The Show Mustn’t Go On

Tudo começou com cavalos. Nas arenas da Roma Antiga não só decorriam combates entre gladiadores como também decorriam espetáculos equestres. Serviam para entreter a multidão, podendo ser considerados a primeira forma de circo. Ao longo de todos estes anos, outras formas foram desenvolvidas. Em pleno século XXI, continuamos a recorrer a animais como meio de entreter as massas.

Em Portugal, há, finalmente, medidas a serem tomadas. A Assembleia da República aprovou, no passado mês de outubro, o fim do uso dos animais selvagens no circo. Deste modo, os circos em território nacional têm seis anos para inventarem novos truques que não envolvam animais selvagens. Se, ao fim destes seis anos, ainda fizerem os seus espetáculos depender destes animais, serão devidamente punidos. Aquilo que os circos terão de fazer é entregar os animais às autoridades antes do final do prazo e, até lá, eles devem estar registados num cadastro nacional. Contudo, ainda prosseguem mais seis anos a torturá-los. Seis anos em que diversos animais terão de continuar a suportar os abusos de que têm sofrido desde os tempos romanos.

Esta lei não abrange os animais domésticos. Os circos em território português continuarão a poder realizar espetáculos com cães, gatos e cavalos. Há que passar à próxima fase: erradicar o uso de quaisquer animais. Mas há ainda muitos países que não adotaram quaisquer leis que restrinjam o uso de animais em circos.

A medida da Assembleia da República suscitou críticas e foi acusada de ser discriminatória e incongruente. «Não podemos ter animais no circo, mas uma águia pode voar para 60 mil no Estádio da Luz», diz o representante do circo Victor Hugo Cardinali, Gonçalo Dinis. Não lhe tiro a razão: os circos não são a única plataforma que se serve dos animais para a obtenção de lucro e de espetadores. Existem feiras medievais; existem espetáculos no Jardim Zoológico ou no Zoomarine; existem touradas. Small steps – uma coisa de cada vez. Talvez a proibição de animais selvagens nos circos seja o primeiro passo para a erradicação do uso dos bichos para o nosso divertimento.

Cada vez mais existe, corretamente, uma onda de protestos contra as demonstrações animalescas nestas “tendas”. São estes protestos que mudam o modo de fazer as coisas. É a indignação popular que cria leis contra a exploração animal. É a nossa indignação que liberta estes pobres coitados do sofrimento constante.

Alguns destes animais inocentes chegam mesmo a nascer no circo. Isto equivale a uma vida inteira sem viverem. Sem terem aquilo para que nasceram, na savana, na floresta, ou até em campos. Existem animais domésticos, ou seja, domesticáveis. Aqueles que não pertencem a esta categoria não têm as condições necessárias para serem sujeitados a qualquer tentativa de mudança do seu comportamento por parte de humanos. E mesmo os animais domésticos, como cães ou gatos, estão melhor em casa com os seus donos do que a realizarem o mesmo truque sistematicamente, dia após dia. Quem sabe a que custo.

Talvez não seja comum vermos focas, pinguins, ursos, macacos, camelos, hipopótamos, rinocerontes, crocodilos, serpentes e avestruzes nos circos em Portugal. No entanto, eles existem. Tentem parar um bocado para pensar no que será preciso fazer para levar um crocodilo a obedecer a ordens; para confinar hipopótamos e rinocerontes num recinto estreito, rodeado por uma multidão barulhenta. Não é difícil concluir que toda esta persuasão não é levada a cabo de forma paciente, cuidadosa ou carinhosa.

Os conhecidos “animais de circo” vivem em jaulas, onde fazem as necessidades e onde comem. São pocilgas com condições inaceitáveis. Tudo isto mexe com a sua cabeça: apresentam sinais de depressão, chegando mesmo a automutilar-se, devido a todo o stress que sentem. São forçados a fazer coisas que vão contra a sua natureza e são transportados de um lado para o outro, em jaulas, sem espaço para brincar, correr, ou fazer aquilo que é suposto os animais fazerem – viver, no sentido literal da palavra.

Como é óbvio, a opção de integrar animais selvagens em circos tinha de dar para o torto. Já foram mortas pelos mesmos onze pessoas e 86 foram feridas. No entanto, por alguma razão, continua a achar-se que é boa ideia explorar estes animais, que, logicamente, têm instintos selvagens e acabam por atingir o ponto de saturação. Puxam-lhes a cauda, pontapeiam-nos, picam-nos, dão-lhes choques, gritam com eles, e, eventualmente, eles procurarão vingança. E com razão.

Os animais não fazem estes truques porque querem. Não retiram daí nenhum prazer. Fazem-no porque têm medo daquilo que irá acontecer caso contrário. Os elefantes não se apoiam nas suas patas dianteiras porque estão cansados de andar em quatro patas; os felinos não saltam por dentro de anéis em fogo por terem frio; não tentam balançar-se em cima de bases por quererem treinar o seu balanço; os macacos não andam vestidos de palhacinhos porque acham piada; os ursos não se apoiam nas suas cabeças porque querem fazer o pino.

Ainda este mês, fui ao Circo de Natal no Coliseu dos Recreios. Diverti-me e consegui captar a magia do circo. Para isto, não precisei de ver animais no recinto. “Isto sem animais não tem piada”, dizem muitos. O que não tem piada é andarmos há séculos a explorar animais e a submetê-los a condições vergonhosas. Isto para que ‘achemos piada’. É preciso entender que quem frequenta circos que ainda usam animais está a apoiar a crueldade animal. Está a privar um macaco de andar nas lianas. Está a subjugar um leão a uma vida inteira numa jaula, sem sequer saber o que é uma savana. Está a condenar um elefante a uma eternidade de choques elétricos e de ferimentos com coisas pontiagudas. Está a apoiar tortura animal.

Até quando vamos achar aceitável o uso de animais para a obtenção de lucro e para o entretenimento das massas? Não é mentira que, entre um circo com atuações de animais e um circo sem elas, os papás vão levar os filhos a ver os ‘nimais’. Isto não é correto. As crianças não se apercebem do horror que acontece atrás das cortinas, mas os seus pais têm o dever de reconhecer esta crueldade. Chega de virar a cara ao abuso! Eu mesma, quando era pequena, fui várias vezes a circos com animais. Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que não adorava. No entanto, hoje, com dezanove anos, sei distinguir o certo do errado. Isto é errado: https://www.youtube.com/watch?v=6F-To1XZf0w

A vida real não é como o filme Dumbo, em que o elefante bebé é chacoteado por ter orelhas com um tamanho fora do normal. Na vida real, os elefantes não voam, pois, se voassem, voavam dali para fora. Contudo, não deixam de ser curiosos os paralelos que o filme estabelece com a realidade: podemos ver a sua mãe chicoteada, picada e isolada pelos domadores após ter tido um ataque de raiva contra as crianças que ridicularizavam o seu bebé; ganhamos noção de quão apertados os animais ficam nas suas jaulas, de como os animais são explorados e levados a realizar trabalhos pesados. No filme, são os próprios animais quem montam o circo. Com este filme, apercebemo-nos de como os animais servem para o regozijo do público. No mesmo, o pequeno elefante interpreta o papel de palhaço de circo. Onde é que eu já vi isto?

O problema é que a vida real não tem finais felizes. Não tem filhotes a reencontrarem os pais, não tem ratinhos faladores que consolam, não tem elefantes voadores. Na realidade, as crias são separadas dos seus pais e crescem num ambiente de trabalho forçado, de abuso e de infelicidade. Deixo-vos uma imagem do novo filme do Dumbo, que sairá em 2019, desta vez realizado por Tim Burton. Quiçá este retrate melhor o sofrimento animal e leve as pessoas a entender que a vida real não é como nos filmes.

Corrigido por: Catarina Gramaço

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