Artes Visuais e Performativas

Diálogos silenciosos, visita à exposição de Joana Vasconcelos

Os flashes das câmaras fazem-se ouvir por entre o burburinho do público. O espaço não escolhe idades: dos 8 aos 80 todos lá estão e olham, fotografam e querem ser fotografados perto de uma das várias obras de Joana Vasconcelos que se interligam com os espaços do Palácio da Ajuda. Uma arte para todos, da qual todos gostam, ideal para figurar entre os retractos de família, numa típica sala portuguesa, bem ao gosto da artista. E são estas “salas portuguesas”, com os seus panos rendados e crochés, as suas peças de bric-à-brac, que Joana Vasconcelos procura recriar num imaginário muito kitsch, onde o conceito artístico se mostra literal e linear, de fácil entendimento e percepção, tanto para o leigo como para le connaisseur.

A exposição tem sido uma adesão arrebatadora, e poucas vezes antes vista no que toca a mostras individuais de artistas portugueses. Nos seus, apenas, dois meses de existência contou com mais de 76000 visitantes. De facto, muitos são os autocarros turísticos que se amontoam às portas do palácio e que, trazendo enchentes de sexagenários em diante, criam filas intermináveis para a exposição.

A iniciativa partiu de uma parceria entre a Everything Is New, promotora de eventos musicais que se lança agora numa nova empreitada, a artista e o Estado Português, com o objectivo de promover o ex libris que é o Palácio Nacional da Ajuda e, como não podia deixar de ser, a obra de Joana Vasconcelos.

Muitas obras vieram da exposição de Versalhes, palco último da sua intervenção, não podendo deixar de contar com os seus já icónicos símbolos, como é o caso de de Marylin, Coração Independente Vermelho, O Jardim do Éden ou até mesmo A Noiva, que não deixam de ser as mais vistas e fotografadas de todo o percurso.

Outras, ainda, foram criadas especialmente para esta exposição com o intuito de uma integração plena com o espaço onde seriam colocadas. É o caso de Maria Pia, uma voluptuosa vespa azul em faiança revestida a renda. A ligação ao espaço é, sem dúvida, muito bem conseguida: é uma vespa porque, sendo aquele o quarto da rainha e, dizia-se, tinha ela um feitio muito acutilante, faz sentido; é azul porque o quarto é decorado em tons de azul; e, por fim, é em faiança e renda para dar o toque tradicional tão apreciado que valeu a Joana Vasconcelos o título de artista do momento.

É esta a característica que pauta toda a visita: a grande dinâmica da obra singular com o ambiente onde está exposta, o que é sobejamente ressalvado pela crítica. A capacidade de jogar com os diversos tempos, a criação de novas matizes e simbolismos, o diálogo constante com o espaço, são virtudes a si apontadas.

Quanto ao diálogo, este nem sempre é notado, talvez porque as obras, por serem muito novas, não tenham, ainda aprendido a falar. Têm até ao próximo dia 31 de Agosto, data de encerramento da exposição, para o fazer. Ou então recorrer à terapia da fala, provavelmente o mais acertado, não vá o caso ser sério e precisar de um especialista.

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