O que muda num segundo

Há um mês atrás eu tive uma das minhas experiências mais traumáticas. Começo assim, destacando a primeira pessoa, eu. E é por atitudes assim que a dita tragédia se deu.

No dia 16 de janeiro, eu voltava para casa tranquilamente. Mais um dia de faculdade, portanto mais um dia de transportes públicos. Andava por Lisboa como quem nem está ali: prestando atenção na música que ouvia, não no lugar onde estava ou nas pessoas ao meu redor. Como já me disseram várias vezes, é mais fácil viver dentro da nossa cabeça.

Entrei no comboio, tão bem como alguém pode estar num inverno à beira-mar. As chuvas dessa época grudam na nossa pele e chegam a invadir o nosso humor. Olhava para o meu celular com a maior concentração, como se a minha vida dependesse em escolher a música perfeita. Temos essa tendência a só olhar para essa pequena tela, mesmo quando ela está apagada. Nosso reflexo no espelho preto é mais interessante do que o mundo ao redor.

Faço o mesmo caminho todos os dias, ou melhor dizendo, faço-o o suficiente para saber quanto tempo há entre uma estação e outra. O comboio fez a segunda paragem, ao que seguiríamos no nosso caminho, intactos. Os dois minutos usuais passaram. Foram mais cinco, seis e vários mais. Como se a bolha estivesse estourado para mim e outros passageiros, ficou claro que havia algo errado. A imediata reação é pensar: justo hoje, justo agora, justo comigo.

Eu não iria sair do meu vagão, pois acreditava que se tratava de um mínimo defeito e queria que aquilo tudo fosse resolvido, mais do que queria saber qual era o problema. Umas duas pessoas, entretanto, abriram as portas. Suas feições tinham um ar de tristeza, mas sem um pingo de surpresa. Aquilo infelizmente era frequente, logo não indignava muitos.

Também saí, esperando que falassem ter sido uma falha técnica qualquer. Sabia era que me poria a andar. A situação toda havia tomado o meu tempo – minutos, mas vocês sabem como são as pessoas quando estão cegas por suas rotinas. Olhei na direção dos agentes e responsáveis, que alertavam a quem saía “por favor, não venham nem vejam”. Tarde demais.

Um senhor, filho de alguém, amigo de outros, encontrava-se ali no chão. Tanta imundice o envolvia e, provavelmente, também sentia-se cercado por fuligem antes de tomar essa decisão. É mais fácil viver nas nossas cabeças, mas é infernal quando não conseguimos deixá-la. Às vezes basta que nos estendam uma mão, ou talvez mais que isso. Estamos sempre tão preocupados com o quanto nos custa, especialmente quanto tempo nos vai tomar. Qual é o preço de uma vida? Antes de chegar ao ponto de não poderes fazer mais nada, há dezenas de chances de ajudar. Não esperes pelo momento final.

Entender o que alguém sente é difícil. Por vezes nem sabemos o que é que nós mesmos estamos a sentir. Existem dezenas de formas, entretanto, de socorrer alguém. Escutar e estar ao seu lado, por exemplo, é um ótimo lugar para começar. Um pouco mais de atenção em como a pessoa está, pode dar-te todos os sinais. Sim, sinais, porque nem sempre quem sofre sequer sabe que precisa de ajuda.

Posso te dizer que, tendo eu os meus problemas, como qualquer um de vocês tem os vossos, o choque de acordar foi tão forte que me deixou em pânico. Prometi a mim mesma que sairia da minha bolha, que pediria apoio, que estaria presente, que falaria sobre as coisas. Acima de tudo, prometi que seria grata por cada dia.

Artigo revisto por: Beatriz Pardal

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