Literatura

Realismo Mágico

O realismo mágico surge no século XX e é associado a obras latino-americanas de autores como Arturo Uslar Pietri (considerado o pai do realismo mágico), Jorge Luis Borges, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo e Mario Vargas Llosa, autores estes que viriam a formar o boom da literatura latino-americana.

Independentemente da existência de escritores ligados ao realismo mágico em diversas partes do mundo, esta corrente está indubitavelmente concentrada na América Latina e é associada ao desenvolver de uma tradição literária específica: a coexistência de dois mundos, o real e o mágico; a união entre dois extremos, sem que tal constitua um absurdo; a simbiose entre o racional e o irracional. A componente mágica é integrada no quotidiano e encarada como parte da realidade material.

O realismo mágico desenvolveu-se a partir da discrepância entre uma mais recente cultura tecnológica e uma cultura de superstições, tão características da América Latina. Também Gabriel García Márquez aborda este tema no artigo «Fantasía y creación artística en América Latina y el Caribe» quando afirma não existir vocabulário suficiente em espanhol para expressar a realidade da América Latina e que essa insuficiência é tão sentida hoje como ontem. Defende assim a necessidade de criar um sistema de novas palavras «para el tamaño de nuestra realidad», sistema esse que expresse a multitude do mundo latino-americano e dê voz a essa riqueza.

Gabriel García Márquez ocupa uma posição de destaque no panorama do realismo mágico, tanto pela repercussão mediática que a sua obra teve no mundo como pela forma como esta é paradigmática deste movimento. Cem Anos de Solidão representa um papel absolutamente central na sua obra – não esquecendo o seu impulso para o boom da literatura latino-americana e para o próprio realismo mágico. Os personagens da obra vivem sob constantes  e estranhos acontecimentos: chuva de flores amarelas, personagens que ascendem aos céus, personagens que morrem e voltam à vida, leis estapafúrdias como a que obriga a pintar todas as casas da cidade de azul. No entanto, atendendo às particularidades desta forma de expressão escrita, tais acontecimentos não causarão estranheza nem às personagens nem ao próprio leitor.

Também na literatura Saramaguiana, em obras como Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, se encontram elementos fantásticos próprios do realismo mágico. Numa entrevista a Manuel Gusmão, Saramago afirma ser mais realista que todos os romancistas, mesmo apresentando nos seus livros coisas fantásticas. Isto porque os dois universos se interligam, não existindo uma contradição entre eles: como se uma teia fluísse entre dois mundos, talvez até apenas um. Em 1984, Saramago declara: “Gostaria que o leitor circulasse entre o real e o imaginário sem se interrogar se aquele imaginário é imaginário mesmo, se o real é mesmo real, e até que ponto ambos são aquilo que de facto se pode dizer que são. Podemos sempre distinguir o real e o imaginário. Mas o que gostaria é de ter criado um estado de fusão entre eles de modo a que a passagem de um para o outro não fosse sensível para o leitor, ou o fosse tarde de mais – quando já não pode dar pela transição e se acha já num lado ou no outro, vindo de um ou outro lado, e sem se aperceber como é que entrou”. Trata-se então de um coadunar de diferentes partes num todo só “não o fantástico pelo fantástico, mas o fantástico enquanto elemento do próprio real e integrando-se nele” É então praticamente consensual a existência de um diálogo entre a obra de José Saramago e a literatura latino-americana, embora o escritor nunca tivesse abordado o tema ou assumisse a sua leitura.

Não sendo latino-americano e não se estando a referir particularmente ao realismo mágico, José Saramago encontrou o que me parece ser uma boa visão desta corrente literária “Não acredito em magias ou feitiços de espécie alguma. Mas se somos todos diferentes, uns mais morenos do que outros, uns mais inteligentes do que outros, também posso conceber que haja pessoas que vêem o mundo como se estivessem simultaneamente dentro e fora dele”*

*Afirmação de José Saramago, numa entrevista de 1986.

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