no Cais Sodré, para esquecerem a ideia de ir para a Dinamarca apanhar morangos e para a Austrália saltar na carreira como os cangurus. Esqueçam quem vos diz que não há saída, quem vos incita a encolherem-se com formalismos e burocracias. Sejam autênticos e ponham a mão no ouvido para ouvir os assobios…quando os carneirinhos desaparecerem. Acreditem.

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