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Carreiras não-lineares: porque é que cada vez mais os jovens rejeitam o “emprego para a vida”?

É sabido que a visão tradicional de um “emprego para a vida” tem perdido força, maioritariamente entre os jovens. As suas carreiras passam por múltiplos caminhos, dissociando-se, desta feita, do rumo linear clássico profissional. Esta mudança não se explica apenas pela vontade de fugir à estabilidade “só porque sim”, mas por ser uma resposta complexa que mistura escolhas conscientes com imposições do mercado laboral.

Em Portugal, vários estudos e relatórios são conhecidos. O quadro atual afigura-se claro: a precariedade laboral é uma realidade estruturante. O relatório da Pordata (2024) explana que metade dos jovens com contratos temporários está nessa situação porque não encontrou uma alternativa permanente, valor muito acima dos 17% registados em média na União Europeia. Este dado revela uma pressão essencialmente forçada que obriga muitos jovens a aceitar empregos incertos e interrompidos. Paralelamente, a taxa de desemprego entre os 15 e os 24 anos alcançou os 19%, quase quatro vezes mais do que a dos adultos. Estes números traduzem dificuldades objetivas que moldam carreiras e as caracterizam como sendo fragmentadas e incertas.

Todavia, a realidade é que nem todos os jovens que têm uma carreira não-linear o devem a uma relativa imposição externa a estes. Segundo o relatório da OCDE “Risks That Matter for Young People” (2024), muitos jovens valorizam a flexibilidade e procuram experiências profissionais variadas e empreendedoras como estratégias deliberadas. Este desejo de autonomia surge num cenário onde o trabalho pode deixar de ser um contrato fixo para se tornar um conjunto de projetos em regime livre (freelance) ou deixar de ser realizado apenas no escritório para sê-lo em “qualquer lugar, a qualquer hora”. Qualquer uma das referidas realidades integra aquele que é o percurso profissional diversificado patente na atualidade.

As análises da Eurofound, reportadas no seu estudo anual “Living and working in Europe 2024”, contextualizam esta tendência ao destacar que os jovens dão prioridade crescente à conciliação entre vida pessoal e profissional como uma preocupação central, valorizando horários flexíveis e condições que lhes permitam gerir simultaneamente responsabilidades laborais, académicas e familiares. Além disso, o relatório enfatiza que a formação contínua é vista como essencial para a adaptação e empregabilidade num mercado em rápida evolução, reforçando que a aprendizagem ao longo da vida é um pilar para essas carreiras não-lineares.

Fonte: Freepik

No contexto português, esta escolha consciente é criada e ilustrada por dados do Youth Employment Index 2024, elaborado pela PwC, que indica que 30% a 40% dos jovens preferem contratos temporários por vontade própria. Além disso, mais de metade dos profissionais jovens planeia mudar de emprego ou até de carreira nos próximos anos.

Importa lembrar que, por trás dos números e dos dados, existem pessoas. Neste caso, são jovens que, perante a instabilidade económica, encontram também espaço para inovar, desenvolver múltiplas competências e alargar os seus horizontes na perspetiva do crescimento contínuo. Muitos sentem-se mais realizados a gerir percursos profissionais que lhes permitam aprender constantemente e adaptar-se ao mundo em mudança, mesmo enfrentando desafios emocionais e financeiros significativos. Este equilíbrio entre insegurança e oportunidade é um dos aspetos mais complexos de entender, pois envolve tanto fatores externos quanto escolhas internas.

Um ponto relevante que merece atenção é o impacto das redes sociais e das novas tecnologias na construção destas carreiras. A exposição a múltiplos modelos de sucesso, a facilidade no acesso a informação (errada ou não) e a formação tornam os jovens mais conscientes das possibilidades além do emprego tradicional. Contudo, esta exposição gera uma pressão para estar constantemente a evoluir e a provar competências, trazendo complexidade emocional acrescida aos seus percursos.

Assim, situações forçadas e escolhas estratégicas coexistem. Muitos jovens são empurrados para a instabilidade, aceitando carreiras não-lineares por ausência de outras opções. Outros, porém, abraçam esta realidade como oportunidade de crescimento e liberdade profissional. Ignorar esta dualidade seria reduzir um fenómeno complexo a simplificações injustas.

Fonte: Freepik

O debate sobre carreiras juvenis deverá desafiar-nos a refletir além dos discursos convencionais, olhando para um mercado de trabalho que é, simultaneamente, limitador e renovador. É urgente que políticas e práticas acompanhem esta transformação, oferecendo não só proteção, mas também oportunidades reais para que os jovens construam carreiras diversas, plenas e sustentáveis.

Fonte da capa: Freepik

Corrigido por Carolina O. Ferreira

AUTORIA

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Atualmente, colaborador da agência de comunicação e publicidade “VML”, na account da Microsoft, e responsável pelas pastas de «Apoios e Parcerias» e «Voluntariado» de uma entidade do terceiro setor - LABIT&E -, o Tiago frequenta o primeiro ano da licenciatura de Relações Públicas e Comunicação Empresarial. Formado em Artes do Espetáculo - Interpretação, pela Escola Profissional de Teatro de Cascais, iniciou a sua atividade profissional, fundando e presidindo uma associação sem fins lucrativos - Associação Sócio-Cultural e Artística Sem Tábuas -, uma entidade que utilizava a cultura e arte como ferramentas de desenvolvimento em contextos de bairros sociais, hospitais e escolas. Após 8 anos desta experiência, resolveu integrar uma empresa de Recursos Humanos e, desta, voou para a Lisbon Cruise Port, a entidade que gere os terminais de cruzeiros de passageiros de Lisboa, onde coordenou a sua Comunicação.
Resolveu, depois de alguns anos no mercado laboral, ingressar na universidade para poder consolidar aprendizagens e experimentar: formas de fazer e aprender.