Literatura

Milan Kundera – A arte de desassossegar

Falar de Milan Kundera é falar de surrealismo real e de questões que são a própria resposta. A temática do autor não vive na contradição, mas é, per si, a sua própria resolução. É neste terreno que Kundera se move, se experimenta e nos experimenta. Fala da gente e das gentes em tom provante e confrontativo, levantando o véu daquilo que parece não ter camadas, e reduzindo a insignificância aquilo que, à partida, poderia deixar o nosso pensamento dormente. Kundera vira do avesso os princípios mais elementares da nossa vivência.

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/blogs/babel/wp-content/uploads/sites/110/2014/03/kundera.jpg?fbclid=IwAR1OobQSvv6AQ5wiPh658E5ncRDGhG3eFoWAiwlpmpj7cqhZ90oqSxvVPn4~

Não é fácil falar de Milan Kundera e reduzi-lo a meia dúzia de categorias, técnicas, características e idiossincrasias. Nascido na República Checa (à época parte da Checoslováquia) a 1 de abril de 1929, o autor tem oitenta e nove anos e já escreveu uma dezena de romances, quatro ensaios, três livros de poesia, um conto e uma peça de teatro. É nesta linha temporal que podemos entender que o curriculum de Milan Kundera é tão vasto quanto o seu malabarismo literário e capacidade metamórfica. Por isso, correndo o risco de fazer deste artigo uma avaliação altamente redutora, foquemo-nos no que Milan Kundera transpõe para os seus romances – o seu género literário de excelência – e esqueçamo-nos do resto.

O autor checo é perito em falar de moralidade. Não o faz de uma forma castradora, nem procura impor ditames de bons costumes. Fá-lo de forma desafiadora, abre uma janela de perguntas ao leitor e questiona ações tão elementares quanto necessárias para se ser um ser humano comum.  “Logo começo do Genesis está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Genesis foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. (…) Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia.” (p. 220, A Insustentável Leveza do Ser) Kundera põe em causa os princípios da própria moral judaico-cristã, não por ser judaico-cristã, mas por ser a moral vigente, que rege a conduta social dos agentes que se limitam a interagir sem qualquer tipo de segunda interpretação.

A narrativa in media res de Milan Kundera permite que se descubra a chave da ação e o porquê da postura que as personagens adotam. Se numa primeira instância, o autor relata os factos de forma tão objetiva que é quase cinematográfica, num segundo fragmento de texto sobre a mesma ação explica o porquê de os intervenientes terem praticado um certo predicado. Entre o salto cronológico destas duas fases, reside a instância de suspense ou de falsa crença de que a significância das ações se resumiu ao seu relato básico. “Tomas aparece no restaurante precisamente no momento em que a rádio está a dar Beethoven. Na sua imensa maioria, este tipo de coincidências passa totalmente despercebido. Se o homem do talho tivesse vindo sentar-se a uma mesa do restaurante em vez de Tomas, Tereza não teria reparado que a rádio estava a dar Beethoven (embora o encontro de Beethoven com um homem do talho também não deixe de ser uma coincidência interessante). Mas o amor a nascer aguçou-lhe o sentido da beleza e, por isso, nunca mais esquecerá essa música. Sempre que a ouvir, há de sentir-se comovida. Tudo o que se passar à sua volta nesse instante ficará aureolado com o brilho dessa música e será belo.” (p. 42, A Insustentável Leveza do Ser). É nesta associação de ideias que o escritor nos ajuda a montar as peças do puzzle cognitivo de um sentimento tão banal como o de sentir atração por alguém. A personagem Tereza estava tão vidrada na presença de Tomas, que cristalizou o momento do seu primeiro encontro e julgou como consequências cósmicas e felizes todos os fatores que a sua sensibilidade emocional conseguiu captar.

O questionamento de ações serve de pretexto para tocar na ferida do eterno retorno, que se sustenta pelo mito de Sísifo e pela ideia que de os sujeitos estão sempre a praticar as mesmas ações mesmo que sem intenção. E como se a impotência humana não fosse suficiente, Kundera diz-nos ainda, e de forma cientificamente inegável, que a vida é como uma peça de teatro onde não há segundas oportunidades e é impossível rejeitar com confiança uma hipótese nunca testada. “Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É o que faz com que a vida pareça sempre um esquisso. Mas nem mesmo ‘esquisso’ é a palavra certa, porque um esquisso é sempre o esboço de alguma coisa, a preparação de um quadro, enquanto o esquisso que a nossa vida é, não é esquisso de nada, é um esboço sem quadro.” (p. 3, A Insustentável Leveza do Ser).

Fonte: https://vo.wikipedia.org/wiki/Milan_Kundera

É neste mundo repleto de esoterismo que se instala o clima perfeito para que Kundera faça proveito de todo o tipo de metáforas. Elas não se limitam a conotar abstratamente as peripécias, mas atuam também na descrição surrealista das ações comuns. É o que acontece num excerto da obra A Festa da Insignificância, que retrata um momento de lembrança de uma personagem cuja mãe morreu. A mãe da personagem não é corpo presente, mas tem uma carga emotiva tão grande que o autor faz questão de a retratar como se o fosse. O mesmo acontece quando a personagem Tereza, d’A Insustentável Leveza do Ser pondera suicidar-se. “Ela já tinha perdido a coragem toda. Sentia-se desesperada com a sua fraqueza, mas não conseguiu dominá-la. Disse: ‘Não! Não é de minha livre vontade!’ O homem baixou imediatamente o cano da espingarda e disse, com toda a calma: ‘Se não é de sua livre vontade, não podemos fazê-lo. Não temos esse direito.’”. (p. 116) Nesta cena, a personagem que pretende acabar com a própria vida sobe a um monte e escolhe uma árvore com um carrasco para se matar, mas não chega a morrer porque não está certa da ação que está na eminência de praticar. O suicídio é uma escolha tão pessoal – muito mais pessoal do que a própria continuidade vida – que Kundera escolhe retratá-lo de forma romanticamente desafiadora. Por outras palavras, só se atravessa para além do abismo quem tem a certeza de que o quer fazer.

Os livros de Milan Kundera orbitam, assim, em torno de uma série de conceitos. Alguns são gigantes e caiem por terra. Outros são tão pequeninos quanto sementes que plantadas podem erguer edifícios ideológicos de estrutura firme. Sirva de exemplo o kitsche – a aura plástica de folia em torno da arte barata ou da política populista. “A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não teve uma conotação ética, mas estética. Mais do que a fealdade do mundo comunista (os palácios convertidos em estábulos, por exemplo), o que lhe causava repugnância era a máscara de beleza com que ele se cobria, ou, por outras palavras, o kitsch comunista. O modelo mais acabado desse kitsch é a chamada festa do 1º de Maio.” (p. 190, A Insustentável Leveza do Ser). De relembrar que o autor fugiu da, à época, Checoslováquia para França, por questões políticas relacionadas com o regime opressor do país nos anos 70, sob a alçada da URSS.

Ainda no mote dos conceitos trabalhados por Kundera, pode-se falar do amor e das leis da atração. Que tipo de distorção atómica ou concordância rítmica faz alguém amar alguém? Que tipo de cânone físico excita um ser humano? Qual é a fronteira do sexo e apego emocional? “O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).” (p. 14, A Insustentável Leveza do Ser)

As perguntas não se ficam por aqui e tocam em temas tão elementares quanto a distinção entre o fardo das obrigações e a necessidade de ser delineado pelo contorno das mesmas obrigações. “O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.” (p. 94, A Insustentável Leveza do Ser).

Kundera deixa perguntas no ar, mas dá, de facto, respostas. Resta o leitor saber se as quer receber ou não. E é nesta atmosfera que jaz a sua essência, onde fagulhas de pó podem gerar turbilhões de vento e onde ideias simples se sepultam em terrenos complexamente pantanosos, mas cheios de potencial agonístico. A crise existencial e a demanda no escuro são a alavanca para a epifania.

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