Opinião

A nossa casa

Não perguntem porquê mas sou um rapaz, por defeito, explicativo. Sou aquele palhaço que depois de soltar uma piada sem nexo, mas que à partida é demasiado estúpida para toda a gente perceber do que se trata, insisto. Ainda assim, insatisfeito com as risadas forçadas e com os apupos vingativos traduzo a dita cuja para uma audiência que já entendeu e que é alvo do teorema a+b=x. Pobres coitados perdoem-me só mais uma vez, até porque neste caso parece-me evidente que faz todo o sentido.

Isto tudo para vos justificar, com relativo rigor, a razão pela qual decidi dar tal nome a esta coluna. Antes de passar à frente queria só salientar que também sou um rapaz que, por norma, se diz que tem uma paixoneta por história. E, daqui podem concluir, que isto teria forçosamente que começar por uma contextualização histórica, uma legenda a dizer: “7 anos antes”.

Estava no meu 10º ano, se as contas não me falham, e à hora de almoço – com base naquela regra nº 1 de puto rebelde que diz “almoçar na cantina é para nerds” – começámos a frequentar a tão conhecida além-fronteiras “A Redentora”. Em cerca de dez minutos estávamos na subida para o Cristo-Rei, na tasca mais distinta e acolhedora de Almada.

No início era uma vez por semana, noutras duas, até que já era a toda a hora. Este local tem no seu quintal, peço desculpa espaço exterior, a que todos os clientes se referem como “lá fora”, o ex-líbris do convívio e animação. Quanto ao cardápio não foge muito do prego no prato a 2,15€ (sem ovo) e da dose de bifinhos à champignon por 6,65€ (a dividir por dois). Embora esta questão da comida tenha vindo a perder inflûencia nos últimos anos, como consequência natural da crise, do estrangulamento dos mercados e do assalto aos rendimentos dos consumidores. Sendo lógico que a escolha do pouco que se tem na carteira se direccione para outros produtos.

Mas, também não se ache que “A Redentas”, como lhe costumamos chamar carinhosamente, é um púlpito de embriaguez infanto-juvenil. É certo que aquelas aulas de Educação Física nem sempre correram da melhor maneira, ainda mais com o Director de Turma, mas, com o passar dos anos, fui-me apercebendo que essa insinuação seria de todo injusta para um espaço com tanta simbologia e, principalmente, para o Sr. António, o proprietário. É um homem que, para além de ter a paciência de um santo, tem uma maneira de falar muito interessante – parece que só se consegue expressar em ditongo nasal.

Hoje em dia já não se combina. Praticamente todas as sextas e/ou sábados (pode acontecer noutro dia qualquer), à hora de jantar vamos começando a chegar. E, como devem calcular, se “A Redentora” fosse um ântro de bebedeira desmesurada não teríamos condições nem físicas, nem financeiras para nos estragarmos todos os fins-de-semana. É antes uma tradição inerente àquele cheiro a alheira e a urina de gato que apenas quem experimenta, o local obviamente, consegue entender e apreciar. Não tenham dúvidas que se trata de uma casa com especificidades muito próprias e regras bastante vincadas, reveladas apenas no dia de estreia. É uma morada colectiva com o aluguer pago em cerveja.

Porém, receio bem que, para quem não está dentro do assunto, esta possa ter sido uma crónica totalmente aborrecida e se foram daqueles que desistiram à segunda linha tomaram a melhor decisão. Não podia, contudo, deixar de me reger pelos meus princípios e não explicar o nome da minha coluna.

Quando a lerem, das próximas vezes, relaxem e estiquem as pernas. Ou então larguem a preguiça e façam-se à estrada, Almada é só do outro lado da ponte. Sejam bem-vindos.

 

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