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Perfil // Francisco Mendes

Alentejano de gema e cristão confesso, reza todas as noites antes de dormir. As preces não chegaram para fazê-lo ingressar na Universidade Nova. Mas foi na ESCS que descobriu uma outra religião: a rádio. Dois anos depois da descoberta, é o actual director-geral da ESCS FM.

És católico?

Isso é uma pergunta complicada (pausa). Diria que sou cristão mas não sou católico. Não tenho nenhuma ligação com a igreja católica, feita por Homens. Tudo o que eles defendem, a forma como levam aquilo, os escândalos, etc., são coisas das quais não me quero aproximar. Não entro em igrejas, sequer, não faço isso. Mas tenho alguns hábitos, do género, rezar todas as noites antes de me deitar. É a última coisa que faço, todos os dias.

Mesmo assim, acredito que te tenhas sentido lisonjeado pelo Papa ter escolhido o teu nome?

Sim (risos). Já sei que agora vou ouvir essa piada até ao final do ano. Tanto que no Twitter o meu avatar é uma imagem do novo Papa, só que com a minha cara. Mas sim, fiquei muito lisonjeado, já fazia falta. Com tantos anos de Igreja e não havia um único Papa que fosse Francisco. Imperdoável…

Consideras-te o Papa Francisco da ESCS FM ou preferes a faceta de führer?

Nem uma nem outra. Não mando sozinho. Felizmente, tenho uma grande equipa a trabalhar comigo, o que torna tudo muito mais fácil. E são muito poucos os momentos onde preciso de impor uma autoridade explícita. A autoridade é imposta tão implicitamente, as coisas fluem tão bem, que eu não preciso de dizer alguma coisa. As pessoas cumprem naturalmente. É como no futebol: quando se contrata um treinador, diz-se que o treinador é bom porque é disciplinador.

Achas que também és disciplinador?

Eu acho que sou disciplinador. Normalmente as pessoas dizem disciplinador com um sentido pejorativo – com a ideia rigoroso e austero – mas para mim uma pessoa disciplinadora é uma pessoa que não arranja problemas. Arranja antes forma de não haver problemas.

Pondo de parte a igreja, a rádio a tua “religião”?

É uma delas, sim. Tenho outros interesses, obviamente. Mas a rádio, em termos profissionais, é aquilo que eu quero seguir, sem dúvida.

Antes da faculdade, já tinhas tido alguma experiência de rádio?

Não. Sempre tive um fascínio enquanto ouvinte, mas nunca tinha experimentado.

Como surgiu o projecto ESCS FM?

Eu tinha acabado de entrar na ESCS. No meu 1.º semestre, houve uma sessão de inauguração da ESCS FM. Eu assisti, meio por acaso. Estava a passar no corredor e acabei por ficar a ouvir aquilo. E a verdade é que fiquei interessado em experimentar. Até porque era um projecto que estava a começar. Mais um aliciante: ajudar a construir as coisas de início. Acabou por não ser possível, na altura, entrar no 1º semestre (a ESCS FM não estava na altura a aceitar caloiros). Mas entrei logo no 2º semestre.

E agora, dois anos depois. É uma responsabilidade estar à frente de um projecto que viste nascer?

É uma grande responsabilidade. Há quem lhe chame “poder”, mas não o vejo como poder. Vejo antes como responsabilidade. É uma responsabilidade em criar condições para que toda a gente possa usufruir da rádio e para que toda a gente possa ganhar formação através da rádio. E é também uma responsabilidade perante a própria direcção, para que o projecto em que eles acreditam se mantenha “como é suposto”.

Sentes algum tipo de “espírito de missão”?

Não o vejo como espírito de missão. Mas não tenho a mínima dúvida de que faço isto porque gosto. Gosto muito. Outra religião que tenho talvez seja também esta: liderar projectos.

Para além da ESCS FM já tinhas tido alguma experiência onde fosses também o líder?

Não, apenas coisas de menor dimensão: já tinha sido delegado de turma, já tinha liderado uma organização online

Mas sempre ciente dessa noção de disciplina de que falavas?

Sempre. Por exemplo, sempre que havia um problema com alguém na minha turma, ou um conflito entre duas pessoas, sempre fui eu a dar o passo em frente e a ajudá-los a resolver.

Como mediador?

Um pouco por aí. Mas o que me dá realmente prazer é mais esta faceta de liderar equipas.

Controlar o trabalho de mais 90 pessoas provoca-te muitas dores de cabeça?

Algumas… Perde-se muito tempo que podia ser gasto para nosso proveito pessoal, por exemplo. De vez em quando, há problemas, como é óbvio. Desencontros e falhas que precisam de ser resolvidos rapidamente. Todo esse tipo de coisas acaba por criar algumas dores de cabeça, porque exige uma resposta rápida. Mas, por outro lado, estas “dores de cabeça” são autênticos desafios. E a piada está em conseguir contornar isso e fazer com que as coisas andem para a frente, independentemente dos problemas que surjam.

Actualmente com mais de 90 membros, a verdade é que a ESCS FM tem crescido a olhos vistos no passado recente. Evolução natural ou caso de sucesso?

Quando falo do sucesso que a ESCS FM tem tido, é bom que se percebam duas coisas: uma é que o sucesso não é eterno. Não quero estar a ser pessimista, mas tenho de alertar as pessoas do 2º ano e os próprios caloiros que têm de ser eles a assumir um projecto, porque daqui a poucos meses nós, de 3º ano, vamos embora. É por isso que digo que o sucesso é efémero. Mas também tenho de reconhecer que este sucesso não é responsabilidade inteiramente minha ou de quem está agora à frente da ESCS FM. Há um trabalho estrutural, feito antes, que contribui muito para isso. É como se o terreno tivesse sido semeado, e eu agora só precisasse de plantar a semente.

Achas que no próximo ano, a rádio fica bem entregue?

A rádio está muito bem entregue! Sem querer desprezar as gerações anteriores, a próxima geração é, provavelmente, a geração mais forte em termos de envolvimento com o projecto. Eu lembro-me que a geração fundadora tinha umas 10 pessoas. A geração em que eu entrei serviu para consolidar, mas foram apenas mais 15 novas pessoas. E temos agora uma geração com 30 pessoas que entraram e se mantiveram. E a forma como eles se envolveram no projecto permitiu-lhes criar essas tais estruturas e agora só têm de as manter.

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O que distingue a ESCS FM dos outros núcleos?

Há uma diferença clara: nós temos conteúdo diário. Não é melhor nem pior, é apenas uma diferença. Nós temos um espaço que temos de preencher todos os dias. Os outros núcleos têm um espaço semanal ou até mesmo ocasional. E isto é uma diferença importante porque faz com que as pessoas façam, desde logo, uma selecção. Quem não gosta do projecto não consegue estar a sacrificar parte do seu tempo, todas as semanas. Chega a uma altura em que acabava por aborrecer e sair.

Mas achas que selecção faz com que a ESCS FM se torne num núcleo muito virado para si mesmo, como muita gente afirma?

Não se pode dizer isso. Desde logo, porque somos 92 pessoas. E ver tantas pessoas viradas para si mesmas seria impensável. Claro que é natural (também acontece com a Tuna, com o NAV, com a ESCS FM, com as turmas, com os professores) haver pessoas que trabalhem juntas e que tenham tendência a, fora do local de trabalho, se relacionarem mais com pessoas com quem se identificam. Agora, é importante que se saiba que quem quiser entrar não vai sofrer qualquer tipo de “apartheid”, nem de afastamento. Nós recebemos bem as pessoas. Prova disso, é que tínhamos 40 pessoas em Setembro e agora temos 92. Se essas 50 pessoas que entraram não tivessem sido bem recebidas, agora, em Março, já não estariam cá.

No final de contas, a ESCS FM é a rádio do IPL, certo?

Não sei. Isso partiu do presidente do IPL, que gostava que a ESCS FM fosse a rádio do IPL. Na verdade, não considero que essa seja a nossa principal preocupação.

Mas a verdade é que poucos sabem disso…

Claro, mas eu preocupo-me mais com o serviço que a ESCS FM presta, aos alunos, aos que ouvem e aos que fazem a ESCS FM, do que propriamente quem é que a ESCS FM representa. Se somos a rádio do IPL, se somos a rádio da ESCS, se somos a rádio da AE… Não sei dizer. Pertencemos à AE, obviamente. Mas não posso garantir nada. O que posso dizer é que os nossos conteúdos são virados, em primeiro lugar, para a ESCS. Depois, num âmbito mais alargado, o IPL. Depois o núcleo universitário. E assim é que faz sentido, para mim.

Aumentar ainda mais o número de membros, é a principal meta para o futuro?

O objectivo passa um pouco por aí. Ainda há muito por fazer.

Que tipo de coisas por fazer são essas?

(Pausa) O que acho que tem falhado mais na rádio tem sido a ausência de formação. Temos dado algumas, mas há formações que gostávamos de ter, mas já que não somos uma associação de fins lucrativos, as pessoas à borla não vêm trabalhar. Gostávamos de ter um workshop de dicção, por exemplo…

Não há esse apoio por parte da escola ou da Associação de Estudantes?

Foi uma coisa que nunca foi pedida, porque não faz, sequer, sentido fazê-lo. Por ser a escola, obviamente, não vai gastar dinheiro com isso. Senão teria de gastá-lo com os alunos todos. E depois coloca-se a mesma questão: de que forma, apesar de ser a ESCS, é que alguém vem dar formação sem estar a receber?

Quanto a ti, a poucos meses do final do curso, a rádio é a prioridade?

Não o vejo como uma prioridade, porque entrar na rádio não é algo fácil.

Mas esta experiência na ESCS FM deu-te bagagem…

Sim, claro. Deu-me bagagem a mim e a todos os que por aqui passam e que partem com vantagem em relação à maioria das pessoas que vão concorrer com elas no mercado de trabalho. Mesmo assim, a oferta é pouca e a procura é muita. O que me vai dar algumas dificuldades. Se surgir Alguma oportunidade, nem penso duas vezes. Vou para a rádio, seja para informação, seja para o entretenimento.

Que géneros do jornalismo gostavas de experimentar?

Para além da rádio, não consigo encontrar nada que me satisfaça assim tanto. Caso não consiga arranjar um emprego rapidamente, certamente tenho de arranjar uma solução, nem que passe por criar o meu próprio projecto e tentar avançar com ele.

Consideraste empreendedor?

Não sei se o sou porque nunca fui posto à prova nesse sentido. Confio, claro, nas minhas capacidades e sei que a oportunidade haverá de chegar, mais cedo ou mais tarde. E com a experiencia que adquiri aqui, sei que no dia em que essa oportunidade chegar a vou agarrar. E é nisso que aposto.

Se voltasses atrás, farias tudo da mesma forma?

Tudo, certamente não. Há coisas que olho para trás e que reconheço que foram erros. Sinto orgulho no trajecto que fiz, quer académico, quer “profissional”. Isto fora de contexto pode soar mal, mas sempre fui uma pessoa que se destacou das restantes. Modéstia à parte (risos). Mas é importante que as pessoas reconheçam este tipo de coisas, se as sentirem. Um caso, é quando uma pessoa não sente aquilo que está a dizer, outro caso é o meu, em que acredito no meu valor e que sempre me destaquei. Se os outros me olham para mim como sendo distinto dos demais, isso já não sei.

Fotografia: Raquel Rebelo

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