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Labirinto de Papel

Fotos de Inês Rebelo e Ana Rita Nunes

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Em Benfica, na Avenida do Uruguai, número 13A, existe uma livraria com perfume de páginas amareladas pelo tempo e um gato a dormir na montra. A livraria tem dois andares cheios de histórias, com livros a cobrir todas as superfícies e tesouros escondidos, como máquinas de escrever ou telefones antigos. Avançando pela floresta de papel, encontramos os livros da nossa infância, mas também os livros da infância dos nossos avós. É uma livraria “mais para encontrar do que para vir à procura”.

“Há pessoas que adoram a arrumação e outras que se assustam com a arrumação”, diz José Antunes Ribeiro, o tesouro mais bem guardado da livraria.

O proprietário, natural do concelho de Ourém, trouxe a irreverência às costas até Lisboa. Na mala trazia o gosto pelos livros e pelo jornalismo. Trabalhou no Diário de Lisboa Juvenil, n’O Tempo e o Modo, no Notícias da Amadora e no Comércio do Funchal. Este não se revelou o caminho a seguir, mas nunca deixou as histórias.

As histórias sempre o moveram e foram elas que o trouxeram até aqui, ao Espaço Ulmeiro. E, tal como o trouxeram a ele, trouxeram também grandes nomes, como Zeca Afonso, Mário Viegas, Lawrence Ferlinghetti, David Mourão Ferreira, Eduardo Guerra Carneiro, Henrique Tavares Rodrigues, Dinis Machado e Hélia Correia.

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Hélia Correia foi precisamente uma autora que José Ribeiro gostou muito de publicar, tal como António Ramos Rosa, por exemplo. “Massacres na guerra colonial” foi também um livro muito importante para o proprietário, em parte por lhe ter valido um processo no tribunal militar. Porque, na realidade, além de livraria, a Ulmeiro também é editora; ou, por outra, “uma espécie de escola escondida de editoras”. Porquê? Porque José Antunes Ribeiro ajudou a fundar, por exemplo, a Assírio e Alvim, e a Ulmeiro serviu de ponto de partida para várias pequenas editors. E esta parte da publicação é muito importante: “sempre que publico, ou publicava, um livro, é como se fosse um filho. É algo muito importante na vida”, explica o proprietário.

A importância dos livros na vida de José Antunes Ribeiro leva-o a afirmar: “Jamais lerei um livro em ebook, farei disso uma questão de honra. Os livros têm uma capa, uma história…”.

Se as pessoas entram na Ulmeiro pelos livros raros, que são “a acumulação de muitas vidas”, entram também por Salvador, o gato rechonchudo que se passeia pelos livros com a familiaridade de quem cresceu no meio deles. Quase exercendo as funções de concierge, recebe as pessoas com à-vontade e deixa-se acarinhar, sendo sempre um motivo de paragem para os transeuntes, que se deixam encantar pela “loja do gato à porta”.

É precisamente Salvador que, não sabemos muito bem se pela sua dócil aparência, se pelo nome inspirador, dá um ar convidativo à livraria, que já viveu dias melhores. O risco de fechar as portas só é contrariado pelo espírito devoto e aventureiro do seu dono, que continua a colocar o despertador para abrir cedo o espaço e a sair dali às vezes à uma da manhã.

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Isto porque depois das 19h, hora oficial de encerramento, há muito que fazer. Há que manter o contacto online com os mais curiosos, há livros para leiloar e encontros para preparar. A livraria não parou: continua a ser um espaço ativo que recebe de braços abertos quem a quiser visitar e aproveitar o que tem para oferecer. Recentemente, por exemplo, fizeram uma sessão de leitura do primeiro livro editado pela Ulmeiro, em Janeiro de 1970: “Isto anda tudo ligado”, de Eduardo Guerra Carneiro.

E quando as pessoas não vão até à Ulmeiro, a Ulmeiro vai até às pessoas. A livraria garante que onde há vontade de ler há livros. Assim, o espaço tem ainda um projeto de doação de livros, que são distribuídos em vários locais como os bombeiros.

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A Livraria Ulmeiro é como o amor: também não escolhe idades. Por isso, este cantinho em Benfica recebe avôs, pais e netos. Todos procuram o livro das suas vidas e este labirinto de papel pode ser o local certo para o encontrar. O professor universitário Jorge Trindade é prova disso mesmo: frequenta a livraria há cerca de dezasseis anos e um dos livros mais especiais que aquele espaço lhe proporcionou foi a primeira edição de um dos livros da sua infância – “Aventuras de João Sem Medo”, de José Gomes Ferreira. Por outro lado, Miriam Cardoso frequenta a livraria há cerca de um ano e nas suas prateleiras conseguiu encontrar um livro antigo de Música, a sua área de formação, autografado pelo autor, João de Freitas Branco.

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