Literatura

A Vida Não é Aqui

“… O homem tinha um rosto extremamente belo, (…) tinha os cabelos anelados e (…) a brancura do alabastro em que fora esculpida a estatueta dava à figura qualquer coisa de ternamente feminina ou de divinamente virginal: segundo a inscrição gravada no pedestal, o homem da lira era o deus grego Apolo. (…) A jovem esposa (…) contemplava-lhe o rosto encantador e começava a desejar que a criança que crescia no seu ventre se parecesse com aquele…”

Nascido na República Checa em 1929, Milan Kundera testemunhou as tensões que mudariam os valores humanos e estéticos e que instaurariam uma nova ordem mundial. A ampla obra literária de Kundera apresenta um cariz muito muito próprio e carateriza-se pela forma como o autor se perde nas ideias. O autor desenvolve reflexões significativas sobre o próprio romance e sobre a humanidade, sendo recorrente a crítica ao regime comunista. Por conseguinte, as suas obras foram proibidas na então Checoslováquia, logo após a invasão soviética, e Kundera refugiou-se em França em 1975, onde vive desde então. Tornou-se cidadão francês em 1981, após lhe ter sido retirada a nacionalidade checoslovaca, consequência da publicação em França de O Livro do Riso e do Esquecimento.

A sua obra, de caráter explicitamente filosófico, comportando nomes como A Brincadeira (1967), Amores Risíveis (1969), A Valsa dos Adeuses (1976), A Imortalidade (1990), A Lentidão (1995), A Ignorância (2000), recebeu prémios, como o Common Wealth Award em 1981 e o Prémio Jerusalém em 1985.

À semelhança de A Insustentável Leveza do Ser, uma das obras que consagrou mundialmente o autor, A Vida Não é Aqui assenta num cenário onde o ser humano e o seu quotidiano comum – os seus sonhos, os seus conflitos e os seus hábitos – coexistem com grandes acontecimentos históricos.

A Vida Não é Aqui remete-nos para um tempo/espaço metafísico, sendo, acima de tudo, o retrato de um jovem poeta coagido pelo regime e pela presença da mãe na sua vida, que se aproxima de uma dependência patológica. Jaromil, personagem ridícula e ingénua, procura encontrar mecanismos que atraiam a atenção e o liguem a um mundo físico e que o libertem dos braços da mãe para a idade adulta.

Jaromil cresce na Checoslováquia ocupada pelos nazis. Para regozijo da sua mãe, desde cedo manifestou uma sensibilidade excepcional e o dom de criar rimas. O pai foi preso pela Gestapo quando o poeta ainda era criança, pelo que ficou aos cuidados da mãe, que o acompanhou de forma contínua. Jaromil adere à revolução e os seus versos apaixonados transformam-se em arte ao serviço da sociedade socialista. O poeta anseia a liberdade tal como Rimbaud, Lermontov, Bryon ou Wolker; deseja pertencer a algo maior.

O romance adquire uma nova perspetiva de complexidade quando nos apercebemos que consagra em si três mundos diferentes, onde o poeta habita simultaneamente. Jaromil representa o ser concreto que está ligado ao mundo real, Xavier o sonho (“Xavier não vivia uma vida só (…) Não vivia a sua vida, mas dormia-a; nessa vida-sono saltava de um sonho para outro sonho; sonhava, adormecia a sonhar e sonhava outro sonho, de tal maneira que o seu sono era como uma caixa na qual entra uma outra caixa, e nesta uma outra caixa ainda, e nesta outra, e assim por diante.”); e, por fim, Rimbaud (Arthur Rimbaud, poeta francês cuja citação dá nome ao romance: “What a life! True life is elsewhere. We are not in the world”), referente ao passado, e a como jovens poetas correm o risco de trocar o lirismo da sua poesia por palavras de ordem.

A Vida Não é Aqui ilustra uma das mais interessantes caraterísticas de Milan Kundera enquanto escritor: a presença do autor no próprio romance. Embora de forma subtil, Kundera consegue interpor considerações que lhe permitem explicar o comportamento das personagens, renunciando à neutralidade do narrador e permitindo-lhe uma credibilidade reflexiva nos seus romances.

A vida não é aqui, tinham escrito os estudantes nas paredes da Sorbonne (…) Os estudantes arrancam as pedras da calçada, viram os automóveis, constroem barricadas; a sua irrupção no mundo é bela e ruidosa, iluminada pelas chamas e saudada pelas explosões das granadas lacrimogéneas (…) A emancipação do homem será total ou não será coisa nenhuma. (…) O sonho é realidade, escreviam os estudantes na parede, mas a verdade parece antes ser o contrário: aquela realidade (as barricadas, as árvores cortadas, as bandeiras vermelhas) é que eram o sonho.”

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