António Filipe: “Esperança que quer sair da espera”
As eleições presidenciais de 2026 estão mesmo ao virar da esquina. Com o novo ano prestes a começar, a ESCS Magazine, a ESCS FM e o E2 voltam a conversar com os candidatos ao mais alto cargo da República Portuguesa.
Desta vez, o foco recai sobre António Filipe, figura experiente da vida política portuguesa, nomeadamente do Partido Comunista Português (PCP), que assenta a sua candidatura numa ideia simples e exigente: recentrar o papel do Presidente da República num país marcado por desigualdades profundas, frustrações acumuladas e tensões democráticas crescentes. O seu lema — “a esperança que não fica à espera” — resume uma visão de Presidência interventiva, consciente e atenta às preocupações reais dos portugueses.
Esperança que mobiliza
António Filipe insiste que a esperança não é um enfeite retórico, mas um compromisso de ação. “Temos de lutar por aquilo em que acreditamos. (…) Quem só espera não alcança”, afirma. A sua candidatura nasce precisamente da perceção de que muitos portugueses vivem num ciclo de frustração e desespero. Para o candidato, as eleições presidenciais devem funcionar como um catalisador para recuperar a confiança e devolver voz a um país que se sente cansado, mas não resignado.
Presidente não governa, influencia…
Com clareza, distingue o papel do Presidente da República do papel do Governo. “O Presidente da República não só não governa o país, como também não é legislador. Tem outro papel”. Esse papel assenta na magistratura de influência, sustentada pela legitimidade direta do voto popular – tem de obter maioria absoluta.
É essa legitimidade que permite intervir, influenciar e zelar pelo cumprimento da Constituição, sempre dentro dos limites institucionais. Cumprir e fazer cumprir a Constituição é, para António Filipe, o centro da função presidencial.
Democracia sob tensão
A leitura que faz do estado democrático é séria, mas sem dramatismos artificiais.
“Estou preocupado com o estado da nossa democracia, com a dificuldade que as pessoas têm na sua vida e com o facto de haver alguém que quer culpar a Democracia por isso”.
Lembra a hegemonia da direita nos órgãos de soberania e a consequente composição de outros órgãos do Estado que advenham da referida hegemonia por eleição direta parlamentar – Provedor de Justiça, por exemplo – e recorda Mário Soares: os portugueses nunca quiseram “colocar os ovos todos no mesmo cesto”.
Para o candidato, a ascensão da extrema-direita “fascizante, racista e xenófoba” exige resposta firme, mas democrática, com a tolerância a assumir preponderância:
“Os problemas da democracia resolvem-se com mais democracia”.
Diálogo num Parlamento dividido
Com a Assembleia da República repartida em três grandes blocos, o próximo Presidente terá de mediar o diálogo entre forças, muitas vezes antagónicas, presentes na Parlamento.
“O Presidente da República tem de conviver com a composição que o povo português lhe atribuir”.
Simultaneamente, garante que fará tudo para evitar que a extrema-direita chegue ao Governo, defendendo que seria um “grande retrocesso em termos democráticos”, caso isso acontecesse. O compromisso democrático deve sobrepor-se aos cálculos conjunturais e o Presidente da República deve ser um fator de estabilidade institucional.
Trabalho e salários: o nó por resolver
Entre os pontos mais fortes da candidatura está a pasta do trabalho.
“Não me conformo com milhões de trabalhadores que não levam 1000 euros para casa ao fim do mês”.
Para reforçar o comumente conhecido, António Filipe recorre à comparação com Espanha: o custo de vida é semelhante, mas os salários são bastante mais elevados. Para si, esta disparidade alimenta um dos maiores dramas nacionais: jovens qualificados que abandonam o país. “Compromete o futuro de Portugal”. Para isto, como para tantos outros dramas laborais, a solução é pragmática: “pagar melhor”. No setor público e no privado, o candidato acrescenta que se deveria valorizar a contratação coletiva, travando a erosão dos direitos laborais.
SNS: entre a urgência e a rutura
Sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), António Filipe é perentório: a situação tornou-se “insustentável”, com episódios impensáveis no século XXI a tornarem-se o novo quotidiano — urgências fechadas, bebés a nascer em ambulâncias, entre outros. Critica ainda a transferência de recursos públicos para o setor privado, referindo que esta mentalidade e forma de fazer política está “ao contrário” do que deveria ser. Para si, o caminho é claro: devolver prioridade e capacidade ao SNS enquanto garantia do direito à saúde.
Habitação: o problema não é falta de casas
No tema da habitação, a análise é igualmente direta: “O que nós temos é falta de casas que as pessoas possam pagar”. O candidato, apoiado pelo PCP, critica a liberalização do mercado do arrendamento, a “turistificação” dos centros urbanos e a falta estrutural de habitação pública e a sua má gestão, que assume o expoente máximo nas “muitas casas devolutas” existentes. Para fazer frente às dificuldades da Habitação, António Filipe, defende que o Estado deve atuar em três eixos:
- Promover habitação pública;
- Regular de forma firme, aumentando a estabilidade para arrendatários e colocando limites ao valor de rendas a serem pagas;
- Limitar os lucros da banca, no que concerne ao crédito à habitação.
Apenas desta forma a relação entre rendas, salários e crédito será reequilibrada.
Nunca percam a esperança!
No fecho, António Filipe regressa ao lema que marcou a sua entrada na corrida: “a esperança que não fica à espera”. Uma esperança ativa e exigente, capaz de renovar a crença “que muitos portugueses perderam nos últimos anos” num Portugal mais capaz e competitivo.
Fonte da Capa: E2
Artigo revisto por Eva Guedes e Mariana Ranha
AUTORIA
Atualmente, colaborador da agência de comunicação e publicidade “VML”, na account da Microsoft, e responsável pelas pastas de «Apoios e Parcerias» e «Voluntariado» de uma entidade do terceiro setor - LABIT&E -, o Tiago frequenta o primeiro ano da licenciatura de Relações Públicas e Comunicação Empresarial. Formado em Artes do Espetáculo - Interpretação, pela Escola Profissional de Teatro de Cascais, iniciou a sua atividade profissional, fundando e presidindo uma associação sem fins lucrativos - Associação Sócio-Cultural e Artística Sem Tábuas -, uma entidade que utilizava a cultura e arte como ferramentas de desenvolvimento em contextos de bairros sociais, hospitais e escolas. Após 8 anos desta experiência, resolveu integrar uma empresa de Recursos Humanos e, desta, voou para a Lisbon Cruise Port, a entidade que gere os terminais de cruzeiros de passageiros de Lisboa, onde coordenou a sua Comunicação.
Resolveu, depois de alguns anos no mercado laboral, ingressar na universidade para poder consolidar aprendizagens e experimentar: formas de fazer e aprender.



