Literatura

O Repórter do Kiribati

Como as ilhas Kiribati, no Oceano Pacífico, também o jornalismo corre o risco de ficar submerso pela falta de ética e pelas visões distorcidas da realidade.

Henrique Monteiro, jornalista e ex-director do Expresso lançou no último mês o seu novo romance, O Repórter do Kiribat. O lançamento do livro contou com a presença de Pedro Mexia e António José Teixeira.

O Repórter do Kiribati, através das atitudes do protagonista, John Slide, repórter do jornal Chicago Mirror, leva a uma reflexão acerca da profissão jornalista. O romance questiona tanto o jornalismo em si como o papel do recetor, que aceita o que lhe é apresentado como verdade absoluta.

A obra centra-se no jornalismo e na sua ética profissional, a qual distingue os bons jornalistas, que praticam a sua profissão de forma séria, dos jornalistas de ética duvidosa, os quais alteram a realidade pois é mais fácil escrever histórias para entreter o público do que relatar fatos que poderão não ser desejados pelo leitor.

A ideia para escrever este livro surgiu da facilidade com que se consegue mentir, segundo o autor, e pelo fato de a ética jornalística ser cada vez mais colocada em causa nos dias de hoje. A falta de ética do protagonista, que inventa histórias e não relata fatos, levanta questões acerca da objetividade versus subjetividade e da creditação da ilusão, ao ser vista como uma versão alternativa e melhorada da realidade.

Henrique Monteiro escolheu para protagonista um homem com muitos defeitos, através do qual se assiste à demonstração de que o jornalismo não pode estar nas mãos de pessoas como Slide. “Dei vida a um vilão jornalista pois é essa a minha área de conhecimento, não tinha o intuito de denegrir o jornalismo”, defendeu-se o autor.

E foi este um dos pontos defendidos por Pedro Mexia na apresentação do livro. O escritor e crítico literário salientou o seu espanto em relação ao fato de tantos jornalistas escreverem romances, no entanto poucos escreverem sobre um jornalista ou o jornalismo em si.

António José Teixeira, diretor da SIC Notícias e subdiretor de informação da SIC, caracterizou o romance como divertido, sendo em simultâneo “desconcertantemente sério”; uma história contada por vários “eus” literários, destacando-se o “eu” ditador, pois é a fonte de informação, aquele que não sabe escrever mas só descrever – ele transcreve -, e se resguarda em todo o enlace constituindo uma metáfora do jornalismo em si. Quanto à perspetiva distante e irónica face ao jornalismo presente na história, José Teixeira esclarece que não a vê como uma tentativa de desacreditar o jornalismo. Para o diretor da SIC Notícias, é uma homenagem à profissão, um sinal de esperança regeneradora.

O romance O Repórter do Kiribati é uma caricatura de todos os não jornalistas e, para além disso, uma homenagem aos bons jornalistas, sendo que o autor dedicou a obra “a todos os jornalistas sérios e àqueles que têm vergonha de não o ser”.

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