Música

Fantasma Lusitano

Os sócios pagam 2 euros ao ano, há três concertos por semana, a entrada é cinco euros e a imperial é 1 euro. Mas o que importa mesmo é a música, pois cá só se ouve rock, puro rock. Eis a Associação Fantasma Lusitano.

Fica no Bairro alto, perto da rua do Diário de Notícias, mais precisamente na morada Rua Grémio Lusitano, nº13. Bate-se à porta e passa-se por um cortina preta antes de entrar num pequeno túnel com três arcos. Nas paredes há pósteres A4 de todos os concertos que já aconteceram no espaço. O tecto tem sereias com os peitos à mostra desenhadas a giz. Ao fundo, há um semi-palco onde as bandas convidadas tocam. Se não há banda, há um set de DJ ao lado.

No entanto, este bar pouco iluminado onde agora só habita a guitarra e os amplificadores não foi sempre assim.

A Associação Fantasma Lusitano existe há quatro meses, um projeto de um grupo de amigos que queria remodelar um espaço. Antes, havia o clube de jazz Santa Clara. Tudo mudou no início do ano: Tiago Achega ficou responsável pelo espaço, Carlos da Silva pelas fotografias, Jorge Bruto pelos concertos e João André Ribeiro pela decoração. Amigos pelas artes e principalmente a música.

Às 20:30, as portas ainda não abriram mas a banda que vai abrir o concerto para a banda convidada já está a fazer um soundcheck suficientemente audível do outro lado da porta, uma guitarra hard rock com voz rasgadas a soar screamo.

Tiago está atrás do balcão, onde há um espelho que faz lembrar os bares escuros norte-americanos dos filmes de Hollywood em que o bartender é um verdadeiro confessionário. Tiago não ouve as amarguras dos amigos mas combina com os amigos presentes onde vão comer e pergunta se algum deles quer uma jola.

Este será o último concerto esta semana, mas há sempre mais. Considerando os quatro meses, já devem ter havido quase 50 concertos. Mas há pelo menos 100 posteres na parede, o que mostra a quantidade de música ao vivo que a pequena associação oferece. E já conta com mais de mil sócios e nem todos vestem-se de pretos dos pés à cabeça.

No entanto, a associação fecha à meia-noite e não é por causa do barulho, pois, segundo Tiago, “os vizinhos não se importam. É a Câmara, há uma lei qualquer que diz que as associações têm de fechar à meia-noite. Tivemos 80 por cento de quebra nos bilhetes. Estamos à espera da decisão deles, para termos um prolongamento no horário. Mas está tudo excelente”.

Num tom sempre simpático e relaxado, parece que Tiago está a gerir a sua casa e não um projeto. “O que realmente distingue esta associação de outros sítios é a vertente exclusiva de hard rock e punk. Não há soft rock, pop-rock. É só rock, exclusivamente”, fala de maneira orgulhosa.

Depois de duas músicas, Tiago diz aos gajos para desligarem o som, porque são quase nove horas e eles começam as dez.

Algumas pessoas assistiram ao ensaio mas, enquanto pegam nas coisas, Tiago diz que “no fundo da rua, há o Domingos. Viram à direita e depois à esquerda. Há bifanas a dois paus, é óptimo”. Os clientes agradecem o conselho de quem sabe.

Várias são as bandas que pedem para tocar no espaço, muitas sem nome, mas que Tiago garante que são muito boas. Pergunto-me que bandas ele gostaria de ter no Fantasma: “olha por mim até vinham cá os Xutos que é uma banda que até curto”. Os risos contidos não se fizeram esperar. Mas Tiago pode até sonhar com bandas internacionais, pois já passaram pelo Bairro Alto bandas vindas de Espanha, Nova Iorque e Austrália.

O sonho é só isto: continuar todas as semanas, para o público fiel que os acompanha. Não há grandes objetivos, apenas dar música, boa música rock, às pessoas. É um espaço familiar e que há de melhor do que passar uma noite no Bairro com uns amigos num concerto rock? É para isso que existe o Fantasma.

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