Literatura

Raphael Montes: como se reinventa o mal?

Existe um momento muito específico na vida de quem lê Raphael Montes: aquele instante em que fechamos o livro com força, olhamos para a parede e pensamos: “meu Deus, que horror… vou ler só mais um capítulo, só por curiosidade”.

Se a literatura clássica nos ensina a contemplar o belo, a obra de Raphael Montes faz o contrário, arrastando-nos de cabeça para a lama da natureza humana. O jovem autor brasileiro, também argumentista de sucessos como Bom Dia, Verônica, revitalizou o género do thriller e do horror policial em língua portuguesa. O seu sucesso entre a geração Z não é um acaso. Montes captou algo fundamental sobre a nossa época: num mundo de estímulos rápidos, o medo é a emoção que nos mantém mais despertos. Os seus livros não são apenas histórias de crimes, são estudos perturbadores sobre até onde as “pessoas de bem” podem ir quando ninguém está a ver.

Fonte da Imagem: Literatura Policial

O que distingue Raphael Montes dos clássicos policiais, como Agatha Christie e Conan Doyle, é a ausência de “luvas de pelica“: aquela delicadeza polida que suaviza o impacto da violência. No policial clássico, o crime é um puzzle elegante para ser resolvido. Nos livros de Montes, o crime é visceral, sujo e desconfortável.

Tomemos como exemplo Jantar Secreto. A premissa parece saída de um pesadelo absurdo: quatro jovens universitários que, para pagarem as dívidas, decidem organizar jantares onde servem carne humana de qualidade a uma elite rica. O choque inicial é o canibalismo, claro. Mas o verdadeiro horror, aquele que fica connosco, é a crítica social. O autor usa o grotesco para esfregar na cara do leitor a hipocrisia de uma sociedade de consumo que devora tudo e todos – literal e metaforicamente. Ele mostra-nos que o “monstro” não é uma criatura sobrenatural: é o jovem estudante de medicina, o nosso vizinho ou até nós mesmos, nas circunstâncias “certas”.

Outro ponto central na sua obra é a psicologia da obsessão. Em Dias Perfeitos, entramos na mente de Téo, um estudante de medicina que sequestra a rapariga por quem se apaixona para a fazer amá-lo à força. O brilhantismo (e o perigo) do livro está na forma como Montes nos transporta para dentro da lógica do psicopata. Téo não se acha mau; pensa que está a fazer um gesto de amor. Isto cria uma dissonância cognitiva no leitor: estamos a torcer para que a vítima fuja, mas, ao mesmo tempo, estamos fascinados pela mente do vilão. Montes desafia o leitor a sentir empatia pelo diabo, testando os nossos limites morais a cada página.

Além disso, Raphael Montes escreve para a “Geração Netflix“. A estrutura dos seus livros – capítulos curtos, cliffhangers (ganchos) no final de cada cena e um ritmo frenético – imitam a experiência de fazer a maratona de uma série (binge-watching). Em Suicidas, a sua obra de estreia, a narrativa não-linear, que mistura relatórios policiais com áudios e diários em tempo real, mantém o cérebro do leitor em alerta constante. Ao saber que a nossa atenção é um recurso escasso, Montes não nos dá tempo para respirar. É literatura de impacto, feita para ser consumida com urgência.

Então, porquê ler algo que nos causa náuseas, taquicardia e medo?

A resposta reside na catarse. Vivemos numa sociedade que nos obriga a ser polidos, corretos e felizes nas redes sociais. Os livros de Raphael Montes funcionam como uma válvula de escape para as nossas sombras. Permitem-nos explorar o tabu, a violência e a loucura num ambiente seguro: o sofá da sua sala.

Raphael Montes não escreve sobre monstros debaixo da cama. Escreve sobre os monstros que vivem em condomínios de luxo no Rio de Janeiro ou que se sentam ao nosso lado na faculdade. E isso é assustador. Mas é também o que o torna um dos autores mais eletrizantes da atualidade. Se tiverem estômago para isso, abram os seus livros. Mas fica o aviso: depois de entrarem na sua mente, o mundo real vai parecer um lugar muito mais suspeito.

Imagem de Capa: O Barquinho Cultural

Corrigido por Eva Guedes e Mariana Ranha

AUTORIA

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A Luíza tem 19 anos e veio do Brasil. Atualmente, está no 1.º ano da licenciatura em Relações Públicas e Comunicação Empresarial na ESCS. Desde pequena, sempre foi fascinada pelo mundo da literatura, adora explorar diferentes estilos e continua completamente apaixonada por tudo o que envolve livros. Com esta oportunidade na ESCS Magazine, espera transformar essa paixão pela escrita em novas ideias e experiências criativas.