Ciência

A Ciência por detrás do Caos Climático

Nos últimos anos, o clima em Portugal tem estado… completamente anormal. Termómetros a marcar 25°C em pleno outubro, chuvas repentinas que transformam ruas em rios numa questão de minutos, e ondas de calor que já nem esperam pelo verão para aparecer. Não é “azar”, não é “só mais um ano estranho”, é a ciência a gritar que o clima está a mudar a uma velocidade que já não dá para ignorar.

E se a conversa costuma soar pesada, a verdade é que perceber o que está a acontecer ajuda-nos a não cair naquelas narrativas de “isto sempre aconteceu”. A realidade é que não, não aconteceu desta forma.

Calor em outubro?

Fonte: David McNew

As temperaturas anormais de outubro são um resultado direto do aquecimento global. A atmosfera está a reter mais calor pela concentração crescente de gases com efeito de estufa, ou seja, dióxido de carbono, metano, entre outros. Isto faz com que as estações se tornem menos definidas: verões mais longos, outonos encalorados e invernos cada vez mais curtos.

Em Portugal, este fenómeno é intensificado pela sua localização geográfica. Estamos numa zona de transição entre climas, onde pequenas  alterações globais têm efeitos significativos. Para além disso, as massas de ar quente provenientes do Norte de África chegam mais frequentemente e permanecem mais tempo sobre a Península Ibérica. A falta de nebulosidade e a diminuição da humidade do solo reforçam esse aquecimento. E qual é o resultado? Outubro com temperaturas dignas de Algarve em julho.

Chuvas violentas – como é que acontecem?

A atmosfera mais quente acumula maior vapor de água. O problema é quando esta água cai toda de uma vez. As chamadas “precipitações extremas” não são apenas chuva forte:  são fenómenos de curta duração, mas com uma intensidade absurda. A formação destas tempestades está ligada a massas de ar muito húmidas, combinadas com frentes frias rápidas. Lisboa, Aveiro, Faro, Braga, ninguém tem escapado. As infraestruturas não estão dimensionadas para tanta água à velocidade com que cai, e é por isso que vemos inundações cada vez mais frequentes. O país não está preparado, e nós ficamos a ver a força da água levar carros, lojas e vidas para o caos. Todos os anos vemos este mesmo fenómeno a acontecer, já chegámos a perder vidas para as chuvas e inundações, mas, mesmo assim, não existe uma preparação para estes casos.

Fonte: OTIS IMBODEN/NGS

Ondas de calor: o fenómeno que mais está a crescer

Uma onda de calor é definida como um período de, pelo menos, três dias consecutivos com temperaturas superiores ao valor médio esperado. Portugal não só tem mais ondas de calor como estas começam mais cedo, acabam mais tarde e atingem intensidades inéditas. 

Fonte: Observatório Nacional da Desertificação (OND)

Tudo começa com algo simples e ao mesmo tempo devastador, como o aumento da temperatura média global. Mais calor retido na atmosfera significa que os picos de temperatura são muito mais fáceis de atingir. O planeta está, literalmente, a partir de um valor-base mais alto. É como subir uma montanha: iniciando pelo meio, vamos chegar ao pico da montanha muito mais rápido.

Outro ingrediente crucial vem do próprio chão. Portugal tem passado por vários anos de seca prolongada, e, quando o solo perde humidade, perde também a capacidade de arrefecer o ar através de evaporação. Menos evaporação equivale a menos arrefecimento natural.

Se há fenómeno que mostra sem filtros que o clima mudou são estas ondas de calor: mais frequentes, mais longas, mais intensas e mais mortíferas.
E não surgiram do nada, nasceram do desequilíbrio climático que nós próprios criámos. São o sintoma mais claro de que o planeta está a mudar e a entrar em desequilíbrio.

Isto vai piorar? Sim, se nada mudar. 

Os modelos climáticos não têm margem para grandes rodeios: são diretos, frios e claros. E todos apontam na mesma direção. Se o mundo continuar a emitir gases com efeito de estufa ao ritmo atual, Portugal e o Mundo vão enfrentar transformações profundas no clima,  e não estamos a falar de um futuro longínquo, estamos a falar das próximas décadas. As projeções mais recentes indicam que o país poderá enfrentar mais dias acima dos 40 °C, algo que antes era raro e agora se tornará comum. Isto significa verões mais longos, mais agressivos e perigosos, aumentando o risco de incêndios, desidratação, falhas energéticas e colapsos agrícolas. 

Vai existir maior risco de seca, porque o solo perde água mais depressa do que a consegue recuperar. Isto afeta a agricultura, os ecossistemas, o abastecimento urbano e o preço dos alimentos. Ao mesmo tempo, aumenta também os episódios de precipitação concentrada em episódios mais curtos e violentos, o que cria cheias repentinas, estragos massivos e revelam fragilidades urbanas que antes não eram tão visíveis. Quando chove menos vezes, mas com muito mais intensidade, o impacto é maior.

O que podemos fazer realmente? Mais do que achas.

Normalmente, sentimos que o tema é grande demais, pesado demais, distante demais. Mas a ação climática é feita exatamente do contrário, de escolhas pequenas e grandes que se acumulam, de decisões coletivas, de pressão pública, de educação e de política. Não é um problema individual, mas o individual faz parte da equação

Se reduzirmos o uso energético, se procurarmos meios de transporte mais sustentáveis, se houver um investimento em roupa sustentável estaremos a ajudar e muito o nosso planeta… Às vezes a pequena escolha entre um saco de papel e um saco de plástico vai fazer mesmo a diferença.

A ciência é clara: sem mudanças o mundo enfrentará ondas de calor cada vez mais brutais, chuvas ainda mais intensas e estações cada vez mais indefinidas.
Mas ainda há espaço para agir e entender o que está a acontecer, não só com números, mas com consciência.

A ação climática não é um sacrifício, mas sim uma forma de garantir que continuemos a viver em cidades suportáveis, com verões habitáveis, com água suficiente, com agricultura que funcione. Não temos controlo sobre tudo, mas temos controlo suficiente para fazer a diferença. E o nosso futuro depende precisamente disso.

Fonte da capa: National Geographic
Artigo revisto por Constança Paixão

AUTORIA

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Joana, 18 anos, adora explorar o mundo à sua maneira. De espírito criativo e comunicativo, encontrou na escrita formas de unir as suas paixões: compreender, questionar e dar voz ao que a inspira. Fascinada por música e pelos anos 2000, curiosa por natureza e apaixonada pela escrita, procura constantemente novas formas de se comunicar com as pessoas.