7ª Arte

“Noooo” aos clichés de Hollywood

A promessa era: vamos salvar-te dos clichés de Hollywood. Quem queria ver algo novo teve dez dias para lavar os olhos de tantas explosões e beijos apaixonados à chuva. A prova disso – apenas uma de muitas, mas a melhor para o júri da competição internacional de longas – foi Leviathan, um documentário do qual não há memória visual nem sonora. O filme, uma co-produção americana, britânica e francesa, é o olhar experimental e inovador de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel. Sem depoimentos nem narração, acompanhamos durante quase uma hora e meia as viagens tempestuosas de um navio de pesca em alto mar na costa este dos Estados Unidos da América. O som e as imagens das câmaras presas a pescadores e a partes do navio transportam-nos para um mar que não dá tréguas. Somos o pescador a lançar uma rede ao oceano, somos a corda que é arrastada debaixo de água ou o peixe que se debate nos últimos instantes de vida.

Ainda na onda experimental e a oscilar na barreira entre o documentário e a ficção, Lacrau, de João Vladimiro, ganhou o prémio de melhor longa-metragem da competição nacional. Partimos do quotidiano rural de Covas do Monte para a azáfama da grande cidade sem qualquer tipo de fio condutor que nos guie pelo caminho. As imagens, que nunca se fazem acompanhar por narração, são o olhar reflexivo de Vladimiro sobre o avanço tecnológico de um Portugal urbano.

O júri das curtas-metragens atribui a Da Vinci, do italiano Yuri Ancarani, o Grande Prémio. Também na onda documental/experimental, o filme de 25 minutos mostra uma cirurgia robótica que nos leva ao interior do corpo humano ao som de uma intrigante banda sonora.

No panorama nacional, António da Silva, residente em Londres, agradou ao júri com a curta Gingers, um ensaio sobre ruivos e para quem gosta deles. Por vezes bastante gráfico, o filme “reúne depoimentos e amostras de ADN (pele, cabelo e esperma)”, escreve o realizador.

Eles voltam, do brasileiro Marcelo Lordello, levou para casa o segundo prémio mais importante da competição internacional de longas-metragens. Dois adolescentes são abandonados pelos pais, como forma de castigo, numa estrada no meio do nada. Quando o irmão mais velho decide procurar ajuda, Cris é deixada à sua sorte. Mais ficcional mas incrivelmente realista, o filme é um subtil retrato do Brasil e das igualdade sociais vistas pelos olhos de uma adolescente de 12 anos que tenta encontrar o caminho de regresso a casa.

E o que os grandes vencedores têm de experimental e ensaístico, Spring Breakers tem de mediatizado. Ídolos pop da Disney transformadas em mercenárias de biquini e um James Franco que faz lembrar Sean Paul mas numa versão mais gangster – uma combinação improvável à qual se juntam os clichés das viagens de finalistas e traficantes de droga. E embora a narrativa não seja muito elaborada, Harmony Korine, que já nos habituou aos seus adolescentes estranhos com Kids e Gummo, faz-nos esquecer disso com tanta explosão de cores e imagens a virem de todos os lados.

O último de Korine pode ter sido o mais falado, mas Before Midnight foi o mais aguardado pelos fãs de Céline e Jesse. Nove anos depois de Before Sunset, filme que abriu a primeira edição do IndieLisboa, encontramos uma Julie Delpy e um Ethan Hawke envelhecidos, mas mais divertidos. No último filme da trilogia de Richard Linklater, começada em 1994, voltamos a mergulhar nas longas conversas e discussões do casal que desta vez deambula algures na Grécia. Talvez o filme menos romântico da série, por se chegar a um impasse, porém ao qual se põe um ponto menos reticente do que nos outros “Befores“. Linklater diz que este é o último, o ponto final,  mas talvez daqui a dez anos estejamos no IndieLisboa a assistir a mais discussões paranóicas de Céline e Jesse.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *